Acordos do Mercosul abrem novos mercados para exportações do Ceará, mas empresas precisam se preparar
Tratados com Singapura e países da EFTA podem favorecer alimentos, frutas, calçados, rochas ornamentais, siderurgia e produtos agroindustriais, além de fortalecer o Porto do Pecém como plataforma de exportação do Nordeste
Publicado em: 27/08/2026 às 16:00hs
Os novos acordos comerciais negociados pelo Mercosul ampliam as possibilidades de inserção internacional das empresas cearenses. A entrada em vigor do tratado de livre comércio com Singapura, em 1º de agosto, e o avanço da implementação do acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) podem facilitar o acesso a mercados de alto poder aquisitivo e estimular investimentos no Ceará.
A EFTA é formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. O acordo com o bloco europeu foi assinado em setembro de 2025, mas ainda precisa cumprir as etapas necessárias antes de entrar efetivamente em vigor.
Quando implementado, o tratado poderá garantir acesso em condições de livre comércio a quase 99% do valor das exportações brasileiras destinadas aos países da EFTA, considerando produtos agrícolas e industriais, segundo informações do governo federal.
Para o Ceará, que já mantém relações comerciais com a Suíça, a Noruega e Singapura, os acordos representam uma oportunidade de ampliar volumes, diversificar produtos e elevar o valor agregado das vendas externas.
Ceará já comercializa com países da EFTA
A relação comercial do Ceará com os integrantes da EFTA ainda possui participação limitada na pauta estadual, mas apresenta potencial de crescimento.
Em 2025, as exportações cearenses para a Suíça alcançaram US$ 1,6 milhão, avanço de 23,7% em relação ao ano anterior. No mesmo período, as importações provenientes do país europeu somaram US$ 2,5 milhões.
Entre os produtos vendidos pelo Ceará ao mercado suíço estão obras de pedra e gesso, preparações de produtos hortícolas, calçados e vestuário. A Suíça também figura entre os destinos atendidos pela indústria siderúrgica estadual.
Com a Noruega, o Ceará mantém fluxos comerciais envolvendo calçados, combustíveis minerais e produtos hortícolas. A eliminação gradual de tarifas pode melhorar a competitividade dessas mercadorias e abrir espaço para outros segmentos.
Exportações do Ceará cresceram 55,6% em 2025
O Ceará encerrou 2025 com US$ 2,28 bilhões em exportações, crescimento de 55,6% na comparação anual. O desempenho foi impulsionado principalmente pela indústria de ferro e aço, que movimentou US$ 1,18 bilhão em vendas internacionais.
Apesar do crescimento, os números revelam uma elevada concentração da pauta exportadora. Os produtos de ferro fundido, ferro e aço responderam por mais da metade do valor comercializado pelo estado no exterior.
Ao mesmo tempo, houve avanços na diversificação. O Ceará exportou para 150 países em 2025, enquanto a quantidade de produtos negociados com o mercado internacional aumentou de 1.695 para 1.747 itens.
Esse cenário mostra que o estado já possui uma base exportadora relevante, mas ainda precisa ampliar a presença de produtos de maior valor agregado e reduzir a dependência de poucos segmentos.
Frutas, mel, carnes e rochas ornamentais estão entre as oportunidades
O perfil produtivo cearense apresenta aderência a diversos setores contemplados pelos novos acordos do Mercosul. As oportunidades envolvem tanto atividades que já possuem presença internacional quanto segmentos que ainda exportam em pequena escala.
Entre os produtos com potencial de expansão estão:
- Frutas, especialmente melão e banana;
- Mel e outros alimentos;
- Carnes e pescados;
- Sucos e preparações alimentícias;
- Álcool etílico;
- Calçados e vestuário;
- Rochas ornamentais;
- Produtos agroindustriais;
- Semimanufaturados de ferro e aço;
- Combustíveis minerais.
O acordo Mercosul-EFTA prevê novas condições de acesso justamente para várias dessas mercadorias, criando possibilidades para setores diretamente relacionados à estrutura industrial e agropecuária do Ceará.
“A oportunidade para o Ceará está justamente em transformar uma relação comercial que já existe em uma estratégia de expansão. Temos produtos competitivos, infraestrutura portuária e empresas que já conhecem o mercado internacional”, afirma Augusto Fernandes, CEO da JM Negócios Internacionais e especialista em comércio exterior.
Segundo ele, as empresas precisam identificar quais mercadorias possuem condições de ganhar escala e quais necessitam de adaptações para atender às exigências de cada destino.
Singapura amplia acesso ao mercado asiático
A entrada em vigor do acordo Mercosul-Singapura abre uma nova frente para a diversificação das exportações cearenses. Além de possuir uma economia de alta renda, Singapura funciona como um importante centro comercial, financeiro e logístico da Ásia.
O país já aparece na pauta de exportações do Ceará, embora com participação reduzida. Em 2024, o mercado singapuriano respondeu por 63% das vendas externas cearenses de combustíveis minerais, segmento que movimentou US$ 8,65 milhões naquele ano.
