Publicado em: 01/04/2026 às 10:30hs
A Páscoa de 2026 deve ser marcada por um cenário desafiador para o mercado de cacau no Brasil, com reflexos diretos no bolso do consumidor. Mesmo com a queda de cerca de 60% nas cotações internacionais das amêndoas em relação ao ano anterior, os preços do chocolate seguem elevados no varejo.
Esse descompasso ocorre porque parte significativa da indústria adquiriu matéria-prima quando os preços estavam em níveis mais altos. Além disso, mesmo após a retração recente, as cotações internacionais ainda permanecem elevadas em termos históricos.
Como consequência, ao longo de 2025, empresas adotaram estratégias como reajustes de portfólio, reformulação de produtos e repasses de preços, enquanto a demanda do consumidor continua pressionada.
Os dados de mercado reforçam o cenário de preços elevados. Na Europa, produtos derivados de cacau atingem os maiores níveis dos últimos anos. Já nos Estados Unidos, os índices de preços ao produtor e ao consumidor seguem altos, apesar de ajustes recentes.
No Brasil, itens como chocolate em barra e doces registraram variações superiores ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), indicando que os consumidores devem enfrentar uma Páscoa com produtos mais caros em 2026.
Além do consumo interno, o Brasil ocupa posição estratégica na indústria global de cacau. O país aparece na oitava colocação no ranking mundial de processamento nas últimas cinco safras.
Essa relevância amplia o impacto de mudanças no fluxo comercial, especialmente em um contexto marcado por desafios relacionados à oferta, custos e demanda.
Um dos principais pontos de atenção do setor é o abastecimento de amêndoas. O Brasil possui capacidade de processamento superior à sua produção doméstica, o que torna necessária a importação para complementar a oferta.
Nos últimos cinco anos, cerca de 17% das amêndoas processadas no país vieram do exterior, sendo aproximadamente 80% originárias da Costa do Marfim.
Nesse cenário, a suspensão das importações desse fornecedor e alterações no regime de drawback elevam as incertezas quanto à continuidade da atividade industrial e ao fluxo de matéria-prima.
O início de 2026 mostra um desempenho desigual nas exportações brasileiras de derivados de cacau.
Entre janeiro e fevereiro, as exportações de pó de cacau recuaram 23% na comparação anual. Por outro lado, as vendas externas de manteiga de cacau cresceram 37% no mesmo período.
O movimento contrasta com o observado em 2025, quando houve aumento de 21% nas exportações de pó e queda de 13% nas de manteiga, evidenciando a volatilidade do setor.
As recentes mudanças no mercado aumentam as incertezas em relação ao abastecimento de amêndoas, ao fluxo comercial e ao rendimento industrial no Brasil.
Embora as exportações de manteiga e pó ainda estejam acima da média histórica em fevereiro, o cenário permanece desafiador tanto no médio quanto no longo prazo.
De acordo com Carolina França, a Páscoa deste ano reflete um momento de transição para o setor.
Segundo a analista, a recente correção nos preços internacionais pode indicar algum alívio futuro, mas os efeitos ainda não são percebidos de forma clara pelo consumidor final.
Enquanto isso, a indústria segue operando em um ambiente de demanda fragilizada e enfrentando dificuldades adicionais relacionadas ao abastecimento e à dinâmica operacional no Brasil.
O resultado é uma Páscoa “agridoce” para o setor de cacau, marcada por preços ainda elevados e incertezas que devem continuar influenciando o mercado nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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