Análise de Mercado

Plano Safra 2026/27 precisa ir além do crédito e acelerar transição sustentável do agronegócio, defende especialista

Com produtores endividados e impactos crescentes das mudanças climáticas, ampliação dos recursos para o Plano ABC+ é apontada como estratégia para fortalecer a resiliência e a competitividade do campo.


Publicado em: 06/07/2026 às 09:00hs

Plano Safra 2026/27 precisa ir além do crédito e acelerar transição sustentável do agronegócio, defende especialista

O debate em torno do Plano Safra 2026/27 ganhou um novo foco. Mais do que discutir o volume recorde de recursos anunciado pelo governo — R$ 525 bilhões destinados à agricultura empresarial — especialistas avaliam que o principal desafio do agronegócio brasileiro está na capacidade dos produtores de acessar esse crédito.

Segundo Paulo Camuri, gerente de Ciência do Clima e Inteligência de Dados e Territorial do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), o elevado endividamento do setor limita a tomada de novos financiamentos e evidencia a necessidade de uma política agrícola voltada para investimentos estruturantes, especialmente aqueles ligados à sustentabilidade e à adaptação climática.

Endividamento reduz capacidade de acesso ao crédito rural

Embora o Plano Safra tenha ampliado a oferta de recursos, parte significativa dos produtores enfrenta dificuldades financeiras que comprometem o acesso a novas operações.

De acordo com Camuri, dados do Banco Central indicam aproximadamente R$ 140 bilhões em operações de crédito com algum tipo de problema, incluindo inadimplência, atrasos, renegociações e alongamento de prazos de pagamento.

O cenário também é marcado pelo aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio e pelo crescimento dos leilões de propriedades rurais utilizadas como garantia em operações financeiras.

"Independentemente do volume de recursos disponível ou do nível das taxas de juros, muitos produtores simplesmente não terão condições de contratar novos financiamentos", observa o especialista.

Crise climática amplia desafios da produção

Além das dificuldades econômicas, fatores conjunturais e estruturais pressionam a rentabilidade das propriedades rurais.

Entre eles estão:

  • queda nas cotações de diversas commodities;
  • aumento dos custos dos fertilizantes, influenciado por conflitos geopolíticos;
  • elevação dos preços dos combustíveis;
  • perdas de produtividade provocadas por eventos climáticos extremos.

Nesse contexto, cresce também a demanda por recursos destinados ao seguro rural, considerado uma das principais reivindicações do setor diante da maior frequência de secas, enchentes e outros eventos climáticos.

Plano ABC+ pode ser o caminho para uma agropecuária mais resiliente

Para o especialista, ampliar apenas os recursos destinados ao crédito tradicional não será suficiente para enfrentar os desafios dos próximos anos.

Ele defende o fortalecimento do Plano ABC+, programa voltado à agricultura de baixa emissão de carbono, cuja participação historicamente representa cerca de 5% dos recursos do Plano Safra.

Segundo Camuri, ampliar os investimentos em práticas sustentáveis permitirá reduzir riscos produtivos e aumentar a competitividade da agropecuária brasileira.

Entre as ações prioritárias estão:

  • recuperação de pastagens degradadas;
  • restauração de áreas florestais;
  • adoção da agricultura regenerativa;
  • expansão de tecnologias de baixa emissão de carbono;
  • eliminação do desmatamento ilegal.

Além dos benefícios ambientais, essas práticas contribuem para elevar a produtividade, reduzir custos no longo prazo e aumentar a resiliência das lavouras e dos sistemas pecuários diante das oscilações climáticas.

Produção sustentável pode abrir novos mercados

Camuri também destaca a importância da criação de mecanismos que valorizem produtores comprometidos com práticas sustentáveis.

Segundo ele, ferramentas como a taxonomia verde podem facilitar o acesso ao crédito, melhorar o reconhecimento da produção brasileira e gerar diferenciação competitiva nos mercados nacional e internacional.

A adoção desses critérios pelas instituições financeiras tende a estimular investimentos em tecnologias sustentáveis e ampliar a confiança de compradores e consumidores.

Seguro rural é importante, mas não resolve o problema estrutural

Embora reconheça a importância do seguro rural para reduzir os impactos imediatos das perdas provocadas pelo clima, o especialista avalia que essa política, isoladamente, não representa uma solução definitiva.

Com o agravamento das mudanças climáticas, os custos das apólices tendem a aumentar continuamente, elevando também a necessidade de subsídios públicos. Além disso, os recursos destinados ao seguro rural dependem de dotações orçamentárias discricionárias, sujeitas a contingenciamentos e remanejamentos.

Para Camuri, a proteção efetiva do agronegócio passa por investimentos estruturais que tornem os sistemas produtivos mais resilientes às mudanças do clima.

"A aceleração da transição para uma agropecuária sustentável é o principal mecanismo de proteção de longo prazo para o produtor rural. Além de reduzir riscos produtivos, ela contribui para preservar os serviços ecossistêmicos essenciais à atividade agropecuária e fortalecer a competitividade do setor", conclui.

Fonte: Portal do Agronegócio

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