Análise de Mercado

Estudo mostra perda de competitividade e diversificação de exportações brasileiras

O Brasil perdeu competitividade e diversificação no mercado internacional nos últimos cinco anos


Publicado em: 13/08/2021 às 09:00hs

Estudo mostra perda de competitividade e diversificação de exportações brasileiras

Estudo do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) obtido pelo Valor aponta que, entre 2016 e 2020, de um universo de 999 indústrias, o total de “indústrias competitivas”, aquelas que exportam mais que a média mundial, caiu de 196, em 2016, para 167, em 2020.

"A quantidade de produtos competitivos aumentou somente no grupo de produtos primários, passando de 47 em 2016 para 49 em 2020. A participação dos produtos primários na pauta exportadora aumentou de 37,2% em 2016 para 44,3% em 2020", aponta o material, produzido pelos pesquisadores João Prates Romero, Danielle Carvalho, Arthur Queiroz e Ciro Moura.

O documento avalia que o Brasil está caminhando na contramão do mundo, com políticas direcionadas para o setor primário da economia e baseado na exploração de recursos naturais em vez de estimular mudanças produtivas e tecnológicas associadas a políticas de mitigação da mudança climática, vistas hoje internacionalmente como um novo motor de crescimento e desenvolvimento.

“A produção de primários e bens baseados em recursos primários está associada à maior intensidade de emissões de gases de efeito estufa e de degradação ambiental. Além disso, são produtos que possuem baixa complexidade e, como identificado em vários estudos, geram menor dinamismo comparativamente a produtos de maior intensidade tecnológica”, diz o texto.

Cenários da Indústria Naval e Offshore

De acordo com o trabalho, enquanto os produtos primários aumentaram sua participação na pauta exportadora, movimento contrário foi observado para produtos de média e alta tecnologia.

“Os produtos de média tecnologia reduziram sua participação na pauta exportadora de 20,2%, em 2016, para 14,2%, em 2020, ao passo que as exportações neste setor diminuíram 16,7% no período. Em relação aos produtos de alta tecnologia, a participação na composição, que já era restrita, caiu de 5,2% para 3,1%, sendo que a redução total nas exportações foi a mais elevada, encolhendo em 30,6%”, aponta o estudo.

Dentre os produtos com menor intensidade tecnológica que tiveram um crescimento nas exportações nos últimos anos, o texto chama a atenção para o desempenho de madeira bruta e o ouro. Entre 2016 e 2020 houve aumento de 542% das exportações de madeira bruta, passando de US$ 40,8 milhões em 2016 para US$ 115,8 milhões em 2020, sendo os dois últimos anos o período mais intenso. No caso do ouro, o volume exportado saltou de US$ 2,9 bilhões em 2016 para US$ 4,9 bilhões em 2020, também com maior aceleração nos últimos dois anos.

“Esses são produtos que têm preocupado ambientalistas no Brasil, por serem fontes importantes de degradação ambiental na Amazônia”, lembra o material.

O texto aponta que, no lado com maior agregação de tecnologia, a exportação de motores não elétricos (média tecnologia) e máquinas de escritório (alta tecnologia) tiveram reduções significativas entre 2016-2020.

“Os motores não elétricos apresentaram aumento de 37% nas exportações entre 2016 e 2018. Contudo, a partir de 2018, a tendência se reverte. De 2018 a 2020, o decréscimo nas exportações dessa categoria de bens foi o segundo maior entre todos os produtos analisados, com redução de 78% em apenas dois anos”, apontam os autores.

Ao Valor, o professor de economia da UFMG, João Prates Romero, disse que o aumento da exportação de produtos primários em si não é problema, pois gera empregos e divisas, o que é bom para o país. “O problema é ficar focado só nesses bens mais simples. As economias mais resilientes são aquelas mais diversificadas, quanto mais específicas, menos resilientes”, disse.

“Reprimarização”

Segundo ele, apesar do corte da pesquisa ser de cinco anos, o processo de “reprimarização” da economia brasileira já vem acontecendo há mais tempo, desde o “boom” de commodities nos anos 2000. Mas ela se acentua nesse período.

"Nosso diagnóstico é que isso ocorre por fatores como a redução de gastos em pesquisa e desenvolvimento e em ciência por parte do setor público e uma explícita prioridade do atual governo na exploração de produtos primários. Não haveria problema em ter aumento de exportação de produtos primários se não houvesse queda de média e alta tecnologia”, disse.

O presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, ressalta que a maior concentração da pauta de exportações nos produtos básicos é uma realidade de muito tempo no país.

“As exportações de manufaturados estão caindo continuamente porque foram perdendo competitividade ano após ano, conforme o custo Brasil só aumentava. Claramente, estamos perdendo espaço no mercado internacional. E o principal responsável é o custo Brasil, que hoje representa mais de 30% das nossas exportações”, disse.

“Segundo, a forte demanda em todo o mundo por commodities, que levou à elevação de preços”, afirmou, destacando que é preciso vontade política para mudar esse quadro.

Efeito da crise sanitária

Procurado, o Ministério da Economia reconheceu que houve uma perda de participação das exportações de manufaturados, mas explicou que isso foi um fenômeno mundial.

“Esse foi um período de fraco dinamismo do comércio global, especialmente para a manufatura, com o arrefecimento da integração mundial das cadeias produtivas. Além disso, os efeitos da crise sanitária em 2020 afetaram fortemente o comércio mundial, também com efeitos mais acentuados no comércio de manufaturas. Bens manufaturados são mais sensíveis em relação a diminuições de renda do que alimentos, por exemplo”, respondeu.

A pasta lembra ainda que tem havido maior demanda e aumento de preços nos bens primários, reforçando o desempenho desse segmento. “Não temos como afirmar se estas mudanças vão continuar. Depende, sobretudo, do comportamento dos preços internacionais do setor agropecuário e da indústria de transformação, e também do volume exportado por estes setores”, disse a pasta.

Segundo o Ministério da Economia, mais importante do que observar mudanças relativas de participação na pauta exportadora é entender as razões por que um setor está estagnado ou crescendo menos que os outros.

“Entendemos que um dos motivos do menor dinamismo da indústria de transformação desde a crise de 2008 seja a baixa inserção internacional de alguns dos setores da indústria de transformação de média a alta tecnologia, bem como menor dinamismo do comércio dos países tradicionalmente demandantes destes produtos (América Latina, em especial Argentina)”, explicou o ministério, que destacou ainda que preza pelo crescimento da exportação de todos os setores produtivos da economia e negando que haja um foco exclusivo ou gradação de importância de um setor sobre outro.

Vantagem comparativa dos primários

Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, destaca que a maior concentração em produtos primários está relacionada a uma vantagem comparativa clara nesses itens.

“Por isso, é natural que a participação na nossa pauta seja elevada. Isso, a princípio, não deveria ser um grande problema, até porque há uma elevada tecnologia envolvida na extração desses itens, mesmo na produção agrícola. Hoje em dia, são processos produtivos muito sofisticados e desenvolvidos”, diz, ponderando que essas atividades disseminam pouco a riqueza gerada.

Ele concorda que é desejável ser mais competitivo em tecnologia, mas explica que isso é um processo de longo prazo.

“O Brasil talvez nunca tenha feito a lição de casa para ser efetivamente competitivo em bens industrializados”, disse. “Temos problemas de qualificação, educacionais, que são aspectos de longo prazo. Mas se as reformas tivessem sido feitas lá atrás, possivelmente a gente já estaria colhendo os frutos”, completou.

Fonte: Portos e Navios

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