Logística e Transporte

Caos logístico na Transamazônica eleva custos e ameaça competitividade do agronegócio brasileiro

Congestionamentos em Miritituba e infraestrutura precária pressionam fretes, prejudicam produtores e impactam toda a cadeia de grãos


Publicado em: 05/02/2026 às 17:30hs

Caos logístico na Transamazônica eleva custos e ameaça competitividade do agronegócio brasileiro
Foto: Marco Santos
Porto de Miritituba enfrenta congestionamentos e fretes disparam

O início da safra 2026 voltou a expor fragilidades estruturais do Arco Norte, com congestionamentos nos arredores do porto de Miritituba (PA). Caminhões chegam a enfrentar filas de dias para descarregar a produção, gerando aumento de custos para produtores e transportadoras e comprometendo a competitividade das exportações brasileiras de grãos.

Segundo Gilberto Leal, Head de Commodities da Granel Inteligência de Mercado, o frete do Mato Grosso para Miritituba saltou de R$ 260,00 para R$ 330,00 por tonelada em apenas duas semanas. Ele alerta:

“Esse aumento não é pontual: ele reflete uma estrutura colapsada e um ciclo vicioso que penaliza o produtor e toda a cadeia do agronegócio.”

O especialista destaca que a colheita continua, mas o porto não consegue absorver a produção, gerando armazenagem improvisada e custos extras, o que impacta diretamente a margem dos produtores.

Impactos na cadeia e reputação internacional

Leal ressalta que os gargalos logísticos prejudicam o planejamento e cumprimento de contratos internacionais, podendo gerar multas e danos à reputação do Brasil como fornecedor confiável. Além disso, custos ocultos, como permanência nos portos, combustível e perda de qualidade dos grãos, afetam sobretudo pequenos e médios produtores.

Problemas estruturais na Transamazônica e soluções urgentes

Para o professor Flavio Isidoro, da UNISUAM (RJ), o problema é estrutural e de longa duração. A rodovia que dá acesso a Miritituba opera com estrutura provisória há mais de dez anos, com pavimentação definitiva prevista apenas para 2027. Ele afirma:

“Não há como falar em escoamento eficiente de grãos sem soluções estruturantes, como a Ferrogrão. O transporte ferroviário é mais barato, mais seguro e menos poluente.”

O professor alerta ainda para os riscos do modal rodoviário, que expõe caminhoneiros a estradas precárias e aumenta a pegada de carbono do transporte de grãos. A Transamazônica (BR-230) permanece em grande parte sem pavimentação adequada, com trechos intransitáveis em períodos de chuva, e precisa de investimentos urgentes para se tornar uma via efetiva de escoamento.

Competitividade do agro e impactos nas cadeias de proteína

De acordo com Leclerc Victer, coordenador acadêmico da UNISUAM, os gargalos logísticos afetam diretamente a competitividade da soja brasileira, frente a concorrentes como os Estados Unidos, que possuem maior previsibilidade e menor custo logístico.

Além disso, a retenção de estoques nos portos encarece o milho, pressionando a cadeia de proteína animal, incluindo frango e suínos, e gerando reflexos no preço ao consumidor. Victer destaca:

“Estamos crescendo em volume, mas não em eficiência. Precisamos construir um sistema logístico resiliente, integrado e digitalizado.”

Arco Norte: investimento e rastreabilidade como prioridade

O especialista reforça que o Arco Norte deve se tornar mais estratégico que os portos do Sul e Sudeste nos próximos cinco anos, mas que isso exige investimentos em infraestrutura e rastreabilidade digital.

“Não é só escoar mais. É escoar melhor, com garantia de origem, sem desmatamento ilegal, e com rastreabilidade exigida pelo mercado europeu, que só tende a se intensificar.”

Fonte: Portal do Agronegócio

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