Publicado em: 07/07/2026 às 11:35hs
Os cortes mandatórios na geração de energia elétrica, conhecidos como curtailment, têm ampliado os desafios para o setor de bioeletricidade no Brasil. A medida, adotada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para preservar o equilíbrio da rede diante da elevada oferta de energia solar e eólica em determinados períodos, provoca consequências que vão muito além da redução da produção de eletricidade nas usinas movidas à biomassa.
Ao contrário de outras fontes renováveis, a bioeletricidade está diretamente integrada aos processos industriais de diversas cadeias do agronegócio. Dessa forma, a interrupção da geração elétrica impacta também a eficiência operacional das plantas industriais, elevando custos e reduzindo a competitividade do setor.
A geração de bioeletricidade utiliza matérias-primas já processadas, como bagaço de cana-de-açúcar, casca de arroz e resíduos florestais, cuja utilização ocorre de forma integrada à produção de biocombustíveis, açúcar, etanol, celulose, alimentos e outros derivados.
Diferentemente das hidrelétricas, parques eólicos e usinas solares, onde a interrupção representa principalmente a perda temporária da geração elétrica, nas usinas de biomassa o corte afeta um sistema industrial contínuo. Isso significa que vapor, calor e energia são produzidos simultaneamente para manter o funcionamento das unidades industriais.
Na prática, reduzir a geração de energia implica também gerar ineficiências operacionais, uma vez que esses processos possuem baixa flexibilidade para ajustes rápidos de despacho.
Além da perda direta de receita com a comercialização da energia elétrica, o curtailment pode provocar desperdício do potencial energético da biomassa, aumento dos custos industriais e redução da eficiência das operações.
Como a matéria-prima já foi colhida, transportada, processada e armazenada, a impossibilidade de converter esse potencial energético em eletricidade representa perda econômica significativa para as usinas.
O efeito torna-se ainda mais relevante durante a safra da cana-de-açúcar, quando a cogeração de energia acompanha o ritmo da moagem e da produção de açúcar e etanol.
Representantes do segmento avaliam que as decisões relacionadas ao despacho de energia devem considerar as particularidades da bioeletricidade, cuja produção está integrada às atividades industriais do agronegócio.
Segundo especialistas, limitar a geração dessa fonte sem avaliar seus impactos sistêmicos pode comprometer não apenas a oferta de energia renovável, mas também a competitividade das cadeias produtivas que dependem da biomassa para produzir combustíveis renováveis, alimentos e diversos insumos industriais.
Nesse contexto, o setor defende que os critérios utilizados pelo ONS levem em consideração os custos de oportunidade envolvidos na geração por biomassa, preservando a viabilidade econômica das usinas e garantindo maior equilíbrio entre segurança energética, eficiência operacional e desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro.
Mesmo diante dos desafios operacionais, a bioeletricidade continua sendo uma das principais fontes renováveis e despacháveis da matriz elétrica nacional. Além de aproveitar resíduos agroindustriais, a tecnologia contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, amplia a segurança energética e agrega valor às cadeias produtivas do campo.
Com o crescimento da participação das fontes intermitentes no sistema elétrico brasileiro, especialistas defendem o aperfeiçoamento das regras de operação para evitar que os cortes na geração comprometam investimentos, empregos e a expansão de uma fonte considerada estratégica para o futuro energético do país.
Fonte: Portal do Agronegócio
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