Também foram registrados fluxos de produtos como pescados e preparações alimentícias. Com a redução gradual das tarifas, outros itens cearenses poderão ganhar competitividade no país e, potencialmente, alcançar mercados próximos por meio da estrutura logística de Singapura.
Acordos podem ampliar valor agregado das exportações
A existência de relações comerciais anteriores não significa que as empresas cearenses estejam plenamente inseridas nesses mercados. Em muitos casos, as operações ainda são pontuais e realizadas em pequenos volumes.
“Existe uma diferença entre ter um mercado como destino e estar efetivamente inserido naquele mercado. O acordo pode reduzir barreiras e melhorar a competitividade, mas a empresa precisa ter capacidade produtiva, certificações, estratégia comercial e conhecimento das exigências do comprador”, explica Fernandes.
Para o especialista, o principal desafio é transformar vendas ocasionais em relações comerciais recorrentes. Isso exige planejamento, adequação dos produtos, regularidade de fornecimento e construção de canais permanentes de distribuição.
Além do comércio de mercadorias, os acordos podem incentivar parcerias empresariais, investimentos produtivos e a participação do Ceará em cadeias internacionais de valor.
Acordo com a EFTA pode elevar exportações e investimentos
Estimativas do governo federal apontam que o acordo entre Mercosul e EFTA poderá acrescentar R$ 2,69 bilhões ao Produto Interno Bruto brasileiro até 2044.
O tratado também tem potencial para atrair R$ 660 milhões em novos investimentos e elevar as exportações do país em aproximadamente R$ 3,34 bilhões no período.
Parte desses resultados poderá chegar ao Ceará caso o estado consiga aproveitar sua estrutura produtiva, ampliar a base de empresas exportadoras e apresentar projetos capazes de atrair capital internacional.
Porto do Pecém fortalece competitividade do Ceará
A infraestrutura logística representa uma das principais vantagens competitivas do Ceará. O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, integrado à Zona de Processamento de Exportação (ZPE), oferece conexões estratégicas com Europa, América do Norte e Ásia.
Em 2025, São Gonçalo do Amarante, município onde está instalado o Pecém, respondeu por 52,8% das exportações estaduais, com vendas externas de US$ 1,21 bilhão. Ao todo, 64 municípios cearenses realizaram exportações durante o ano.
A localização geográfica e a estrutura portuária podem fazer do Ceará não apenas um exportador, mas também uma plataforma logística para empresas de outros estados nordestinos interessadas nos mercados alcançados pelos novos acordos.
“O Pecém e a ZPE podem funcionar como plataformas para empresas cearenses e de outros estados nordestinos que queiram acessar esses mercados. Isso cria uma oportunidade que vai além da exportação de produtos e envolve a atração de investimentos e a formação de cadeias produtivas”, avalia Fernandes.
Redução de tarifas não garante competitividade automática
Embora os acordos comerciais reduzam ou eliminem tarifas, o acesso aos benefícios não ocorre de maneira automática. As empresas precisam cumprir as regras estabelecidas nos tratados e avaliar se a preferência tarifária realmente melhora a viabilidade econômica da operação.
Entre os principais pontos de atenção estão:
- Regras de origem;
- Classificação fiscal das mercadorias;
- Certificado de Origem;
- Documentação aduaneira;
- Exigências sanitárias e fitossanitárias;
- Normas técnicas e certificações;
- Formação do preço de exportação;
- Custos de transporte e seguro;
- Regularidade e capacidade de fornecimento.
O Certificado de Origem é especialmente importante, pois comprova que o produto atende aos critérios definidos no acordo e pode receber o tratamento tarifário preferencial.
“Uma empresa pode ter um produto competitivo e ainda assim perder margem por uma operação mal planejada. É preciso conhecer a regra de origem, verificar se a mercadoria efetivamente se enquadra na preferência tarifária, organizar a documentação e calcular o custo logístico completo”, ressalta o especialista.
Para auxiliar exportadores e importadores, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) elaborou manuais específicos sobre o acordo com Singapura, incluindo orientações relacionadas às regras de origem e ao cronograma de redução das tarifas.
Ceará pode se consolidar como plataforma exportadora do Nordeste
Os benefícios dos novos acordos do Mercosul não precisam ficar restritos às empresas cearenses. A estrutura do Pecém pode atender cadeias produtivas de outros estados e fortalecer a participação de todo o Nordeste no comércio internacional.
O Ceará reúne indústria, agroindústria, mineração, produção agropecuária, uma zona de processamento de exportação e infraestrutura portuária conectada aos principais mercados globais. Essa combinação cria condições para atrair empresas, ampliar investimentos e diversificar a pauta regional de exportações.
Para transformar o potencial em resultados, porém, será necessário profissionalizar as operações e tratar o comércio exterior como uma estratégia permanente.
“O Nordeste ainda tem muito espaço para ampliar sua participação no comércio internacional. O Ceará pode assumir um papel de plataforma regional, mas isso exige profissionalização das empresas e uma visão de comércio exterior como estratégia de longo prazo, e não apenas como oportunidade pontual”, conclui Augusto Fernandes.
Fonte: Portal do Agronegócio
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