Publicado em: 23/02/2026 às 15:00hs
O crédito de ICMS — tradicionalmente visto apenas como uma obrigação fiscal — vem ganhando espaço como instrumento de gestão financeira e de investimento no agronegócio. Segundo dados das Secretarias Estaduais da Fazenda, centenas de milhões de reais em créditos tributários foram utilizados ao longo de 2025 por produtores e empresas rurais para quitar débitos e reorganizar o caixa.
A tendência marca uma mudança cultural no campo, onde o imposto estadual começa a ser percebido como fonte de liquidez e planejamento financeiro, e não apenas como obrigação contábil.
Na prática, o crédito de ICMS pode desempenhar dois papéis estratégicos na atividade rural:
Apesar do potencial, o mecanismo ainda é pouco explorado por parte dos produtores. Entre os principais motivos estão a falta de conhecimento técnico, o receio de processos burocráticos e a percepção de que o benefício seria restrito a grandes empresas.
Para Jéssica Palin Martins, advogada e especialista em gestão tributária aplicada ao agronegócio, o desconhecimento da legislação é o principal obstáculo.
“O crédito de ICMS é um direito previsto em lei e pode representar fôlego financeiro imediato. Ainda assim, muitos produtores buscam empréstimos antes de verificar valores que já pertencem à própria operação”, explica a especialista, sócia da Palin & Martins Consultoria Tributária.
Estudos de entidades contábeis indicam que mais de 70% das empresas brasileiras têm erros em notas fiscais, principalmente em NCM, CFOP ou no destaque do imposto — falhas que inviabilizam a recuperação dos créditos.
No setor agropecuário, onde há grande volume de operações e margens sensíveis, essas inconsistências podem representar perda significativa de valores recuperáveis.
A discussão sobre o tema ganhou força após o Governo do Estado de São Paulo anunciar a liberação extraordinária de bilhões de reais em créditos de ICMS acumulados, destinados a empresas com pendências habilitadas.
Segundo Jéssica Palin, o movimento revela um paradoxo:
“Há produtores pressionados por custos e juros altos, enquanto recursos tributários permanecem parados por falta de organização ou assessoria técnica”, pontua.
A especialista ressalta que, embora o crédito represente uma alternativa legítima de liquidez, seu acesso requer organização fiscal e rigor documental.
“Não é um recurso automático. Inconsistências simples podem levar ao indeferimento do pedido ou à suspensão de créditos futuros”, alerta.
Com o avanço da fiscalização digital e o cruzamento automático de dados pela Secretaria da Fazenda, o processo de aproveitamento de créditos tornou-se mais técnico e transparente, mas também menos tolerante a erros.
Por isso, a busca por consultoria especializada tem sido apontada como decisiva.
“O risco não está em usar o crédito de ICMS, mas em utilizá-lo sem preparo técnico. A análise fiscal é cruzada em tempo real e não admite improvisos”, destaca Jéssica.
Especialistas recomendam que produtores e empresas do agronegócio incorporem o crédito de ICMS à gestão de caixa, e não o tratem como uma ação pontual. Confira os principais cuidados:
O Banco Central do Brasil projeta que 2026 será um ano de moderação econômica, com inflação de 4,2% e taxa Selic em 9,25% ao ano, conforme o Relatório de Inflação (fevereiro/2026).
Com o custo do crédito bancário ainda alto e a demanda por capital de giro crescente, o uso de créditos tributários tende a ganhar relevância como alternativa de liquidez imediata, especialmente no agronegócio, onde margens estreitas e volatilidade de preços exigem gestão financeira eficiente.
Para Jéssica Palin, a mudança mais importante é de mentalidade:
“Crédito de ICMS não é detalhe tributário, é decisão financeira. Quando o produtor entende isso, ele ganha autonomia para escolher entre crescer ou reorganizar o caixa com segurança”, conclui.
Fonte: Portal do Agronegócio
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