Publicado em: 30/08/2016 às 11:20hs
"Elas estão grandes e muito saudáveis", disse o operador de commodities tailandês ao arremessar a semente de volta numa plantação em Monroeville, no Estado americano de Indiana, a quase 14 mil quilômetros de seu escritório em Bangcoc. "Aprendi muitas coisas", diz ele.
Apesar de a tecnologia ter invadido a agricultura dos Estados Unidos, com drones monitorando danos nas lavouras e satélites orientando tratores na plantação de sementes, muitos operadores de commodities e analistas de bancos dizem que nada supera uma visita às regiões produtoras para que eles possam avaliar o tamanho e a qualidade das safras de milho e soja. Em 2015, elas atingiram US$ 49 bilhões e US$ 35 bilhões nos EUA, respectivamente.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) previu, neste mês, uma colheita recorde de milho e soja no país que pode prolongar o atual período de baixa nos preços agrícolas, que já dura vários anos. A previsão ajudou a aumentar o interesse num tour que a consultoria agrícola Pro Farmer organizou por regiões produtoras na semana passada. Até o meio da semana, as projeções da safra feitas pelo tour estavam abaixo das do USDA em Ohio, Indiana e Illinois, três dos sete Estados do chamado Cinturão do Milho americano, o que deu respaldo aos críticos das estimativas astronômicas do governo.
"Você pode ter uma noção melhor do que está acontecendo do que só lendo relatórios", diz Steve Mathews, um experiente pesquisador de commodities do fundo de hedge Tudor Investment Corp. Foi a sua segunda viagem por lavouras dos EUA.
Os agricultores e pecuaristas dos EUA estão se preparando para um terceiro ano consecutivo de queda na receita, que deve recuar para US$ 54,8 bilhões, o menor nível em 14 anos, segundo o USDA. Condições climáticas favoráveis e o crescimento global da produção criaram estoques enormes de produtos agrícolas em todo o mundo. Além disso, a valorização do dólar e a concorrência mais forte das exportações provenientes de regiões como o Mar Negro e a América do Sul ajudaram a derrubar os preços.
Alguns analistas acreditam que o tour da Pro Farmer adota um viés favorável aos produtores, divulgando estimativas de safra conservadoras que podem elevar as cotações. A consultoria, porém, afirma que suas estimativas finais ficaram acima dos resultados do USDA na maioria dos últimos 15 anos.
Para fazer as previsões, 60 produtores e operadores viajam 1.200 quilômetros entre os Estados de Ohio e Minnesota. Um segundo grupo de 60 pessoas sai de Dakota do Sul e atravessa Nebraska e Iowa, reunindo-se ao primeiro grupo em Minnesota.
Os participantes pagaram algumas centenas de dólares para participar da viagem. Suas conclusões foram usadas numa estimativa de safra nacional que a Pro Farmer divulgou na sexta-feira, projetando uma colheita de 14,73 bilhões de bushels de milho e 4,09 bilhões de bushels de soja. O volume se compara a uma estimativa de 15,2 bilhões de bushels de milho e 4,1 bilhões de bushels de soja divulgada pelo USDA em 12 de agosto.
Os participantes do tour da Pro Farmer coletaram amostras de milho e soja de quase 1.400 plantações. Trabalhando nas lavouras sob um sol escaldante, eles compilaram estimativas de produção em Estados responsáveis por 70% da produção de milho e soja nos EUA.
As ferramentas mais avançadas que empregaram foram rolos de corda de nylon usados para medir partes dos pés de milho, um contraste com a tendência crescente da agricultura de abraçar a tecnologia.
A gigante do agronegócio Monsanto Co. , por exemplo, investiu mais de US$ 1 bilhão na aquisição de uma divisão de serviços de dados que procura ajudar agricultores responsáveis por mais de 37 milhões de hectares de área cultivada a elevar a eficiência das lavouras e lidar melhor com as condições climáticas.
A negociadora de grãos Archer Daniels Midland Co. , por sua vez, começou este ano a usar drones para avaliar os prejuízos alegados por agricultores nas plantações protegidas pelos seguros agrícolas da empresa.
E a Planet Labs Inc. lançou uma série de satélites pequenos que registram imagens diárias dos campos, as quais são depois usadas por "startups" de processamento de dados e fundos de hedge tentando lucrar nos mercados de commodities agrícolas.
"Você não precisa realmente ir até o campo para medir a safra", diz Mark Johnson, um dos fundadores e diretor-presidente da Descartes Labs Inc., cliente da Planet Labs. Chegaremos a um ponto em que "o computador vai acertar sempre e será mais barato, mais rápido e mais fácil".
De fato, alguns no mercado acham o tour um anacronismo. "É como se eu quisesse enviar uma carta a Chicago e usasse um cavalo para levá-la", diz Chad Henderson, diretor-presidente da corretora e negociadora americana de commodities Prime-Ag Consultants Inc. Ele não participou da viagem.
Mas essa não é a opinião de participantes que vieram de um recorde de 14 países de quatro continentes neste ano. "Ir ao campo é ver algo que você nunca poderia ver exatamente num modelo", diz Gautier Maupu, da consultoria francesa Agritel, que realiza visitas semelhantes para seus clientes nas plantações de trigo da Europa.
Maupu participou do tour nos EUA pela primeira vez, assim como o tailandês Sereeyotin, que tem 26 anos e é comprador de commodities na Charoen Pokphand Group, uma grande trading agrícola da Tailândia.
Fonte: The Wall Street Journal - USA
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