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Análise de Mercado

Agronegócio recolhe R$ 1,02 trilhão em tributos, mas recuperações judiciais avançam 18,7%

Estudo do IBPT e do Empresômetro mostra indústria com mais da metade da arrecadação do agro, expansão das transações e dificuldades financeiras que atingem fornecedores e empregos


Publicado em: 19/10/2026 às 18:20hs

Agronegócio recolhe R$ 1,02 trilhão em tributos, mas recuperações judiciais avançam 18,7%

O agronegócio brasileiro recolheu R$ 1,02 trilhão em tributos em 2025, equivalente a 24,6% da arrecadação analisada, segundo a quarta edição do estudo Agronegócio em Números, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) em parceria com o Empresômetro.

O crescimento da contribuição tributária, porém, ocorre ao lado de sinais de pressão financeira. Entre 2023 e 2025, o número de empresas do setor em recuperação judicial passou de 875 para 1.039, aumento de 18,7%. Os empregos vinculados a esses negócios diminuíram 12% no período.

O levantamento retrata uma cadeia que amplia sua movimentação econômica, mas enfrenta dificuldades relacionadas ao crédito, à preservação das margens e à capacidade de pagamento.

Indústria responde por mais da metade dos tributos do agro

Pela primeira vez na série histórica do estudo, o segmento secundário respondeu por mais da metade da arrecadação tributária do agronegócio.

Frigoríficos, laticínios, moinhos, indústrias de biodiesel e outras atividades industriais concentraram 50,2% dos tributos em 2025, ante 47,3% em 2022. No mesmo intervalo, a participação do setor primário recuou de 18,9% para 17,6%.

Entre 2022 e 2025, a arrecadação do agronegócio cresceu 29,1%, acima dos 23,9% registrados no conjunto do país, conforme o levantamento.

Para Carlos Pinto, diretor do IBPT, a mudança evidencia o peso das etapas de processamento e agregação de valor. Na avaliação dele, a menor participação relativa da produção primária também reflete a existência de isenções e alíquotas reduzidas no campo.

Como referência de dimensão, o estudo compara o recolhimento do agro ao orçamento de R$ 158 bilhões do Bolsa Família em 2025, informado pelo Senado Federal. O montante tributário equivale a aproximadamente 6,4 vezes esse valor.

Transações do agronegócio chegam a R$ 8,87 trilhões

Os valores comercializados pelo agronegócio alcançaram R$ 8,87 trilhões em 2025, avanço de 9,8%, enquanto o conjunto dos setores da base analisada cresceu 6,4%.

A soja retomou a liderança em valor transacionado, com R$ 1,71 trilhão, alta de 16,4% sobre 2024. Animais vivos e café também se destacaram, com aumentos de 40,1% e 30,4%, respectivamente. O açúcar apresentou retração de 13,3%.

Esses valores representam a movimentação comercial da cadeia e não devem ser confundidos com sua contribuição ao Produto Interno Bruto.

Segundo o estudo, o PIB do agronegócio somou R$ 3,06 trilhões, correspondente a 24% do total nacional. O crescimento nominal foi de 9,5%, ante 8,8% da economia brasileira.

Empresas médias e grandes ganham espaço na expansão

O Brasil reuniu 9,18 milhões de empresas e produtores rurais ligados ao agronegócio em 2025, aumento de 1,3% sobre o ano anterior. No conjunto das empresas, a expansão foi de 1,4%.

O levantamento identificou uma mudança no crescimento por porte. Os pequenos negócios, de microempreendedores individuais a empresas de pequeno porte, avançaram entre 1,7% e 1,9%, enquanto as médias empresas cresceram 3,8%. As grandes também passaram a apresentar expansão superior à dos pequenos portes.

Regionalmente, Centro-Oeste e Norte lideraram o crescimento, com altas de 5,7% e 5,6%, respectivamente.

As cooperativas, por sua vez, realizaram mais de R$ 150 bilhões em compras no ano, incluindo defensivos, fertilizantes, diesel, máquinas, equipamentos e veículos.

Carlos Pinto associa a mudança por porte ao encarecimento do financiamento. Segundo ele, negócios menores tendem a enfrentar mais dificuldades por terem menos alternativas de crédito e instrumentos de proteção financeira.

Recuperações judiciais avançam e empregos diminuem

O crescimento anual do número de empresas do agro em recuperação judicial acelerou de 7,5% em 2024 para 10,4% em 2025.

Nos negócios acompanhados, os empregos caíram de 101.548 para 89.330 entre 2023 e 2025, redução de 12.218 postos de trabalho.

O valor médio transacionado por empresa também diminuiu, com recuo de 4,2%. Segundo o estudo, a deterioração pode continuar depois do pedido de recuperação: até o terceiro ano do processo, a empresa média perde 30% de sua capacidade de realizar transações.

Os dados indicam que a reorganização financeira ocorre em um ambiente de enfraquecimento operacional, com reflexos sobre atividade e emprego.

Dificuldades de grandes empresas atingem fornecedores

Um dos principais alertas do levantamento envolve os efeitos sobre a cadeia de fornecimento.

Considerando como grande empresa aquela que movimenta mais de R$ 200 milhões por ano, o estudo aponta que cada companhia desse porte em recuperação judicial atinge diretamente outras 27 empresas. Nesse grupo, cinco também recorrem à recuperação e 22 deixam de operar por falência ou encerramento.

De acordo com a análise, fornecedores menores podem não dispor de capital para suportar o congelamento de créditos nem de estrutura para arcar com uma recuperação própria.

Para Carlos Pinto, avaliar o risco financeiro do agronegócio exige observar as relações entre clientes e fornecedores, além do balanço individual de cada companhia.

Microbiológicos crescem 55% e compras de defensivos migram para canais digitais

No mercado de defensivos, as vendas de microbiológicos avançaram 55% no primeiro semestre de 2026, em comparação com igual período de 2025. Centro-Oeste e Sudeste concentraram 73% do mercado analisado.

A liderança permaneceu distribuída regionalmente: Octane no Centro-Oeste, Reverb no Sudeste, Bombardeiro no Sul, Serenade no Nordeste e Arvatico no Norte.

Nos fungicidas, o Belyan assumiu a liderança nacional, ocupada pelo Excalia em 2024, e liderou três das cinco regiões. Nas outras duas, a primeira posição ficou com o Blavity.

O levantamento também identificou mudança nos canais comerciais. Em 2025, 76% das transações de defensivos analisadas ocorreram por comércio eletrônico, WhatsApp ou outros meios não presenciais, ante 63% em 2024.

Volume de transporte cresce e gasto total com fretes aumenta

Na logística, o estudo cruzou conhecimentos de transporte e notas fiscais eletrônicas. O agronegócio respondeu por 267,3 milhões de Conhecimentos de Transporte Eletrônicos (CT-e) em 2025, alta de 20%, superior ao avanço nacional de 13,4%.

A participação do setor chegou a 10,8% do total de documentos emitidos, maior proporção da série histórica.

O valor médio por CT-e caiu 8,9%, para R$ 516,90. Apesar disso, o gasto total com fretes aumentou 9,3%, alcançando R$ 138,2 bilhões, impulsionado pelo maior volume de operações.

O resultado reforça o contraste apresentado pelo levantamento: a movimentação econômica do agronegócio cresce, enquanto parte das empresas enfrenta dificuldades para sustentar suas operações e preservar empregos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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