Tarifaço dos EUA ameaça exportações brasileiras e aumenta risco de perda de benefícios fiscais no agro e na indústria
Nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros pode provocar acúmulo de estoques, pressionar exportadores e comprometer regimes como Drawback e Reintegra por falhas na rastreabilidade fiscal
Publicado em: 29/07/2026 às 15:30hs
A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendeu um alerta entre empresas exportadoras da indústria e do agronegócio. Além do impacto comercial provocado pela possível redução da demanda americana, especialistas apontam um novo risco: a dificuldade de comprovar corretamente o uso de insumos e estoques vinculados a benefícios fiscais, como Drawback e Reintegra.
O cenário preocupa porque a desaceleração das vendas externas pode gerar acúmulo de matérias-primas, produtos acabados e estoques intermediários em fábricas, armazéns e centros de distribuição. Com cadeias produtivas contínuas, muitas empresas não conseguem interromper rapidamente a produção, aumentando o desafio de manter o controle fiscal e operacional.
Risco fiscal cresce com aumento dos estoques
Segundo especialistas em comércio exterior, o principal desafio para empresas beneficiadas por regimes especiais será garantir a rastreabilidade dos produtos e insumos utilizados na fabricação de mercadorias destinadas à exportação.
“O maior risco agora é o tempo. Empresas que não conseguem comprovar o uso correto dos insumos podem perder o benefício fiscal simplesmente por não conseguir reunir a informação a tempo”, afirma Pedro Sobreira, engenheiro, diretor de operações da Eco Inventory e ex-auditor.
O Drawback, regime que permite suspensão ou isenção de tributos sobre insumos utilizados na produção de bens exportados, exige comprovação detalhada da aplicação dos materiais utilizados.
Já o Reintegra, programa voltado à devolução parcial de tributos federais para empresas exportadoras, também depende de registros precisos para validação dos créditos.
Com estoques maiores, cresce a necessidade de demonstrar:
- qual insumo foi utilizado;
- em qual produto foi aplicado;
- qual lote foi produzido;
- qual será o destino final da mercadoria.
Falta de integração entre estoque físico e contabilidade aumenta risco
Um dos principais pontos de atenção está na diferença entre os controles físicos existentes nos depósitos e os registros contábeis das empresas.
De acordo com Sobreira, muitas indústrias brasileiras ainda dependem de processos manuais para cruzar informações de produção, estoque e escrituração fiscal, utilizando planilhas e conferências realizadas diretamente nas unidades produtivas.
Esse modelo pode gerar divergências justamente em um momento em que a comprovação documental se torna essencial para manter benefícios tributários.
“Com a tarifa dos EUA, qualquer diferença entre o estoque físico e o contábil pode significar perda de Drawback ou Reintegra. A indústria está correndo contra dois relógios: o da produção e o da comprovação fiscal”, explica o especialista.
A expectativa é de aumento na procura por sistemas automatizados de conciliação de inventário, capazes de integrar dados operacionais e fiscais para reduzir riscos de perda de benefícios.
Agronegócio brasileiro tem US$ 4,2 bilhões em exportações sob impacto da tarifa americana
O impacto da medida dos Estados Unidos também atinge diretamente o agronegócio brasileiro.
Segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), aproximadamente 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro destinadas aos Estados Unidos permanecem expostas à tarifa de 25%, mesmo após a ampliação da lista de produtos isentos.
Entre os itens preservados estão produtos como:
- café verde;
- café torrado;
- carne bovina;
- suco de laranja;
- pescados.
Por outro lado, permanecem sujeitos à sobretaxa produtos importantes da pauta agroindustrial brasileira, incluindo:
- açúcar orgânico;
- complexo sucroalcooleiro;
- café solúvel;
- sebo bovino;
- máquinas agrícolas;
- produtos de madeira.
Estimativa da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) aponta que a medida pode afetar aproximadamente US$ 4,2 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro.
Entre os segmentos mais expostos estão:
- produtos florestais;
- sebo bovino, com cerca de US$ 416 milhões exportados;
- complexo sucroalcooleiro, com aproximadamente US$ 401 milhões;
- café solúvel, que movimentou cerca de US$ 1 bilhão em exportações em 2025.
Agroindústrias enfrentam desafio adicional com produção contínua
No agronegócio, o problema ganha uma dimensão ainda maior porque diversas cadeias trabalham com produção sazonal e processamento contínuo.
Usinas de açúcar e etanol, indústrias de processamento de sebo bovino e cooperativas agroindustriais precisam administrar estoques elevados durante determinados períodos do ano, reduzindo a capacidade de ajustar rapidamente a produção diante de uma queda inesperada da demanda externa.
Nesse contexto, a necessidade de rastrear corretamente matérias-primas e produtos exportados torna-se estratégica para evitar perdas financeiras.
Empresas que utilizam regimes como Drawback e Reintegra precisarão reforçar seus controles internos para garantir que os benefícios fiscais sejam mantidos mesmo em um ambiente de maior pressão comercial.
Tarifa dos EUA amplia necessidade de gestão integrada no comércio exterior
O novo cenário imposto pela tarifa americana mostra que o impacto das barreiras comerciais vai além da redução da competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo.
Para indústria e agronegócio, o desafio passa também pela capacidade de controlar estoques, integrar informações fiscais e garantir transparência em toda a cadeia produtiva.
Com maior exposição ao risco tributário, empresas exportadoras deverão acelerar investimentos em tecnologia, rastreabilidade e gestão de dados para preservar margens e manter competitividade internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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