Análise de Mercado

Mercado da soja ganha liquidez no Brasil, enquanto Chicago recua com pressão da safra dos EUA

Exportações recordes, demanda da indústria e consumo de biodiesel sustentam preços no mercado brasileiro, apesar das baixas na Bolsa de Chicago


Publicado em: 08/06/2026 às 11:30hs

Mercado da soja ganha liquidez no Brasil, enquanto Chicago recua com pressão da safra dos EUA
Foto: CNA

O mercado da soja iniciou junho com um cenário de contrastes entre o ambiente doméstico e o internacional. Enquanto a Bolsa de Chicago (CBOT) segue pressionada pelo avanço da safra norte-americana e pelo aumento das expectativas de oferta global, o mercado brasileiro mantém maior sustentação graças ao forte ritmo das exportações, à demanda aquecida da indústria de processamento e ao crescimento do consumo de biodiesel.

Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta que a liquidez no mercado nacional aumentou neste início de mês, favorecida pela intensa movimentação comercial e pelo interesse da indústria na aquisição da oleaginosa. O cenário tem limitado quedas mais expressivas dos preços, mesmo diante da safra recorde colhida no Brasil e da perspectiva de ampla oferta mundial.

Exportações brasileiras seguem em destaque

Os embarques brasileiros continuam sendo um dos principais fatores de sustentação do mercado. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que o Brasil exportou 14,82 milhões de toneladas de soja em maio.

Embora o volume tenha ficado 11,5% abaixo do registrado em abril, houve crescimento de 5,1% na comparação com maio do ano anterior. No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, os embarques atingiram níveis recordes para o período, consolidando a liderança brasileira no comércio global da commodity.

A preferência da China pela soja brasileira segue contribuindo para o bom desempenho das exportações, reforçando a competitividade do produto nacional no mercado internacional.

Chicago opera sob pressão da safra norte-americana

No mercado internacional, as cotações continuam enfrentando dificuldades para reagir. Os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Chicago iniciaram a semana em queda, refletindo principalmente o avanço acelerado do plantio nos Estados Unidos e as condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras.

Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que a semeadura da safra 2026/27 alcançou 87% da área projetada até o final de maio, superando a média histórica dos últimos cinco anos, de 80%.

A expectativa de uma grande safra norte-americana aumenta a pressão sobre os preços internacionais, somando-se à ausência de compras mais agressivas da China e à liquidação de posições por fundos de investimento.

Na Argentina, outro importante player global, a colheita atingiu 91,7% da área cultivada, segundo a Bolsa de Cereales. A produção do país permanece estimada em 50,1 milhões de toneladas, reforçando o cenário de ampla oferta global.

Geopolítica gera volatilidade nos mercados

Além dos fundamentos agrícolas, o mercado acompanha atentamente os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio. A troca recente de ataques entre Irã e Israel elevou a tensão internacional e trouxe volatilidade aos mercados financeiros e de commodities.

O movimento impulsionou as cotações do petróleo, que registraram altas superiores a 4%, favorecendo o óleo de soja, diretamente ligado ao setor de biocombustíveis. Por outro lado, as perdas no farelo limitaram um avanço mais consistente do complexo soja.

Esse cenário mantém os investidores em alerta, especialmente diante dos possíveis impactos sobre os fluxos comerciais globais e os custos energéticos.

Estratégia de comercialização exige cautela

Diante da combinação entre fundamentos positivos no Brasil e pressão internacional, especialistas recomendam atenção redobrada na gestão comercial.

Segundo análise da TF Agroeconômica, produtores que ainda possuem soja disponível devem aproveitar momentos pontuais de valorização para realizar vendas graduais, evitando concentrar toda a comercialização em um único período.

A recomendação é monitorar especialmente o comportamento do dólar, que pode compensar parcialmente as perdas observadas em Chicago e melhorar a rentabilidade das operações no mercado interno.

Para a safra futura, a orientação é adotar estratégias de proteção parcial das margens, travando custos e parte da produção em momentos de recuperação dos preços, sem comprometer volumes excessivos enquanto persistirem as incertezas sobre a direção do mercado internacional.

Mercado físico brasileiro segue firme

Apesar da pressão externa, os preços seguem relativamente sustentados nas principais regiões produtoras do país.

No Rio Grande do Sul, com a colheita concluída, as indicações no porto de Rio Grande giram em torno de R$ 131 por saca. No Paraná, Paranaguá alcançou R$ 133 por saca, refletindo a necessidade de originação por parte das tradings e limitações na capacidade de armazenagem.

Em Santa Catarina, as referências em São Francisco do Sul permanecem próximas de R$ 130 por saca, enquanto os produtores já voltam suas atenções para o planejamento da próxima temporada.

No Centro-Oeste, o desempenho das exportações continua fortalecendo a cadeia produtiva. Em Mato Grosso do Sul, a soja respondeu por mais de um terço das exportações estaduais entre janeiro e maio. Já em Mato Grosso, as vendas antecipadas da safra 2026/27 seguem avançando, especialmente na região Médio-Norte.

Perspectivas para os próximos meses

O mercado da soja deverá continuar influenciado pela evolução do clima nos Estados Unidos, pelo comportamento da demanda chinesa e pelos movimentos do câmbio.

Enquanto Chicago permanece pressionada pela expectativa de grande oferta global, o mercado brasileiro segue encontrando suporte em fundamentos sólidos, como exportações robustas, demanda interna consistente, expansão do biodiesel e forte participação do país no abastecimento mundial.

Nesse ambiente de volatilidade, a gestão de risco e a comercialização escalonada continuam sendo estratégias fundamentais para produtores, cooperativas, indústrias e tradings ao longo dos próximos meses.

Fonte: Portal do Agronegócio

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