Publicado em: 16/03/2026 às 09:30hs
A intensificação do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã inaugura um novo período de incerteza para o comércio internacional. O cenário afeta diretamente a logística marítima, responsável por aproximadamente 80% do comércio mundial em volume.
A combinação entre tensões geopolíticas, volatilidade no mercado de energia e um ambiente comercial cada vez mais protecionista tende a elevar os custos logísticos e aumentar a imprevisibilidade das cadeias globais de suprimentos. Diante desse contexto, empresas e governos já começam a reavaliar estratégias comerciais e operacionais.
A atual instabilidade no Oriente Médio representa uma mudança importante na dinâmica do comércio internacional. Nas últimas décadas, a eficiência operacional era o principal fator que guiava as decisões logísticas. Agora, o risco geopolítico passa a ocupar papel central no planejamento das cadeias globais.
De acordo com Marcos Silva, CIO da Datamar e especialista em tecnologia aplicada à logística marítima, o próprio comportamento do setor já demonstra essa transformação.
Segundo ele, o transporte marítimo deixou de apenas reagir aos movimentos da economia global e passou a antecipá-los. Antes mesmo da reação dos indicadores macroeconômicos, a atividade marítima já sinaliza mudanças estruturais no comércio internacional.
Um dos principais pontos de atenção é o Estreito de Hormuz, região estratégica por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente.
Qualquer ameaça à estabilidade da área costuma gerar reações imediatas nos mercados energéticos, impactando diretamente o preço do bunker fuel, combustível utilizado pelos navios.
Diante desse cenário, armadores já avaliam mudanças operacionais importantes, como:
Dados da Datamar indicam que, somente em janeiro de 2026, cerca de 71 navios porta-contêineres partiram do Brasil com destino a países direta ou indiretamente envolvidos nas atuais tensões, o que evidencia a exposição do comércio brasileiro ao cenário geopolítico.
Os efeitos da instabilidade não se limitam ao Golfo Pérsico. Analistas apontam a formação de um chamado “arco de risco” no transporte marítimo global, que inclui outros pontos estratégicos de tráfego, como:
O Egito, cuja economia depende fortemente das receitas do Canal de Suez, pode sofrer impactos caso armadores decidam evitar o Mar Vermelho diante da ameaça de ataques — especialmente ligados ao grupo Houthi, no Iêmen.
Já Omã é considerado um importante termômetro da estabilidade no próprio Estreito de Hormuz.
Especialistas destacam que, em cadeias logísticas altamente interdependentes, a instabilidade em um único ponto pode gerar efeitos em cascata em todo o sistema global de transporte.
Historicamente, crises no Oriente Médio afetam primeiro a percepção de risco no mercado antes de provocar impactos diretos nas operações logísticas.
Entre os sinais que já começam a ser monitorados pelo setor estão:
Experiências recentes mostram que os custos logísticos podem subir não apenas por interrupções efetivas, mas também pela expectativa de risco nas rotas comerciais.
Mesmo distante do epicentro do conflito, o Brasil também apresenta exposição ao cenário.
A pauta de importações mostra forte dependência de insumos petroquímicos provenientes da região. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, plásticos representaram 74,14% das importações conteinerizadas originadas de países direta ou indiretamente envolvidos nas tensões.
Nas exportações brasileiras para esses mercados, os principais produtos são:
Esse perfil indica que eventuais aumentos no custo do frete marítimo podem afetar diretamente a competitividade das commodities brasileiras.
O ambiente geopolítico mais instável também se soma ao avanço de políticas tarifárias, especialmente por parte dos Estados Unidos.
A combinação entre protecionismo e riscos logísticos tende a acelerar mudanças estratégicas nas cadeias produtivas globais, incluindo:
Na avaliação de especialistas, decisões corporativas passam a considerar simultaneamente custo comercial e risco geopolítico, marcando um afastamento da lógica tradicional da globalização baseada exclusivamente na eficiência.
A análise prospectiva do setor trabalha atualmente com três cenários principais para os próximos meses:
Diante desse ambiente de maior imprevisibilidade, cresce a necessidade de ferramentas capazes de identificar sinais antecipados de mudanças nas rotas comerciais e na dinâmica do comércio internacional.
Em um contexto de incerteza global, a inteligência de dados passa a desempenhar papel estratégico na gestão logística.
Plataformas analíticas funcionam como sensores antecipados da economia global, identificando mudanças por meio de variações nas rotas marítimas, escalas portuárias e comportamento dos fretes.
Segundo Marcos Silva, compreender o funcionamento das rotas marítimas tornou-se fundamental para entender os rumos da economia mundial.
Ele destaca ainda que a vantagem competitiva das empresas não está apenas na adoção de novas tecnologias, mas na capacidade de integrar ferramentas modernas com métodos analíticos já consolidados.
De acordo com o especialista, o avanço tecnológico não substitui soluções que há décadas apoiam decisões corporativas, mas as fortalece. O verdadeiro valor está em combinar novas tecnologias com práticas que já demonstraram eficácia ao longo do tempo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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