Publicado em: 26/05/2026 às 09:30hs
As guerras em curso no cenário internacional — como os conflitos envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã, além da guerra entre Rússia e Ucrânia — já não se restringem às fronteiras geopolíticas. Seus efeitos avançam sobre a economia global e chegam diretamente ao agronegócio brasileiro, elevando custos, pressionando o crédito e ampliando riscos jurídicos no setor.
A análise é do advogado Daniel de Souza, do escritório Reis Advogados, que destaca como a instabilidade internacional tem impacto direto na estrutura financeira e contratual da cadeia produtiva do agro.
Segundo o especialista, o primeiro reflexo das tensões globais aparece no crédito rural, base essencial para o financiamento da produção agrícola.
Instituições financeiras passam a adotar critérios mais rígidos de concessão, diante da volatilidade dos mercados internacionais. Com isso, o crédito se torna mais caro, mais restrito e mais arriscado para produtores rurais.
O efeito prático é o aumento da inadimplência, a elevação dos pedidos de alongamento de dívidas e o crescimento expressivo das recuperações judiciais no setor, que se aproximaram de dois mil casos em 2025.
Para Daniel de Souza, esse movimento indica uma mudança estrutural no perfil de risco do agronegócio, que passa a operar sob pressões externas cada vez mais intensas e imprevisíveis.
Um dos pontos mais sensíveis destacados pelo especialista é o custo de produção no campo, fortemente influenciado por insumos importados.
O Brasil depende de cerca de 90% de fertilizantes minerais vindos do exterior, parte significativa oriunda de regiões afetadas por conflitos geopolíticos. Essa dependência torna o setor vulnerável a rupturas logísticas, restrições comerciais e alta de preços.
Situações como o fechamento de rotas estratégicas, incluindo o Estreito de Ormuz, contribuem para a instabilidade na oferta global e impactam diretamente o custo dos insumos agrícolas.
O mesmo ocorre com o diesel, considerado o principal combustível do agronegócio, essencial não apenas para operações no campo, mas para toda a cadeia logística até a exportação. A elevação do preço do combustível, segundo a análise, afeta imediatamente a rentabilidade das operações.
O conjunto de fatores — aumento de custos, volatilidade internacional e encarecimento do crédito — resulta em deterioração da capacidade de pagamento dos produtores.
Esse cenário tem reflexo direto no aumento dos pedidos de recuperação judicial, que vêm crescendo de forma consistente e elevam o nível de estresse no sistema financeiro ligado ao agronegócio.
Para o especialista, a tendência reforça a necessidade de respostas jurídicas mais rápidas e eficientes para evitar que crises de liquidez se transformem em colapsos produtivos.
Na avaliação de Daniel de Souza, o atual contexto exige uma reinterpretação de instrumentos jurídicos clássicos, especialmente nos contratos agrários e financeiros.
Conceitos como teoria da imprevisão e onerosidade excessiva passam a ter maior relevância diante de choques globais que alteram profundamente a base econômica dos contratos.
O especialista defende que não se trata de flexibilizar obrigações, mas de reconhecer que eventos geopolíticos podem comprometer a previsibilidade das relações econômicas.
Outro ponto destacado é a necessidade de evolução dos mecanismos de reestruturação empresarial no campo.
Segundo a análise, o modelo atual de recuperação judicial muitas vezes é acionado tardiamente, o que reduz sua eficácia. Instrumentos mais preventivos e menos estigmatizantes poderiam preservar a atividade produtiva antes da deterioração completa da empresa rural.
Além disso, o aumento da litigiosidade em momentos de crise reforça a importância da segurança jurídica como fator essencial para manter a estabilidade dos contratos no agronegócio.
O artigo também aponta que os impactos jurídicos das guerras estão diretamente ligados a questões estruturais da economia brasileira.
A dependência de fertilizantes importados e a vulnerabilidade da matriz energética são fatores que ampliam a exposição do agro a choques externos. Para o especialista, políticas públicas voltadas à produção nacional de insumos e à estabilidade energética são fundamentais para reduzir riscos futuros.
Por fim, Daniel de Souza conclui que o agronegócio brasileiro, embora seja um dos principais motores da economia nacional, está cada vez mais exposto a variáveis internacionais fora de seu controle.
Quando conflitos globais chegam ao campo, os impactos vão além dos custos de produção: afetam o crédito, ampliam a insegurança jurídica e aumentam o risco sistêmico do setor.
O desafio, segundo o especialista, é construir respostas jurídicas e institucionais capazes de preservar a competitividade e a estabilidade de um dos pilares da economia brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
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