Publicado em: 02/03/2026 às 18:00hs
Os produtores de Mato Grosso enfrentam uma safra desafiadora, marcada por aumento expressivo dos custos logísticos e dificuldades no transporte de grãos. O principal corredor de exportação, que liga o estado ao distrito de Miritituba, sofre com gargalos estruturais e saturação operacional, especialmente no trecho da BR-163, o que tem elevado o tempo de deslocamento e os preços dos fretes.
Em 2025, o volume de cargas movimentadas na região de Miritituba chegou a 15,3 milhões de toneladas, um aumento de 24,6% em relação a 2024. Apesar do avanço, o fluxo intenso e as limitações de acesso continuam a reduzir a eficiência logística, justamente no período de maior concentração de embarques.
De acordo com a Aprosoja MT, o aumento no frete impacta diretamente a rentabilidade do produtor. O trajeto entre Sinop e Miritituba custa cerca de R$ 20 por saca, enquanto a soja é vendida a aproximadamente R$ 106 brutos — resultando em menos de R$ 100 líquidos após encargos.
O vice-presidente norte da Aprosoja MT, Ilson José Redivo, alerta que a infraestrutura não acompanha o crescimento da produção. “Há trechos ainda sem asfalto e, na época das chuvas, caminhões precisam ser rebocados em subidas, formando filas de até 30 quilômetros”, afirmou.
Além dos custos logísticos, o estado enfrenta um déficit de armazenagem — com capacidade equivalente a apenas 52% do volume produzido. Isso força o escoamento imediato da safra, aumentando a dependência de um sistema de transporte já sobrecarregado.
Produtores de diferentes regiões de Mato Grosso relatam que os gargalos logísticos têm provocado atrasos e elevado o custo das operações. A agricultora Katia Hoepers, de Santa Rita do Trivelato, explica que “o frete e o diesel são os maiores vilões da rentabilidade”. Segundo ela, a falta de estrutura em Miritituba causa filas e atrasos na descarga dos caminhões, agravados pelo crescimento das áreas plantadas sem expansão proporcional da armazenagem.
No norte do estado, o produtor Mateus Berlanda, de Alta Floresta, descreve um cenário semelhante. “As estradas regionais têm muitos trechos de chão e pontes danificadas. Durante o período chuvoso, há caminhões que ficam dias parados. Mesmo quando conseguimos chegar aos armazéns, enfrentamos filas de até quatro dias para descarregar”, relatou.
Um novo acesso pavimentado ao distrito de Miritituba está em construção e deve ser concluído apenas em novembro de 2026. Até lá, o tráfego permanece dependente de vias precárias e sujeitas a interrupções.
Segundo o diretor administrativo da Aprosoja MT, Diego Bertuol, os produtores esperam que recursos do FETHAB sejam aplicados de forma mais efetiva na melhoria da infraestrutura. “O produtor contribui esperando retorno em estradas melhores. Reconhecemos os avanços, mas é preciso reavaliar o uso do FETHAB, pois as margens estão cada vez menores”, destacou.
Para o setor produtivo, ampliar a armazenagem rural é essencial para reduzir a pressão sobre os corredores de exportação. Com maior capacidade de estocagem nas fazendas, o produtor pode planejar melhor a venda e o transporte, evitando o pico de demanda durante a colheita.
No médio prazo, a Ferrogrão é vista como uma solução estratégica para transformar o escoamento da produção mato-grossense. O projeto prevê a ligação ferroviária entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), o que permitiria reduzir significativamente o tráfego de caminhões e os custos logísticos no Arco Norte.
Enquanto a pavimentação e novos projetos logísticos não se consolidam, os produtores de Mato Grosso seguem enfrentando altos custos, riscos operacionais e perdas de competitividade nas exportações. A combinação entre infraestrutura precária, chuvas intensas e capacidade limitada de armazenagem continua sendo o principal entrave para a eficiência do agronegócio no maior estado produtor de grãos do país.
Fonte: Portal do Agronegócio
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