Publicado em: 29/06/2026 às 11:35hs
A safra de inverno 2026/27 em Santa Catarina deverá enfrentar um cenário desafiador em função da influência do El Niño. As estimativas iniciais divulgadas pela Epagri/Cepa apontam redução na área cultivada de importantes culturas, como alho, cebola e trigo, além de alertar para os impactos de um inverno com temperaturas mais amenas, alta umidade e chuvas frequentes sobre o desempenho das lavouras.
O levantamento, elaborado pelo Observatório do Agro de Santa Catarina com base em informações coletadas por uma ampla rede técnica em todas as regiões do estado, indica que o clima deverá exercer papel decisivo na produtividade, na qualidade dos produtos e no planejamento das atividades agrícolas ao longo da temporada.
Segundo a Epagri/Cepa, o excesso de chuvas previsto para o inverno aumenta o risco de encharcamento dos solos, favorece o desenvolvimento de doenças e dificulta operações de campo, exigindo maior atenção dos produtores.
Nas culturas de alho e cebola, consideradas mais sensíveis à umidade elevada, os desafios tendem a ser ainda maiores. No alho, a drenagem inadequada pode comprometer a sanidade das plantas e reduzir o potencial produtivo. Já na cebola, o excesso de água pode resultar em bulbos mais aquosos, diminuindo a capacidade de armazenamento e afetando a qualidade comercial.
Além disso, períodos prolongados de instabilidade climática podem atrasar o transplantio das mudas e outras operações agrícolas, obrigando os produtores a aproveitar rapidamente as janelas de tempo seco.
Entre os cereais de inverno, o trigo aparece como uma das culturas mais vulneráveis às condições climáticas previstas.
A maior frequência de chuvas aumenta a pressão de doenças fúngicas e dificulta o manejo das lavouras, principalmente durante as fases mais sensíveis do desenvolvimento da cultura.
A aveia-grão poderá ser beneficiada pela maior disponibilidade de umidade durante o estabelecimento das plantas, desde que não ocorram períodos prolongados de encharcamento.
Já a cevada, cultivada em menor escala no estado, continuará exigindo cuidados especiais com drenagem, sanidade e manejo para garantir o potencial produtivo.
As projeções da Epagri/Cepa indicam retração significativa na cultura do alho.
A área plantada deverá passar de 747 para 647 hectares, uma redução de aproximadamente 13%. A produção é estimada em 7,3 mil toneladas, queda de 17% em relação à safra anterior, que alcançou 8,8 mil toneladas.
A região de Curitibanos permanece como o principal polo produtor catarinense, enquanto os municípios de Fraiburgo e Frei Rogério concentram cerca de 52% da área cultivada no estado.
A cebola também deverá registrar retração na safra 2026/27.
Após um início de ano marcado por preços inferiores aos custos de produção, muitos produtores reduziram os investimentos na cultura.
A área plantada deverá diminuir 9%, totalizando cerca de 17,4 mil hectares. Mesmo com expectativa de aumento de 1% na produtividade média, a produção estadual deverá cair para 576,4 mil toneladas, redução de aproximadamente 9%.
A região de Ituporanga continua liderando a produção catarinense, concentrando cerca de 46% da área cultivada, seguida por municípios como Alfredo Wagner.
Entre os grãos, o trigo apresenta uma das projeções mais preocupantes.
A área cultivada deverá recuar cerca de 27%, passando de 104,5 mil para aproximadamente 76,2 mil hectares.
Além da redução na área, a produtividade média também deverá sofrer queda de 2,8%, resultando em produção estimada de 271 mil toneladas — volume aproximadamente 29% inferior ao registrado na safra anterior.
Em sentido contrário às demais culturas, a aveia-grão apresenta expectativa de expansão.
A área cultivada deverá crescer 12,3%, alcançando aproximadamente 37 mil hectares, impulsionada principalmente pela incorporação de novas áreas monitoradas, especialmente no Planalto Sul catarinense.
A produção está estimada em cerca de 60 mil toneladas, crescimento de 12,8% sobre o ciclo anterior.
A cevada também deverá ampliar espaço no estado. A cultura deverá ocupar aproximadamente 500 hectares, avanço de 13,6%, enquanto a produção deve atingir cerca de 2 mil toneladas, alta de 3,8%, consolidando-se como alternativa complementar para alguns produtores.
Diante da possibilidade de impactos climáticos, o Governo de Santa Catarina destaca a existência de políticas públicas voltadas tanto à prevenção quanto à recuperação de prejuízos.
Segundo o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, programas como o Reconstrói SC, o Pronampe Agro SC Emergencial, o Recupera Maçã SC, o Kit Solo Saudável e o Programa Cereais de Inverno buscam ampliar a segurança dos agricultores diante dos eventos climáticos extremos.
O presidente da Epagri, Dirceu Leite, reforçou que as equipes de pesquisa e extensão permanecem mobilizadas para orientar os produtores, emitindo boletins técnicos, alertas meteorológicos e recomendações sobre práticas conservacionistas, como plantio direto, terraceamento e manejo adequado do solo.
De acordo com a meteorologista da Epagri/Ciram, Marilene de Lima, o inverno de 2026 deverá apresentar temperaturas dentro da normalidade ou ligeiramente acima da média, sem episódios extremos de frio.
As geadas deverão ocorrer principalmente nas áreas mais elevadas do Meio-Oeste e do Planalto Sul, enquanto a maior nebulosidade e a frequência de chuvas permanecerão como as principais características da estação.
Diante desse cenário, especialistas recomendam que os produtores acompanhem diariamente as previsões meteorológicas e ajustem o manejo das lavouras para reduzir riscos operacionais e preservar a produtividade.
As estimativas da safra são elaboradas por uma rede de assistentes de pesquisa da Epagri/Cepa, que coleta informações junto a extensionistas, cooperativas, sindicatos, instituições financeiras, prefeituras e demais agentes do setor agropecuário.
Após a coleta, os dados passam por análises estatísticas e validações técnicas que permitem acompanhar a evolução das áreas cultivadas, da produtividade e da produção estadual.
Segundo o analista de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, esse monitoramento é fundamental para o planejamento das safras, da armazenagem, da logística e da formulação de políticas públicas, além de contribuir para a identificação de tendências de mercado e novas oportunidades para o agronegócio catarinense.
Fonte: Portal do Agronegócio
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