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Clima

El Niño 2026/27: Embrapa orienta produtores sobre seca, calor e excesso de chuva nas cinco regiões

Recomendações incluem ajuste do plantio, conservação do solo e da água, reservas de forragem e drenagem; riscos variam conforme a região, a cultura e a fase da safra


Publicado em: 07/10/2026 às 11:35hs

El Niño 2026/27: Embrapa orienta produtores sobre seca, calor e excesso de chuva nas cinco regiões

O El Niño 2026/27 exige estratégias diferentes para a agropecuária brasileira, segundo orientações elaboradas por equipes da Embrapa nas cinco regiões do país. Enquanto o Sul deve se preparar para chuvas intensas, encharcamento e erosão, áreas do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Sudeste enfrentam riscos de déficit hídrico, irregularidade das precipitações e temperaturas elevadas.

As recomendações incluem seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), escolher cultivares adaptadas, escalonar a semeadura e reforçar o manejo da água e do solo. Na pecuária, o planejamento envolve adequação da lotação, formação de reservas de alimento e garantia de água e sombra aos animais.

A avaliação destaca que os efeitos do fenômeno não serão uniformes. Mesmo dentro de um estado, os riscos podem mudar conforme a localização, o sistema produtivo e o estágio de desenvolvimento das culturas.

O trabalho aprofunda 163 medidas elaboradas no Grupo de Trabalho sobre o El Niño, estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com participação de cerca de 50 profissionais da Embrapa e especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Centro-Oeste: atraso das chuvas pode afetar soja e segunda safra

No Centro-Oeste, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal apresentam maior risco de seca. Já Mato Grosso do Sul, especialmente a porção sul, tende a registrar maior disponibilidade de chuva.

Para grande parte da região, o cenário apresentado indica atraso e irregularidade das precipitações na primavera, seguidos de veranicos e ondas de calor no verão. O período mais crítico para a seca está projetado entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

O atraso na implantação da soja pode comprometer o calendário das culturas em sucessão, como milho e algodão de segunda safra. Por isso, a orientação é combinar as janelas do Zarc com a avaliação da umidade efetiva do solo antes de iniciar a semeadura.

Para soja e milho, a Embrapa recomenda cultivares com melhor desempenho sob seca e calor, escalonamento do plantio e manutenção da cobertura do solo. Se houver atraso expressivo da soja, deve ser reavaliada a possibilidade de substituir o milho segunda safra por sorgo ou milheto, apontados como alternativas de menor custo e risco.

No algodão, a recomendação é evitar a semeadura tardia e priorizar materiais mais precoces à medida que a janela avança. Arroz e feijão também exigem atenção ao calendário e à disponibilidade hídrica. No arroz, temperaturas superiores a 35 °C podem provocar esterilidade das espiguetas.

Na pecuária, as medidas incluem ajustar a lotação à capacidade das pastagens e formar reservas de forragem. No Pantanal, o acompanhamento deve integrar chuvas, níveis dos rios, condições hidrológicas e prevenção de incêndios.

Segundo Rodrigo Garcia, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste e líder da plataforma regional do Centro-Oeste, investimentos em tecnologia associados a práticas conservacionistas aumentam a capacidade dos sistemas de produção de enfrentar adversidades climáticas.

Nordeste: reservas de água e alimento são prioridade no Semiárido

No Semiárido, o El Niño pode elevar as temperaturas e modificar a distribuição das chuvas, ampliando a demanda por água e reduzindo a umidade do solo. Culturas dependentes das precipitações e pastagens estão entre as atividades mais expostas.

A Embrapa ressalta, porém, que o fenômeno não determina sozinho a ocorrência de seca na região. As condições do Oceano Atlântico Tropical podem amenizar ou intensificar seus efeitos.

As projeções apresentadas indicam maior probabilidade de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas no último quadrimestre de 2026. Como o calendário agrícola do Semiárido se concentra principalmente no primeiro semestre, os impactos mais relevantes sobre a produção são esperados no início de 2027.

A condição dos reservatórios é mais favorável do que no episódio de 2015/16. Em agosto de 2015, eles armazenavam cerca de 23% da capacidade, frente a aproximadamente 51% em 2026. Ainda assim, chuvas insuficientes podem prejudicar a recarga, sobretudo dos pequenos reservatórios.

Entre as principais medidas estão:

  • Água: antecipar reservas, ampliar captação e armazenamento e melhorar a eficiência de uso, com alternativas como cisternas, barreiros-trincheira, barragens subterrâneas e sistemas de reuso.
  • Lavouras: seguir o Zarc, utilizar espécies e cultivares adaptadas e considerar o sorgo em áreas de maior risco para o milho.
  • Solo: manter cobertura vegetal ou morta, reduzir o revolvimento e favorecer a infiltração e a retenção de água.
  • Pecuária: conservar forragem, manter bancos de palma-forrageira e adequar o número de animais aos recursos disponíveis.

O planejamento também deve contemplar reservas de sementes e insumos, diversificação produtiva e acompanhamento contínuo do clima.

Norte: queda dos rios pode prejudicar produção, transporte e abastecimento

Na Região Norte, o cenário indica redução e maior irregularidade das chuvas, atraso na regularização da estação chuvosa, calor e diminuição dos níveis dos rios. Os efeitos podem se intensificar entre o fim de 2026 e o início de 2027.

Além das lavouras e dos rebanhos, a preocupação envolve navegação, transporte de insumos e alimentos e abastecimento de água. No Amazonas, a vazante também pode afetar agricultura de várzea, pesca e aquicultura.

Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima tendem a concentrar déficits hídricos mais severos. Em Roraima, o material aponta estimativas de perdas de 30% a 50% na safra de 2026, após a falta de chuva coincidir com o enchimento dos grãos.

No Pará, Amapá e nas áreas de transição com Maranhão e Mato Grosso, a atenção está voltada ao prolongamento da estação seca, à implantação das lavouras e aos incêndios. Nas áreas costeiras e estuarinas do Pará e do Amapá, há também risco de entrada de água salgada nos canais de captação de água doce.

Para mandioca, milho e feijão-caupi, as orientações incluem cultivares adaptadas ao déficit hídrico, solo coberto e respeito às indicações do Zarc. No milho e no feijão-caupi, deve-se evitar que o florescimento coincida com veranicos e ajustar a densidade de plantas à disponibilidade de água.

No arroz de várzea, o calendário precisa acompanhar o regime de vazante. Para açaí de terra firme, a prioridade é a irrigação localizada; no cacau, recomenda-se preservar o sombreamento e evitar podas severas no pico da estiagem.

A proteção de nascentes e igarapés, a recuperação de estruturas de armazenamento e a garantia de água limpa e sombra aos animais completam as medidas.

Sudeste: diferenças locais exigem atenção ao café, aos grãos e à pecuária leiteira

O Sudeste reúne condições distintas, com possibilidade de chuvas acima da média em algumas áreas e maior déficit hídrico em outras. As temperaturas, segundo o cenário apresentado, devem ficar acima da média em toda a região, aumentando a evaporação e a perda de umidade do solo.

Entre outubro e dezembro de 2026, a previsão descrita aponta maior precipitação em áreas de São Paulo, Rio de Janeiro e centro-sul de Minas Gerais. Norte de Minas, norte do Espírito Santo e norte fluminense tendem a enfrentar condições mais secas. A distribuição das chuvas e a ocorrência de veranicos, entretanto, exigem acompanhamento local.

Na cafeicultura, a atenção deve se concentrar na floração, na formação dos frutos e no enchimento dos grãos. No Espírito Santo, o café conilon das regiões Noroeste e Litoral Norte está entre as atividades mais expostas à intensificação do déficit hídrico.

Para soja e milho, a Embrapa recomenda seguir as janelas do Zarc e adotar práticas que reduzam o estresse hídrico. O Sistema Antecipe Soja-Milho é citado como uma tecnologia capaz de antecipar em até 20 dias a implantação do milho e reduzir a exposição ao risco climático no final do verão.

Feijão, amendoim, laranja e cana-de-açúcar também demandam atenção ao calor e à irregularidade das chuvas. Na pecuária leiteira, principalmente em Minas Gerais e São Paulo, as orientações incluem água, sombra, adequação da lotação e maior disponibilidade de forragem.

Ederson Jesus, pesquisador da Embrapa Agrobiologia e coordenador da plataforma regional do Sudeste, destaca a importância de manter o solo coberto, recuperar áreas degradadas e fortalecer a base biológica dos sistemas produtivos para enfrentar diferentes cenários.

Sul: drenagem e conservação do solo ajudam a enfrentar chuvas intensas

No Sul, o principal risco é o excesso de precipitação, com chuvas mais intensas e concentradas, especialmente entre setembro e dezembro.

Encharcamento, erosão, perda de nutrientes e dificuldade para realizar semeadura, aplicações e colheita estão entre os possíveis impactos. A maior nebulosidade pode reduzir a radiação solar, enquanto a umidade prolongada favorece doenças.

Cereais de inverno, arroz irrigado, soja, milho, frutíferas e hortaliças estão entre as culturas expostas. Tempestades e ventos fortes também podem causar danos à silvicultura e à infraestrutura rural.

Para trigo e outros cereais de inverno, as recomendações incluem materiais mais resistentes a doenças e ao acamamento, monitoramento das lavouras e planejamento antecipado de colheita, secagem e armazenamento.

No arroz irrigado, a orientação é ajustar a semeadura para favorecer a disponibilidade de radiação na fase reprodutiva, monitorar a brusone e garantir drenagem rápida. Em soja e milho, devem ser reforçadas a cobertura do solo, a drenagem superficial e a vigilância fitossanitária. O parcelamento da adubação nitrogenada no milho pode reduzir perdas por lixiviação.

Segundo Ernestino Guarino, pesquisador da Embrapa Clima Temperado e líder da plataforma regional Sul, a manutenção do solo coberto é central. Terraços e curvas de nível também contribuem para aumentar a infiltração e reduzir o escoamento.

O planejamento deve considerar a microbacia hidrográfica, ultrapassando os limites de cada propriedade para controlar o fluxo da água e reduzir os impactos de eventos extremos.

Embrapa apresenta orientações em evento on-line no dia 9

A Embrapa realizará um evento on-line sobre o El Niño 2026/27 em 9 de outubro, das 10h às 11h30, com transmissão pelo canal da instituição no YouTube e participação de representantes do Mapa.

A programação prevê um panorama do fenômeno, apresentação das notas técnicas para as cinco regiões e para a gestão de riscos climáticos, além de perguntas do público.

A instituição também reúne orientações em uma página dedicada ao tema, com períodos críticos, recomendações por cultura e criação e medidas de manejo. O conteúdo é destinado a agricultores e profissionais da extensão rural e inclui informações sobre Zarc, calendário de semeadura, conservação do solo, alimentação dos rebanhos e sanidade vegetal e animal.

Site El Niño no Brasil

Fonte: Portal do Agronegócio

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