Publicado em: 17/03/2026 às 18:20hs
O avanço da produção de grãos no Brasil voltou a evidenciar um dos principais gargalos do agronegócio: a falta de capacidade de armazenagem. Com a safra nacional estimada em cerca de 353 milhões de toneladas em 2026, o país conta com capacidade estática para armazenar apenas 218 milhões de toneladas.
O descompasso revela um déficit expressivo em meio à expansão da produção agrícola, limitando a eficiência logística e comercial do setor.
A insuficiência de armazenagem impacta diretamente o produtor rural. Sem espaço para estocar a produção, muitos são obrigados a vender imediatamente após a colheita — período em que a oferta é elevada e os preços tendem a cair.
Esse cenário compromete a rentabilidade e reduz a capacidade de negociação, tornando o agronegócio brasileiro menos competitivo no mercado global.
De acordo com Antonio Sartori, diretor da Brasoja, o problema é ainda mais grave do que os números indicam.
Isso porque a capacidade estática dos armazéns nem sempre é utilizada integralmente, já que muitas estruturas operam com diferentes produtos, reduzindo a eficiência real.
Segundo Sartori, o ideal seria que o Brasil tivesse capacidade de armazenagem 20% acima do volume produzido, o que representaria cerca de 424 milhões de toneladas.
Atualmente, o país opera muito abaixo desse nível, com um déficit estimado em 206 milhões de toneladas. “Um país deveria ter 20% mais capacidade do que o tamanho da safra. No Brasil, isso deveria ser no mínimo 424 milhões de toneladas. Só temos 218. Faltam 206 milhões de toneladas”, afirma.
A falta de armazenagem gera efeitos em cascata em toda a cadeia do agronegócio:
O resultado é perda de margem dentro da porteira e maior ineficiência no escoamento da produção.
Nas últimas duas décadas, a produção brasileira de grãos praticamente triplicou, impulsionada pela expansão agrícola no Centro-Oeste e na região do Matopiba, além de ganhos tecnológicos e de produtividade.
No entanto, a infraestrutura de armazenagem não acompanhou esse ritmo, ampliando o desequilíbrio entre oferta e capacidade de estocagem.
Diante da falta de estrutura adequada, produtores têm recorrido a alternativas como:
Embora amenizem a pressão no curto prazo, essas soluções não resolvem o problema estrutural e ainda aumentam os custos logísticos.
Além da falta de espaço, a má gestão da armazenagem também impacta diretamente os resultados financeiros. Segundo Júlio Espell, diretor da Cycloar, as perdas podem variar entre 2% e 10%, dependendo das condições de manejo, clima e estrutura.
Entre os principais problemas está a supersecagem dos grãos, causada pelo uso excessivo de aeração, que reduz o peso e o valor comercial do produto.
Na soja, por exemplo, o teor ideal de umidade é de cerca de 14%, mas falhas no processo podem reduzir esse índice para níveis entre 9% e 11%, gerando perdas imediatas de 2% a 4% no peso.
Espell cita um caso real para ilustrar os impactos econômicos:
Apesar dos prejuízos, o investimento para corrigir falhas estruturais pode ser relativamente baixo diante das perdas.
Segundo Espell, no caso citado, seriam necessários cerca de R$ 1,2 milhão para ajustes na estrutura, com um prazo de retorno estimado em 41 dias, dentro de um ciclo de armazenagem de seis meses.
Para especialistas, o setor precisa deixar de tratar a armazenagem apenas como uma etapa operacional e passar a encará-la como uma estratégia essencial para a rentabilidade.
“Sem armazenagem suficiente e bem executada, o produtor perde qualidade, rentabilidade e autonomia para vender no melhor momento”, destaca o diretor da Cycloar.
O cenário reforça a necessidade de investimentos estruturais para sustentar o crescimento da produção agrícola brasileira nos próximos anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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