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Aquicultura e Pesca

Produção de tilápia cresce 148,2% em dez anos; bem-estar animal ganha espaço na gestão

Com 707,5 mil toneladas produzidas em 2025, espécie lidera a piscicultura brasileira; relatório da Alianima analisa relações entre manejo, qualidade do pescado e eficiência produtiva


Publicado em: 06/10/2026 às 11:00hs

Produção de tilápia cresce 148,2% em dez anos; bem-estar animal ganha espaço na gestão

A produção brasileira de tilápia avançou 148,2% em dez anos, passando de cerca de 285 mil toneladas em 2015 para aproximadamente 707,5 mil toneladas em 2025. Responsável por 70% dos peixes produzidos no país, a espécie ocupa posição central na piscicultura nacional e amplia o debate sobre como conciliar crescimento, qualidade, competitividade e bem-estar animal.

Essa discussão orienta a terceira edição do Observatório do Peixe, relatório elaborado pela Alianima, organização sem fins lucrativos que atua junto à indústria alimentícia em temas relacionados à produção animal.

Com foco na tilapicultura, o documento reúne estudos científicos, informações técnicas e análises sobre as relações entre as condições de criação dos peixes, o desempenho produtivo e a qualidade do pescado. Também identifica lacunas de conhecimento, especialmente na mensuração do retorno econômico das melhorias de bem-estar.

Tilápia concentra 92% do volume exportado pela piscicultura

Além de liderar a produção nacional, a tilápia respondeu por aproximadamente 92% do volume exportado pela piscicultura brasileira em 2025.

Essa participação amplia a exposição da cadeia às mudanças no comércio internacional. Alterações nas tarifas dos Estados Unidos, principal destino das exportações brasileiras, a concorrência no mercado doméstico e a busca por novos compradores reforçam a necessidade de eficiência e diferenciação.

Para Luciene Mignani, diretora de Desenvolvimento e Inovação da Secretaria Nacional de Aquicultura do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), a continuidade da expansão depende de um ambiente favorável à pesquisa, à inovação e à transformação digital.

A diretora também destaca a importância da biossegurança, da qualificação dos produtores e de políticas públicas que ampliem o acesso aos mercados e promovam competitividade e sustentabilidade.

Ciência relaciona bem-estar ao desempenho e à qualidade do pescado

Segundo o Observatório do Peixe, estudos já identificam relações positivas entre o bem-estar das tilápias e indicadores como crescimento, qualidade do filé, sobrevivência, saúde e redução de perdas.

O grau de conhecimento, porém, varia conforme o tema. O levantamento considera mais consistentes as evidências relacionadas a estresse, transporte, pré-abate, crescimento e densidade de alojamento.

Pesquisas sobre enriquecimento ambiental, exercício e nutrição funcional apresentam resultados promissores. Já as relações com saúde e sobrevivência ainda precisam de maior aprofundamento, enquanto a literatura sobre impactos econômicos permanece limitada.

Caroline Maia, especialista em peixes da Alianima, explica que o bem-estar deve ser analisado em conjunto com as condições de manejo, alimentação, qualidade da água, densidade, transporte e abate.

Na avaliação da especialista, essas variáveis se conectam ao desempenho e à qualidade do pescado, mas ainda faltam dados para quantificar com precisão os efeitos econômicos diretos das melhorias.

Investimentos em manejo têm benefícios potenciais, mas retorno exige avaliação

A adoção de práticas de bem-estar pode demandar capacitação das equipes, monitoramento, ajustes no manejo, adequações dos sistemas produtivos e ferramentas de gestão.

Em contrapartida, o relatório aponta benefícios potenciais associados à redução de perdas, à maior previsibilidade das operações, à eficiência e à diferenciação do produto.

A dificuldade está em medir esses resultados. Enquanto investimentos iniciais e despesas operacionais podem ser calculados diretamente, ganhos futuros, perdas evitadas e oportunidades comerciais são mais difíceis de estimar.

Por isso, o documento não estabelece um retorno financeiro garantido para essas mudanças. A proposta é acompanhar os resultados de cada operação e ampliar a base de informações disponível para o setor.

Para Beatriz Veloso, gerente de Relações Corporativas da Alianima, as empresas podem começar incorporando indicadores de bem-estar às estratégias de médio e longo prazo. O acompanhamento gradual permite identificar oportunidades de melhoria e preparar a atividade para futuras demandas de mercado.

Competitividade envolve qualidade, sanidade e transparência

A integração aos mercados internacionais coloca outros atributos, além do preço, na disputa por compradores. Qualidade, regularidade do produto, segurança alimentar e confiança nos processos produtivos ganham relevância.

Valério Angelozi, proprietário da Piscicultura Super Fish e presidente da Peixe Paraná — Associação Paranaense de Aquicultura —, avalia que a competitividade depende tanto da eficiência quanto da capacidade de demonstrar responsabilidade socioambiental e transparência.

Segundo ele, a qualidade do pescado entregue ao consumidor resulta de todas as etapas da cadeia. Manejo, sanidade, transporte e processamento influenciam os indicadores produtivos e as características do produto final.

Relatório propõe indicadores e acompanhamento contínuo

Entre os caminhos apresentados pelo Observatório do Peixe está a integração do bem-estar à gestão cotidiana, com indicadores objetivos, capacitação e monitoramento contínuo.

O documento propõe acompanhar mudanças de mercado, antecipar tendências, assumir compromissos públicos, implementar melhorias e avaliar seus efeitos. A articulação entre produtores, pesquisadores, empresas e demais participantes da cadeia também é apontada como necessária.

Para Caroline Maia, o avanço depende da aplicação de práticas validadas e da produção de conhecimento sobre seus resultados, considerando que diferentes sistemas podem exigir soluções distintas.

Além do relatório, a Alianima informa oferecer gratuitamente consultoria, suporte técnico e parcerias para empresas interessadas em implementar práticas de bem-estar animal com orientação baseada em evidências científicas.

Observatório do Peixe

Fonte: Portal do Agronegócio

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