Transporte de grãos custa até 48% mais no Brasil que nos EUA; armazenagem também limita o agro
Especialistas reunidos no GAFFFF apontam dependência das rodovias e capacidade de estocagem equivalente a 62% da produção nacional como obstáculos à competitividade.
Publicado em: 05/10/2026 às 18:20hs
O avanço da produção de grãos no Brasil amplia a pressão sobre uma infraestrutura marcada por custos elevados de transporte e capacidade insuficiente de armazenagem. Dependendo da rota, especialmente quando predomina o uso de caminhões, o custo de escoamento pode ser até 48% maior que nos Estados Unidos. A capacidade nacional de estocagem, por sua vez, equivale a 62% da produção de grãos.
Os dados foram apresentados durante o painel “Logística e Infraestrutura: O Futuro do Escoamento da Produção”, realizado em 2 de outubro, no GAFFFF, em São Paulo. O debate reuniu representantes dos setores de logística, concessões rodoviárias e armazenagem para discutir como acompanhar a expansão agrícola e reduzir os gargalos do escoamento.
Dependência das rodovias encarece o transporte de grãos
Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão Nacional de Logística e Infraestrutura da CNA e moderadora do painel, destacou que a diferença de custos está relacionada, entre outros fatores, à composição da matriz de transporte.
Segundo ela, a comparação com os Estados Unidos mostra a importância de ampliar o uso de alternativas ao transporte rodoviário, sobretudo em percursos longos.
“Os Estados Unidos são um país de extensão territorial similar ao Brasil, mas utilizam bem a sua hidrovia”, afirmou.
A diferença de até 48% varia conforme a rota analisada e ganha relevância nos trajetos predominantemente rodoviários.
Para Fernando Dihel, diretor executivo da Ultracargo, a integração entre modais é fundamental para melhorar a eficiência logística. O executivo observou que áreas produtoras de Mato Grosso estão a distâncias de até 2 mil quilômetros dos portos, o que aumenta o desafio de transportar grandes volumes.
Na sua avaliação, os caminhões atendem bem às distâncias curtas e médias, mas os percursos mais extensos exigem uma combinação mais eficiente entre os diferentes meios de transporte.
Mato Grosso consegue armazenar apenas metade da produção
O déficit de armazenagem é particularmente expressivo em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país. Segundo Elisangela, o estado dispõe de capacidade para guardar apenas metade do volume produzido.
A limitação evidencia o descompasso entre a expansão agrícola e os investimentos em infraestrutura nas novas fronteiras de produção.
No conjunto do Brasil, a capacidade equivalente a 62% da produção reforça a necessidade de ampliar as estruturas de estocagem e melhorar sua distribuição nas regiões produtoras.
Duplicação da BR-163 busca melhorar escoamento em Mato Grosso
A infraestrutura rodoviária também ocupou espaço central no debate. Cidinho Santos, ex-senador e presidente do Conselho Administrativo da Nova Rota do Oeste, destacou a importância da BR-163 para a movimentação da produção mato-grossense.
Segundo ele, cerca de 80% da produção do estado transita pela rodovia, tornando a via estratégica para o agronegócio regional.
A concessionária já duplicou aproximadamente 300 dos 450 quilômetros previstos no trecho sob sua responsabilidade. Conforme Santos, a expectativa é concluir até o fim de 2026 a duplicação entre o Posto Fiscal de Diamantino e Sinop.
O executivo avaliou que as obras representam um avanço tanto para os usuários da estrada quanto para o escoamento agrícola.
Armazenagem nas fazendas deve atrair mais investimentos
Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, projeta uma aceleração dos investimentos em armazenagem dentro das propriedades na próxima década.
Na avaliação do executivo, uma redução no ritmo de abertura de novas áreas pode levar os produtores a direcionar mais recursos para infraestrutura e gestão de riscos. Entre os destinos desse investimento, ele citou irrigação, caminhões próprios e estruturas de estocagem.
A perspectiva apresentada no painel é de que a melhoria da infraestrutura das fazendas ganhe importância nas decisões de investimento, acompanhando uma nova etapa de desenvolvimento do setor.
Industrialização do agro exige previsibilidade
Nogueira também destacou o potencial de expansão da industrialização do agronegócio brasileiro, com maior agregação de valor à produção. O avanço do etanol de milho e do biodiesel foi citado como exemplo desse movimento.
Para o executivo, a previsibilidade é uma condição central para viabilizar novos projetos.
“Não precisamos de subsídio de nada, a gente só precisa ter previsibilidade para poder fazer bons investimentos”, afirmou.
As avaliações do painel apontam para uma agenda que combina ampliação da armazenagem, melhoria das rodovias e integração entre modais. Esses investimentos são considerados essenciais para que a infraestrutura acompanhe a produção e contribua para a competitividade dos grãos brasileiros.
Fonte: Portal do Agronegócio
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