Análise de Mercado

Trigo: mercado brasileiro resiste à queda de Chicago, mas exige cautela diante da safra global e da necessidade de importações

Estoques ajustados no Brasil sustentam preços internos, enquanto avanço da colheita no Hemisfério Norte pressiona cotações internacionais e aumenta a volatilidade do mercado


Publicado em: 08/06/2026 às 11:50hs

Trigo: mercado brasileiro resiste à queda de Chicago, mas exige cautela diante da safra global e da necessidade de importações
Foto: Canva
Mercado do trigo mantém sustentação no Brasil, mas cenário global exige estratégia dos agentes do setor

O mercado do trigo inicia o segundo semestre em um ambiente de contrastes. Enquanto as cotações internacionais seguem pressionadas pelo avanço da colheita no Hemisfério Norte e pelas perspectivas de ampla oferta global, o mercado brasileiro permanece sustentado por estoques ajustados, oferta limitada e crescente necessidade de importações nos próximos meses.

Segundo análises da TF Agroeconômica, o momento exige cautela de produtores, cooperativas, cerealistas e moinhos. Mais do que acompanhar oscilações pontuais da Bolsa de Chicago, os agentes devem concentrar esforços na gestão estratégica de vendas, compras e proteção de posições diante da volatilidade climática e cambial.

Chicago recua com expectativa de ampla oferta mundial

A Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT) encerrou a última semana em queda, refletindo o cenário de maior disponibilidade global do cereal. O contrato para julho fechou cotado a US$ 5,80 por bushel, com baixa diária de 0,30%, enquanto o vencimento de setembro encerrou a US$ 5,92 por bushel, recuando 0,41%.

No acumulado da semana, a posição julho registrou desvalorização de aproximadamente 5%.

A pressão sobre os preços internacionais foi reforçada pelo avanço da colheita nas principais regiões produtoras do Hemisfério Norte, pelas projeções mais elevadas para a safra da Rússia e pelo ritmo acelerado de plantio na Argentina para a temporada 2026/27. As condições climáticas favoráveis em importantes áreas produtoras também ampliam as expectativas de boa produtividade, reduzindo preocupações com a oferta mundial.

Mercado brasileiro segue sustentado por oferta limitada

Apesar do cenário baixista no exterior, o mercado interno apresenta fundamentos distintos. Os estoques nacionais permanecem enxutos, a entrada efetiva da nova safra ainda é limitada e a dependência de importações tende a crescer ao longo do segundo semestre.

Esse contexto tem garantido sustentação às cotações domésticas, especialmente nas regiões consumidoras do Sul do país.

Para os produtores que ainda possuem trigo remanescente da safra anterior, a orientação é manter firmeza nas negociações e comercializar apenas os volumes necessários para atender ao fluxo de caixa. A avaliação é que o mercado brasileiro continua oferecendo condições mais favoráveis do que as observadas nas bolsas internacionais.

Já para as lavouras em desenvolvimento, a recomendação é evitar travamentos agressivos neste momento. A estratégia considerada mais adequada envolve vendas graduais, entre 20% e 30% da produção estimada, aproveitando eventuais momentos de recuperação dos preços.

Rio Grande do Sul tem preços firmes e disponibilidade reduzida

No Rio Grande do Sul, o mercado apresentou leve valorização ao longo da semana. A presença do trigo argentino em Canoas, negociado ao redor de US$ 300 por tonelada, continua servindo como referência para o mercado regional.

Os moinhos indicam preços a partir de R$ 1.350 por tonelada FOB para embarques em junho e julho, avançando para R$ 1.370 entre julho e agosto e chegando a R$ 1.400 para agosto completo.

No mercado CIF, o trigo de melhor qualidade varia entre R$ 1.480 e R$ 1.500 por tonelada, enquanto lotes de qualidade inferior são negociados entre R$ 1.400 e R$ 1.420.

A disponibilidade atual é estimada em cerca de 190 mil toneladas, volume considerado insuficiente para atender integralmente a demanda até a entrada da próxima safra, prevista para novembro.

Os negócios envolvendo trigo branqueador foram registrados entre R$ 1.450 e R$ 1.480 por tonelada FOB. Para a safra nova, as referências giram em torno de R$ 1.250 FOB para novembro, patamar semelhante ao destinado à exportação em dezembro.

Santa Catarina mantém estabilidade

Em Santa Catarina, o mercado segue relativamente estável, com negócios pontuais e pouca movimentação.

As referências para o trigo local variam entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada FOB. Já as ofertas provenientes do Paraná estão entre R$ 1.320 e R$ 1.350 no Sudoeste catarinense.

No mercado de balcão, os preços permaneceram estáveis em diversas regiões, com registros de valorização em algumas praças importantes, como Chapecó e Xanxerê.

Paraná enfrenta mercado lateralizado

No Paraná, a semana foi marcada por negociações limitadas e poucas alterações nas cotações.

A oferta continua restrita, com vendedores buscando preços próximos de R$ 1.500 por tonelada. Entretanto, os negócios mais recentes ocorreram ao redor de R$ 1.400 FOB na região Norte do estado.

A principal dificuldade para novas altas continua sendo a pressão sobre o mercado de farinha, que reduz a capacidade dos moinhos de repassar custos e limita a valorização do trigo.

Estratégias para cooperativas, cerealistas e moinhos

Diante do atual cenário, especialistas recomendam que cooperativas e cerealistas aproveitem momentos de pressão em Chicago para ampliar coberturas e reforcem o monitoramento da qualidade das lavouras brasileiras.

A manutenção de estoques estratégicos entre setembro e dezembro também ganha importância, considerando a possibilidade de oferta mais restrita nesse período.

Para os moinhos, o enfraquecimento das cotações internacionais abre oportunidades para fixação parcial de importações. No entanto, a orientação é evitar exposição excessiva e manter compras escalonadas ao longo dos próximos meses.

O mercado acompanha ainda a possibilidade de aumento das importações chinesas, fator que poderia provocar rápida reação nos preços internacionais e elevar os custos de reposição do cereal.

Perspectiva para o segundo semestre

A combinação entre estoques ajustados no Brasil, necessidade crescente de importações e incertezas climáticas mantém o mercado doméstico relativamente protegido das quedas observadas no exterior.

No entanto, a forte pressão da safra global e o avanço da colheita no Hemisfério Norte continuam sendo fatores de risco para as cotações.

Nesse ambiente, especialistas reforçam que a gestão comercial estratégica e o acompanhamento constante dos mercados internacional e cambial serão determinantes para produtores, cooperativas, cerealistas e indústrias ao longo do segundo semestre de 2026.

Fonte: Portal do Agronegócio

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