Cooperativismo ganha força no combate à redução populacional do interior de Santa Catarina
Presidente do Sistema OCESC, Vanir Zanatta destaca que cooperativas ajudam a manter renda, empregos, crédito e oportunidades em pequenos municípios catarinenses diante da saída de moradores, principalmente jovens
Publicado em: 21/09/2026 às 14:00hs
Santa Catarina continua registrando crescimento populacional e atraindo investimentos, mas a expansão não ocorre de maneira uniforme entre todas as regiões. Enquanto o litoral e os principais centros urbanos ampliam sua população e atividade econômica, pequenos municípios do interior enfrentam redução no número de moradores, especialmente entre os mais jovens.
Para Vanir Zanatta, presidente do Sistema OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina), esse movimento representa um desafio que vai muito além da demografia. A perda de habitantes também significa redução de consumidores, trabalhadores, estudantes, empreendedores e, principalmente, de perspectivas para a continuidade das atividades econômicas e das comunidades rurais.
Santa Catarina cresce, mas interior enfrenta esvaziamento
As estimativas mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Santa Catarina chegou a aproximadamente 8,18 milhões de habitantes, contra 7,61 milhões registrados no Censo de 2022.
O crescimento estadual, porém, convive com municípios de população reduzida e localidades que apresentam retração demográfica.
Entre os menores municípios estão:
- Barra Bonita: 1.642 habitantes;
- Presidente Castello Branco: 1.707;
- Santiago do Sul: 1.732;
- Lajeado Grande: 1.791.
Também há municípios que perderam moradores nos últimos anos. Coronel Martins, por exemplo, passou de 2.065 habitantes em 2022 para 1.993 em 2025. Romelândia recuou de 4.823 para 4.684 moradores, enquanto Xavantina caiu de 3.653 para 3.583.
O fenômeno revela um contraste dentro do próprio estado: ao mesmo tempo em que Santa Catarina cresce no conjunto, determinadas comunidades enfrentam dificuldades para preservar sua população.
Saída de jovens ameaça sucessão rural e negócios familiares
Para Zanatta, a redução populacional não deve ser analisada apenas como uma questão estatística.
Quando uma pequena cidade perde habitantes, toda a estrutura econômica e social local pode ser afetada. Menos moradores significam, potencialmente, menos consumidores, trabalhadores, alunos e empreendedores.
Um dos pontos mais sensíveis é a sucessão familiar no campo.
A saída dos jovens pode dificultar a continuidade das propriedades rurais e das empresas familiares, comprometendo atividades econômicas construídas ao longo de gerações.
O impacto também aparece no eleitorado. Em 2026, 74 dos 295 municípios catarinenses registraram menos eleitores aptos do que em 2022, outro indicador de mudanças demográficas em parte do território estadual.
Esse processo pode criar um ciclo de difícil reversão: a redução da população diminui o mercado consumidor e a disponibilidade de mão de obra, enfraquece a economia local e pode aumentar os incentivos para que novas famílias deixem o município.
Por que os moradores deixam o interior?
A migração para cidades maiores não é um fenômeno novo. Famílias e, principalmente, jovens buscam oportunidades relacionadas a emprego, renda, educação, saúde e formação profissional.
O desafio, segundo a análise apresentada por Zanatta, não está em impedir a mobilidade da população, mas em criar condições para que permanecer no interior também seja uma escolha viável.
Nesse contexto, desenvolvimento regional envolve mais do que geração de riqueza. É necessário garantir infraestrutura e serviços capazes de permitir que as pessoas construam seus projetos de vida sem precisar deixar suas comunidades por falta de oportunidades básicas.
Cooperativas têm papel estratégico no desenvolvimento regional
É nesse cenário que o cooperativismo ganha importância para os pequenos municípios catarinenses.
As cooperativas não substituem o poder público nem conseguem solucionar isoladamente um fenômeno demográfico complexo. No entanto, podem funcionar como uma importante infraestrutura econômica e social de permanência, mantendo produção, renda, crédito, serviços e relações comerciais dentro das próprias comunidades.
No setor agropecuário, as cooperativas contribuem para organizar a produção, ampliar a capacidade de comercialização, oferecer assistência técnica, incorporar tecnologias e conectar produtores a diferentes mercados.
