El Niño na safra 2026/27: riscos variam por região e exigem planejamento local
Menos chuva no centro-norte e excesso de precipitação no Sul podem afetar plantio, manejo e produtividade de formas distintas, avalia especialista da Picsel
Publicado em: 06/10/2026 às 13:00hs
O El Niño pode trazer consequências diferentes para a safra 2026/27 dentro de uma mesma região e até entre culturas de uma mesma propriedade. Por isso, médias nacionais de chuva e temperatura são insuficientes para orientar decisões de plantio, irrigação e gestão de risco, avalia Rodolfo Armando A. Pereira, especialista em agrometeorologia da Picsel.
Segundo ele, classificar o fenômeno como favorável ou prejudicial à agricultura brasileira simplifica um cenário que depende da localização da lavoura, da cultura e do estágio de desenvolvimento das plantas. Uma condição que facilita a colheita pode, simultaneamente, dificultar a implantação da safra seguinte.
Essa diferença exige que produtores, cooperativas, tradings e seguradoras traduzam as tendências climáticas em análises específicas para cada operação.
Previsões indicam contraste entre o Sul e o centro-norte
O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo INPE em setembro com previsões do CPC/NOAA emitidas no início de agosto, apontou probabilidade superior a 90% de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Os modelos indicavam 100% de probabilidade de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027. Esses percentuais se referem ao El Niño, sem garantir um resultado climático específico em cada localidade. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Para o mesmo trimestre, o painel projetou chuvas acima da média em áreas do Sul e em parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul. No centro-norte, a tendência era de precipitação abaixo da média, acompanhada de temperaturas elevadas em praticamente todo o país. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Na avaliação de Pereira, esse contraste reforça a necessidade de considerar a distribuição regional das chuvas e o calendário agrícola antes de transformar uma previsão em decisão de manejo.
Menos chuva pode favorecer a colheita e dificultar o plantio
Em áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, períodos mais secos podem facilitar operações de colheita de milho segunda safra e algodão. O mesmo cenário, porém, pode ampliar a deficiência hídrica, aumentar a necessidade de irrigação e prejudicar o estabelecimento das próximas lavouras, explica o especialista.
No Centro-Oeste, um eventual atraso no início do período chuvoso também pode adiar a semeadura da primeira safra. Esse deslocamento do calendário pode repercutir sobre a janela disponível para as culturas de segunda safra.
Assim, a análise precisa considerar tanto a atividade em andamento quanto seus efeitos sobre o ciclo seguinte.
Excesso de chuva no Sul traz benefícios e riscos
No Sul, a precipitação pode recompor a umidade do solo em áreas com déficit hídrico e favorecer a implantação de soja e milho, além de contribuir para o desenvolvimento de culturas de inverno.
Os efeitos, contudo, dependem do volume, da persistência das chuvas e da fase das lavouras. Segundo Pereira, períodos prolongados de excesso de umidade podem elevar a pressão de doenças e dificultar operações mecanizadas.
A disponibilidade de água, portanto, precisa ser avaliada em conjunto com as condições de acesso ao campo e as necessidades de cada cultura.
Solo e fase da lavoura mudam o risco climático
Para o especialista da Picsel, a informação climática ganha utilidade quando responde a perguntas concretas: onde o risco está, em qual momento do ciclo pode ocorrer e qual atividade será afetada.
Essa leitura depende de fatores como histórico climático regional, disponibilidade hídrica, características do solo e fase fenológica — o estágio de desenvolvimento da planta.
Desconsiderar essas diferenças pode levar a decisões de manejo inadequadas, estimativas de produção imprecisas e estratégias de proteção pouco compatíveis com a exposição real da propriedade.
Planejamento da safra exige acompanhamento regional
Pereira destaca que modelos de análise climática permitem simular cenários e relacionar tendências globais às condições de cada região e cultura. Essas informações podem apoiar escolhas sobre calendário de plantio, irrigação e gestão de risco.
Na safra 2026/27, a questão central é identificar quando e onde determinada condição passa a ameaçar a produção. Para isso, o planejamento precisa conectar as previsões ao que a propriedade produz, às características da área e ao momento do ciclo agrícola.
Fonte: Portal do Agronegócio
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