MANDIOCA/Perspectiva: Menor oferta deve impulsionar disputa por mandioca em 2017

A disponibilidade de mandioca para as indústrias processadoras deve ser menor em 2017, aumentando a disputa pela aquisição do produto entre as empresas, segundo pesquisas do Cepea


Publicado em: 13/01/2017 às 12:50hs

MANDIOCA/Perspectiva: Menor oferta deve impulsionar disputa por mandioca em 2017

A disponibilidade de mandioca para as indústrias processadoras deve ser menor em 2017, aumentando a disputa pela aquisição do produto entre as empresas, segundo pesquisas do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Sem fécula em estoque e com um possível aumento na demanda industrial, a expectativa para o primeiro semestre de 2017 é de alta nos preços do produto. Entre abril e maio – período de início de safra –, pode haver alguma elevação na oferta, porém, abaixo do que se registrou em anos anteriores, o que deve limitar a pressão sobre as cotações do produto.

Por causa do excesso de chuva no início de 2016, parte das lavouras apresentou podridão radicular. Por isso, a matéria-prima disponível no mercado neste ano é aquela cultivada em 2015.

A rentabilidade negativa da mandiocultura entre 2014 e 2015, o endividamento de parte dos agricultores e até mesmo a falta de manivas para novos plantios em 2016 reduziram o interesse produtor e levaram à diminuição da área destinada à mandioca no Centro-Sul. Além disso, o clima desfavorável e as doenças já implicam em menor produtividade agrícola das lavouras em fase de colheita.

No Paraná, a produção deve ser a menor desde a safra 2008/09, segundo a Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab/Deral). A estimativa é que a área disponível com mandioca no estado seja de 104,7 mil hectares na safra 2016/17, queda de 21% frente à temporada passada. Quanto à produtividade média, a previsão é de 26,4 toneladas/hectare, 4% inferior à de 2016. A produção estimada é de 2,76 milhões de toneladas na safra 2016/17, quantidade 24% abaixo da temporada passada. Neste cenário, parte da indústria local poderá se abastecer em estados vizinhos, principalmente Mato Grosso do Sul e São Paulo. Quanto ao Nordeste, com a falta de mandioca, agentes do setor devem ter o Centro Sul como origem da matéria-prima processada, especialmente no primeiro semestre.

Produtores podem comercializar lavouras de mandioca com menos de dois ciclos, diminuindo a oferta na segunda metade do ano. Contudo, ainda há incertezas sobre o avanço da área a ser cultivada, uma vez que agentes de mercado apontam aumento nos custos de produção, principalmente por conta dos valores dos arrendamentos.

Assim como em anos anteriores, o clima – especialmente no Nordeste – deve influenciar na oferta de mandioca em 2017. O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) prevê que entre janeiro e março as chuvas na região Nordeste do Brasil se situem abaixo da faixa normal climatológica, fato que reforça possibilidade de falta de matéria-prima nos principais estados produtores. Para a região Sul, o órgão destaca a possibilidade de uma fraca condição de La Niña, o que também deve influenciar sobre o ritmo de colheita.

Fécula: Cotação elevada pode limitar avanço do mercado – A baixa oferta de raízes associada a uma possível diminuição em termos de rendimentos agrícola e industrial podem resultar em menor produção de fécula de mandioca em 2017. Os preços tendem a subir, limitando avanços no mercado de fécula. Para o setor de atacado, como frigorífico e massas, o produto deve continuar restrito. Já o setor industrial, como papel, papelão e amidos modificados, ainda pode ter o amido de milho como insumo.

Apesar de uma possível melhora na demanda frente a 2016, as relações contratuais entre os agentes podem ser dificultadas neste ano. Além disso, deve haver crescimento dos negócios e parcerias entre as próprias fecularias, como acontece em períodos de restrição de oferta.