Nas cadeias de grãos, leite, aves, suínos e bovinos, essa estrutura permite que milhares de produtores tenham acesso a escala, serviços e canais de comercialização que seriam mais difíceis de alcançar individualmente.
Ao contribuir para a sustentabilidade econômica das propriedades, o cooperativismo também pode favorecer a sucessão rural, criando melhores condições para que as novas gerações permaneçam no campo.
Cooperativas de crédito ampliam acesso a recursos
O papel das cooperativas também se estende para além da produção agropecuária.
As cooperativas de infraestrutura ajudam a garantir energia para propriedades rurais, agroindústrias e comunidades. Já as cooperativas de crédito ampliam o acesso a serviços financeiros e recursos para produtores, empresas e empreendedores.
Esse papel ganha relevância principalmente em municípios onde a presença da rede bancária tradicional é limitada.
Dados nacionais referentes a 2025 apontam a presença do cooperativismo de crédito em 1.072 municípios que não contavam com agência bancária tradicional.
Na prática, a oferta de crédito pode representar acesso a recursos para produzir, investir, modernizar atividades e abrir novos negócios.
Além disso, parte dos recursos movimentados permanece circulando na própria região, fortalecendo relações econômicas locais.
Cooperativismo mantém riqueza e oportunidades no território
O impacto das cooperativas não se limita aos resultados financeiros das próprias organizações.
Quando uma cooperativa está consolidada em uma comunidade, ela tende a estabelecer relações econômicas de longo prazo com produtores, trabalhadores, empresas e famílias locais.
A geração de renda pode resultar em investimentos, empregos, capacitação, inovação e novos negócios.
Essa característica está relacionada ao próprio modelo cooperativista: a organização é formada por pessoas que vivem e produzem no território e possuem interesse direto na sustentabilidade econômica da comunidade.
Por isso, o fortalecimento das cooperativas pode contribuir para criar um ambiente em que a atividade produtiva permaneça conectada ao município.
Desenvolvimento do interior exige políticas públicas
Apesar da importância do cooperativismo, o enfrentamento do esvaziamento populacional exige uma estratégia mais ampla.
Entre os fatores considerados fundamentais estão investimentos em:
- infraestrutura;
- conectividade;
- educação;
- saúde;
- habitação;
- transporte;
- inovação;
- qualificação profissional;
- geração de empregos e renda.
O crescimento econômico de Santa Catarina, por si só, não garante equilíbrio territorial.
A concentração de oportunidades em grandes cidades e regiões metropolitanas pode ampliar as diferenças internas do estado caso não seja acompanhada por políticas específicas para os municípios menores.
Permanência no interior depende de oportunidades
A redução populacional de pequenas cidades catarinenses coloca em discussão o futuro de comunidades construídas ao longo de gerações.
Para Zanatta, preservar a vitalidade desses municípios passa pela criação de condições para que as pessoas possam trabalhar, produzir, empreender e construir suas famílias no próprio território.
Nesse processo, o cooperativismo aparece como uma das ferramentas disponíveis para fortalecer as economias locais.
Ao organizar produtores e consumidores, ampliar o acesso a serviços, facilitar a circulação de recursos e apoiar atividades produtivas, as cooperativas podem ajudar a manter parte da riqueza gerada dentro das próprias comunidades.
O desafio, portanto, é transformar crescimento econômico em desenvolvimento territorial. Para Santa Catarina, isso significa garantir que a expansão do estado também alcance os pequenos municípios e que o interior continue sendo um espaço de produção, trabalho, empreendedorismo e qualidade de vida.
Cooperativismo como estratégia para o interior de SC
O cenário demográfico reforça a necessidade de combinar políticas públicas, atividade econômica e organização comunitária.
As cooperativas, especialmente nos segmentos agropecuário, crédito e infraestrutura, já desempenham funções importantes nesse processo. O fortalecimento dessas estruturas pode ampliar as condições para que produtores, empreendedores e jovens encontrem no interior oportunidades capazes de sustentar seus projetos de vida.
Mais do que preservar números populacionais, o objetivo é manter comunidades economicamente ativas, produtivas e socialmente conectadas.
E, nesse contexto, o cooperativismo pode exercer papel relevante na construção de um modelo de desenvolvimento mais distribuído pelo território catarinense.
Fonte: Portal do Agronegócio
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