Publicado em: 02/06/2026 às 10:20hs
A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 699/23, que cria um amplo pacote de incentivos para estimular a produção nacional de fertilizantes. A proposta prevê até R$ 10 bilhões em créditos fiscais ao longo de cinco anos para apoiar a implantação, expansão, modernização e reativação de fábricas no país.
O texto, que retorna ao Senado após alterações realizadas pelos deputados, integra a estratégia nacional para reduzir a forte dependência brasileira das importações de fertilizantes, considerada um dos principais gargalos para a competitividade do agronegócio.
Atualmente, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras são importados, tornando o setor vulnerável a crises geopolíticas, oscilações cambiais e problemas de abastecimento global.
A proposta cria o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que vigorará entre 2027 e 2031.
O programa disponibilizará até R$ 2 bilhões anuais em créditos fiscais, totalizando R$ 10 bilhões no período. Os recursos serão concedidos por meio de processo competitivo conduzido pelo governo federal, que selecionará os projetos aptos a receber os benefícios.
Poderão participar empresas ligadas à produção de fertilizantes minerais e sintéticos, matérias-primas para fertilizantes, bioinsumos, biofertilizantes e remineralizadores.
Para acessar os incentivos, os projetos deverão ser previamente habilitados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Além da viabilidade econômica, os projetos deverão atender a requisitos relacionados à sustentabilidade e responsabilidade social.
Entre os critérios previstos estão:
Os créditos fiscais concedidos poderão chegar a até 20% dos investimentos realizados pelas empresas nas atividades produtivas em território nacional.
Os valores serão considerados créditos da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), podendo ser utilizados para compensação de tributos federais ou ressarcimento em dinheiro.
O projeto também estabelece isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) para cargas destinadas a empreendimentos aprovados pelo Profert.
O benefício poderá alcançar até R$ 200 milhões por ano, totalizando R$ 1 bilhão entre 2027 e 2031.
Outra medida prevista é a criação do Fundo de Estímulo à Produção Nacional de Fertilizantes (FPNF), destinado a apoiar investimentos estratégicos no setor.
O fundo poderá atuar por meio de:
O relatório aprovado também autoriza a destinação de recursos da União ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para criação de linhas especiais de crédito voltadas aos empreendimentos habilitados pelo programa.
Os financiamentos poderão contemplar:
As operações deverão seguir critérios de sustentabilidade ambiental, social e econômica.
Em resposta à alta dos preços internacionais de fertilizantes, especialmente daqueles cuja oferta global é influenciada pelo mercado iraniano, o projeto prevê a liberação de até R$ 1 bilhão em créditos financeiros já em 2026.
O objetivo é evitar aumentos expressivos nos custos dos insumos agrícolas e reduzir impactos sobre os produtores rurais.
Os recursos poderão ser destinados a importadores e fabricantes, desde que os benefícios sejam repassados aos compradores por meio da redução dos preços praticados no mercado.
Um dos pontos mais discutidos do texto estabelece metas graduais para a utilização de fertilizantes nacionais na composição dos produtos comercializados no país.
O percentual obrigatório começará em 2% e avançará progressivamente até atingir 10% em 2037.
A definição das metas ficará sob responsabilidade do Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert), que também deverá avaliar periodicamente a viabilidade técnica, econômica e logística da medida.
O conselho terá autonomia para flexibilizar temporariamente os percentuais em situações de interesse público ou quando houver dificuldades de cumprimento das metas.
Segundo o relator da proposta, deputado Júnior Ferrari, o programa representa uma política estratégica para aumentar a competitividade da indústria nacional de fertilizantes e ampliar a segurança alimentar brasileira.
A iniciativa está alinhada às diretrizes do Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050, que estabelece como objetivo reduzir a dependência externa do país dos atuais 85% para aproximadamente 45% até meados do século.
De acordo com o parlamentar, a elevada dependência de fornecedores internacionais expõe o agronegócio brasileiro a riscos de abastecimento e volatilidade de preços, comprometendo a produção de alimentos.
Apesar da ampla aprovação, a proposta recebeu críticas de parte dos parlamentares.
Entre os questionamentos estão a adoção da mistura obrigatória de fertilizantes nacionais e o modelo de incentivos baseado em renúncias fiscais.
Críticos argumentam que desafios estruturais da indústria brasileira de fertilizantes estão relacionados principalmente à disponibilidade de gás natural, à infraestrutura logística e ao ambiente de negócios, fatores que também precisariam ser enfrentados para garantir maior competitividade ao setor.
Mesmo assim, a aprovação do projeto é vista como um passo importante para fortalecer a produção nacional de insumos agrícolas, reduzir vulnerabilidades externas e ampliar a autonomia do Brasil em uma área considerada estratégica para o futuro do agronegócio.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias