El Niño muito forte divide o Brasil entre chuva extrema no Sul e Sudeste e seca no Norte
Fenômeno alcança +2°C no Pacífico e amplia a ocorrência de extremos climáticos; enquanto São Paulo registra setembro mais chuvoso desde 1943, Roraima enfrenta níveis críticos no rio Branco
Publicado em: 22/09/2026 às 09:00hs
O El Niño 2026/27 ganhou força e atingiu o patamar considerado muito forte, aumentando a preocupação com a ocorrência de extremos climáticos no Brasil. O cenário já aparece de forma contrastante no território nacional: enquanto áreas do Sul e do Sudeste enfrentam volumes excepcionais de chuva, partes do Norte convivem com seca e níveis muito baixos dos rios.
Na cidade de São Paulo, o acumulado no Mirante de Santana chegou a 253,8 milímetros nos primeiros 14 dias de setembro, volume que superou o recorde anterior para o mês, de 243,1 mm, registrado em 1983. A média climatológica de setembro é de 83,3 mm.
O contraste é ainda maior quando se observa Roraima, onde o rio Branco permanece em níveis críticos para o período, evidenciando que a influência do fenômeno não ocorre de maneira uniforme sobre o país.
El Niño chega a +2°C no Pacífico
O episódio de El Niño 2026/27 alcançou uma anomalia de aproximadamente +2°C na região Niño 3.4, faixa associada à categoria de evento muito forte. O dado foi registrado em setembro e representa uma intensificação em relação às semanas anteriores.
A classificação definitiva, entretanto, depende da persistência das condições oceânicas e atmosféricas ao longo do período de avaliação. Por isso, um registro semanal de +2°C não deve ser interpretado isoladamente como uma confirmação definitiva da intensidade de todo o episódio.
O comportamento do oceano Pacífico influencia a circulação atmosférica e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, o efeito esperado inclui maior propensão à chuva no Sul e em partes do Sudeste e condições mais secas em áreas do Norte e Nordeste, embora os efeitos efetivos também dependam de outros sistemas meteorológicos.
São Paulo registra recorde histórico de chuva
A capital paulista vive um dos episódios mais expressivos de chuva para setembro desde o início das medições.
Até as 9h do dia 14 de setembro, o Mirante de Santana acumulava 253,8 mm, cerca de três vezes a média climatológica do mês. O volume ultrapassou a marca anterior, de 243,1 mm, registrada em 1983.
Outras localidades paulistas também registraram acumulados excepcionais. Segundo o INMET, estações de Iguape, Registro, Taubaté, Campos do Jordão e Barra do Turvo, entre outras, também apresentaram volumes que superaram marcas históricas para setembro.
Os efeitos das chuvas incluem alagamentos, enxurradas, deslizamentos e interrupções em estradas e serviços, além de vítimas e pessoas desalojadas em diferentes localidades.
Excesso de chuva também preocupa o agronegócio
Para o produtor rural, o excesso de precipitação pode representar desafios tão importantes quanto a falta de água.
No Sul, volumes elevados podem dificultar operações de colheita, preparo do solo e implantação das lavouras de verão. O excesso de umidade também pode reduzir a janela operacional das máquinas e aumentar a ocorrência de problemas relacionados à sanidade das plantas.
Na região Sudeste, a distribuição irregular das chuvas exige atenção especial ao planejamento agrícola. Enquanto algumas áreas recebem volumes acima da média, outras podem permanecer com déficit hídrico.
O cenário reforça a importância de acompanhar as previsões de curto e médio prazo antes de definir operações de campo.
Roraima enfrenta situação oposta
Enquanto o Sul e o Sudeste convivem com excesso de chuva, Roraima apresenta um quadro de seca e baixos níveis dos rios.
O rio Branco, principal curso d'água do estado, permanece próximo ou abaixo de referências históricas para o período em determinados pontos de monitoramento.
O cenário é especialmente relevante para o abastecimento, transporte, produção rural e demais atividades que dependem da disponibilidade de água.
A situação mostra como o mesmo fenômeno climático pode produzir efeitos completamente diferentes dentro do território brasileiro.
Açudes também registram redução no Nordeste
O quadro de atenção não se limita à Amazônia.
No Nordeste, os níveis de diversos reservatórios seguem em queda, com destaque para a Bahia. O comportamento dos açudes aumenta a preocupação com a disponibilidade hídrica para os próximos meses, especialmente em áreas que já enfrentam períodos prolongados de menor precipitação.
Para a agricultura, a redução da água armazenada pode afetar o planejamento de irrigação, plantio e manutenção das lavouras, principalmente em regiões dependentes de reservatórios.
Previsão até novembro mantém contraste regional
As projeções climáticas para o período de setembro a novembro indicam a possibilidade de temperaturas acima da média em grande parte do Brasil, enquanto a distribuição das chuvas permanece bastante irregular.
No Nordeste, áreas do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas podem enfrentar déficits expressivos de água no solo.
No Sudeste, o comportamento tende a ser mais dividido, com previsão de maior volume de chuva em São Paulo e possibilidade de déficit em áreas do norte de Minas Gerais e Espírito Santo.
Para o agronegócio, essa diferença regional pode influenciar diretamente o calendário agrícola. A falta de chuva pode atrasar o estabelecimento de culturas, enquanto o excesso de precipitação pode reduzir as janelas de plantio e colheita.
Excesso de chuva pode afetar soja, arroz e trigo
O cenário climático exige atenção especial das cadeias agrícolas.
No Sul, a combinação de chuva excessiva e períodos reduzidos de tempo firme pode dificultar a colheita do trigo e a implantação de soja e arroz.
Já em regiões com déficit hídrico, a preocupação passa pela disponibilidade de umidade no solo para a implantação das lavouras.
A irregularidade espacial das chuvas reforça a necessidade de decisões cada vez mais baseadas em monitoramento climático, umidade do solo, previsão meteorológica e condições locais da propriedade.
Focos de incêndio avançam na Amazônia
Outro indicador relevante é o comportamento dos focos de calor.
Segundo os dados apresentados no material-base, a Amazônia acumulava 22.577 focos desde o início do ano, superando os 21.910 registrados no Cerrado. Até 14 de setembro, o país contabilizava 9.613 focos no mês.
Apesar da liderança amazônica no acumulado, o número nacional de focos em setembro estava abaixo do registrado no mesmo período de 2025.
A combinação entre seca, altas temperaturas e vegetação mais suscetível ao fogo mantém o risco elevado em áreas do Norte e de outras regiões brasileiras.
Eventos extremos aumentam pressão sobre produtores
O comportamento do clima em setembro também tem provocado impactos sobre a população.
Chuvas intensas, vendavais e granizo deixaram pessoas desalojadas ou desabrigadas em diferentes estados, enquanto municípios continuam recorrendo a decretos de emergência relacionados à seca e à estiagem.
Para o setor agropecuário, o cenário representa um desafio adicional: o mesmo período pode exigir estratégias para excesso e falta de água em diferentes regiões do país.
El Niño exige planejamento climático no campo
A intensificação do El Niño coloca o produtor diante de um cenário de maior variabilidade climática. O fenômeno, porém, não atua sozinho: frentes frias, sistemas de baixa pressão, temperatura dos oceanos e condições atmosféricas regionais também influenciam a distribuição das chuvas.
Por isso, o acompanhamento das condições meteorológicas deve fazer parte do planejamento das propriedades durante toda a safra.
A principal característica do atual cenário é justamente o contraste: chuva recorde em algumas regiões, seca severa em outras e maior frequência de eventos extremos.
Para o agronegócio brasileiro, esse quadro reforça a importância de estratégias de gestão de risco climático, conservação de água, planejamento do calendário agrícola e acompanhamento contínuo das previsões para cada região produtora.
Fonte: Portal do Agronegócio
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