Segundo estimativas do Banco Central do Brasil (Bacen), em 2017 o Produto Interno Bruto brasileiro (PIB) deve ter crescimento de 0,5%, afirmando elevação de 0,88% na produção industrial. Isso poderia favorecer a retomada do consumo de fécula por parte dos segmentos. Todavia, a demanda deve seguir concentrada nos segmentos atacadista, frigoríficos e massas.

De acordo com dados do Cepea, o estoque de passagem de 2016 para 2017 foi de 92,3 mil toneladas, o maior de toda a série histórica, iniciada em 2008. Porém, 28,3% deste total esteve comprometido com as modificadoras de amidos. Outros 38% estavam em fecularias, indicando concentração de estoques, cenário que deve prevalecer em boa parte deste ano.

Parte dos segmentos consumidores e até mesmo a indústria de fécula podem se abastecer no mercado internacional em 2017, devido aos baixos preços do produto na Ásia e à taxa de câmbio ainda favorável. Segundo o Bacen, o dólar médio em 2017 poderá se situar em R$ 3,40. Sendo assim, é de se esperar que o déficit na balança comercial da fécula seja o maior dos últimos anos. Enquanto o produto brasileiro segue com pouca participação no mercado internacional, o Paraguai pode continuar atingindo novos mercados na América do Norte e União Europeia, principalmente.

A crise econômica brasileira e o aumento dos custos na indústria de fécula – energia e matéria-prima, principalmente – devem dificultar novos investimentos. Desta maneira, a capacidade instalada deve seguir estável, com aumento na ociosidade. Todos os estados produtores podem ter quedas na produção. O Paraná deve continuar como líder na produção nacional de fécula, seguido pelo Mato Grosso do Sul e estado de São Paulo.

Farinha: Demanda ainda dependente do Nordeste em 2017 – O consumo de farinha caiu em boa parte das regiões brasileiras, devido às mudanças nos padrões da população. Entretanto, a maior comercialização ainda está concentrada nas regiões Norte e Nordeste do País, que são grandes influenciadores deste mercado, o que não deve ser diferente em 2017. A disponibilidade de raízes para processamento nestas regiões pode ser menor, já que a produtividade já dá sinais de diminuição, segundo colaboradores do Cepea.

Este cenário se deve à severa queda na área plantada com mandioca na maioria dos estados do Norte e Nordeste do Brasil em 2015. Segundo dados do IBGE, na Bahia, principal estado produtor do Nordeste, a área plantada entre 2014 e 2015 recuou 4,4%, ao mesmo tempo em que a produtividade tem sido baixa. No Pará, o maior produtor do Norte, a mandioca ocupou área 10,2% menor.

Caso este cenário se confirme, agentes do Nordeste devem se abastecer no Centro-Sul, como vem ocorrendo nos últimos anos. Todavia, neste ano, a oferta de mandioca no Paraná e no estado de São Paulo pode ser menor, podendo influenciar em aumento de preços. Assim, farinheiras do Paraná devem aumentar a produção, acarretando em forte disputa por matéria-prima com as fecularias. Nas regiões paulistas, o principal mercado a ser atendido é o da Grande São Paulo. No entanto, algumas empresas da região de Assis têm a possibilidade de aumentar as vendas de farinha para o Nordeste.

Em alguns mercados do Nordeste, a saca de 50 kg de farinha chegou a superar os R$ 150,00 em 2016, com impactos negativos sobre o consumo. Para 2017 é esperado recuo da inflação, com o IPCA em 4,85% segundo o Bacen. Além disso, com a notável queda na renda, o consumo pode diminuir. Com preços muito elevados, o produto passa a ser substituído.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), até novembro/16 os estoques públicos de farinha de mandioca totalizavam 8,16 mil toneladas. Nos períodos de valores em alta poderia o governo federal atuar para minimizar as altas. De todo o modo, esta quantidade não seria suficiente para estabilizar as cotações por longos períodos.

Análise perspectiva sobre o setor de mandioca elaborada pelo Cepea.
Equipe: Prof. Dr. Lucilio Alves, Fábio Isaias Felipe e Jéssica Caroline Pereira.

/* */ --