Exportações agrícolas do Brasil: tecnologia e manejo tropical sustentam avanço no mercado global
Correção dos solos, cultivares adaptadas e sucessão de lavouras ampliam a capacidade produtiva; especialistas destacam a qualificação profissional para manter a competitividade
Publicado em: 09/10/2026 às 13:30hs
O avanço do Brasil nas exportações agrícolas está associado a décadas de pesquisa, adaptação de cultivares e desenvolvimento de técnicas de manejo para as condições tropicais. A correção dos solos do Cerrado e a possibilidade de realizar mais de uma colheita por ano na mesma área estão entre os fatores que sustentam a competitividade do país, segundo especialistas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).
Um levantamento da revista britânica The Economist, citado pela entidade, aponta o Brasil na liderança das exportações agrícolas, com participação de 12,5% no comércio mundial analisado, à frente dos Estados Unidos, com 12%. Nesse recorte, a parcela brasileira equivale à soma das participações de Argentina, Índia e Canadá, enquanto os 15 principais exportadores concentram 63,5% das vendas.
Para os profissionais do Crea-SP, o desempenho resulta da combinação entre conhecimento científico, aplicação de tecnologia e capacidade dos produtores de adaptar os sistemas agrícolas às características de cada região.
Manejo dos solos do Cerrado ampliou a capacidade produtiva
A transformação de solos naturalmente ácidos e com baixa disponibilidade de nutrientes em áreas produtivas foi uma das bases da expansão agrícola brasileira.
Segundo Marcelo de Almeida Silva, engenheiro agrônomo e conselheiro do Crea-SP, representante da Universidade Estadual Paulista (Unesp) na Câmara Especializada de Agronomia, a correção das condições químicas e físicas do solo permitiu elevar o rendimento das lavouras e consolidar a produção no Cerrado.
O especialista avalia que o país construiu um modelo agrícola adaptado às particularidades de seu território. Nesse processo, o conhecimento sobre solo, clima e biodiversidade orientou soluções capazes de sustentar ganhos sucessivos de produtividade.
A evolução do manejo ajudou a ampliar a oferta de produtos agrícolas e a fortalecer a presença brasileira no mercado internacional.
Cultivares adaptadas permitem mais de uma safra por ano
Outro diferencial está na possibilidade de cultivar em diferentes períodos do ano. Em regiões de clima temperado, o inverno rigoroso limita a duração da temporada agrícola. Nas condições tropicais, a disponibilidade de água e as temperaturas adequadas podem permitir a sucessão de culturas e duas ou mais colheitas na mesma área.
Esse potencial, porém, depende de adaptação genética e planejamento agronômico.
Gisele Herbst Vazquez, engenheira agrônoma e diretora técnica do Crea-SP, destaca que o desenvolvimento de cultivares adaptadas ao fotoperíodo local — a duração diária da exposição à luz — foi essencial para viabilizar os sistemas produtivos brasileiros.
“Não basta ter sol e calor. É preciso desenvolver cultivares adaptadas ao fotoperíodo local”, afirma.
Segundo a especialista, a combinação entre genética e manejo permite aumentar a produção anual por hectare, aproveitando melhor as áreas já cultivadas.
Safra de grãos evidencia a escala da agricultura brasileira
Os números da produção ajudam a dimensionar essa capacidade. Conforme o 11º Levantamento da Safra de Grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção estimada para o ciclo 2025/26 é de 360,8 milhões de toneladas.
O volume representa crescimento de 2,4% em relação à safra anterior, com acréscimo de 8,5 milhões de toneladas. A área cultivada foi estimada em 83,5 milhões de hectares, com destaque para a expansão de soja, milho e sorgo.
A escala alcançada reforça a importância de decisões técnicas que conciliem produtividade, conservação dos recursos naturais e qualidade dos produtos destinados aos mercados interno e externo.
Responsabilidade técnica contribui para qualidade e rastreabilidade
Na avaliação de Gisele, operar em grande escala exige acompanhamento profissional para reduzir falhas que podem provocar perdas econômicas e ambientais.
Entre os riscos apontados estão contaminação ambiental, resistência de pragas, degradação do solo e problemas capazes de gerar barreiras comerciais. A atuação de profissionais das ciências agrárias contribui para orientar o manejo e prevenir esses impactos.
“A responsabilidade técnica não é mero trâmite burocrático; é um instrumento de qualidade, rastreabilidade e segurança”, destaca a diretora técnica do Crea-SP.
Esse acompanhamento também ajuda a conectar as decisões tomadas no campo às exigências de qualidade dos compradores e dos consumidores.
Qualificação no campo será decisiva para manter a competitividade
Para os especialistas, a continuidade do protagonismo brasileiro depende da capacidade de transformar inovação em eficiência produtiva e sustentabilidade.
A qualificação das equipes é parte desse processo. Tecnologias de manejo, materiais genéticos e sistemas de produção precisam ser aplicados de acordo com as condições de cada propriedade para gerar os resultados esperados.
Gisele ressalta que as exportações de soja, café, carne, açúcar, suco de laranja e milho também refletem o conhecimento acumulado pela pesquisa e pela Agronomia brasileira. A manutenção dessa competitividade, em sua avaliação, passa pela integração entre ciência, assistência técnica e experiência dos agricultores.
Fonte: Portal do Agronegócio
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