Publicado em: 09/06/2026 às 11:00hs
O agronegócio brasileiro entra em 2026 diante de um cenário marcado por riscos climáticos, desafios na formação de mão de obra qualificada e crescente exposição às tensões geopolíticas globais. A avaliação faz parte do estudo "Top 10 riscos e oportunidades no agro em 2026", elaborado pela EY, uma das maiores consultorias e empresas de auditoria do mundo.
O levantamento identificou as principais preocupações das empresas do setor e avaliou o grau de preparação das organizações para enfrentar um ambiente de negócios caracterizado por volatilidade, mudanças regulatórias, transformação tecnológica e pressões ambientais.
As mudanças climáticas aparecem como o principal desafio para o agronegócio brasileiro. Segundo o estudo, 79% dos entrevistados classificam os impactos climáticos como altos ou muito altos para seus negócios.
Eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes, geadas e ondas de calor, aumentam a imprevisibilidade da produção agrícola e geram reflexos em toda a cadeia produtiva. Entre os efeitos mais relevantes estão as quebras de safra, aumento da volatilidade dos preços, restrições de crédito e seguro rural, além de exigências ambientais mais rigorosas por parte dos mercados compradores.
De acordo com Otavio Lopes, sócio-líder de Agronegócio da EY, o setor vive um ambiente de múltiplas crises simultâneas.
“Vivemos um cenário marcado por incertezas, volatilidade e mudanças climáticas constantes, que impactam diretamente a confiança das empresas e sua capacidade de planejamento. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades para modernização e fortalecimento da gestão de riscos”, destaca.
A gestão de pessoas ocupa a segunda posição no ranking dos principais desafios para 2026.
O agronegócio é um dos maiores empregadores do Brasil, com cerca de 28,2 milhões de trabalhadores. Além disso, os custos com mão de obra já representam entre 20% e 40% dos gastos totais da produção agrícola em diversas atividades.
O avanço da agricultura digital, da automação e das tecnologias de precisão ampliou a demanda por profissionais capacitados para operar drones, sensores, softwares de gestão, equipamentos automatizados e sistemas de monitoramento remoto.
No entanto, a qualificação da força de trabalho não acompanha a velocidade das transformações tecnológicas.
Segundo a EY, essa lacuna cria um déficit crescente de profissionais especializados e pode limitar os ganhos de produtividade do setor nos próximos anos.
Na terceira posição aparecem os riscos relacionados à geopolítica e ao comércio internacional.
Conflitos globais, disputas comerciais, mudanças regulatórias, interrupções logísticas e oscilações nos preços de insumos têm potencial para impactar diretamente a rentabilidade do agronegócio brasileiro.
A dependência das exportações torna o setor mais vulnerável aos movimentos da economia mundial. Atualmente, o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta e registrou superávit agrícola de aproximadamente US$ 143 bilhões em 2024, o maior do mundo.
Grande parte desse desempenho está ligada à forte demanda chinesa por produtos agrícolas brasileiros.
No entanto, a concentração das exportações em determinados mercados também aumenta a exposição a riscos externos.
“O fechamento de rotas estratégicas de transporte ou o agravamento de conflitos internacionais pode elevar custos logísticos, fretes, combustíveis e fertilizantes, afetando diretamente a competitividade do agro”, explica Otavio Lopes.
As políticas públicas, regulações e reformas governamentais aparecem na quarta colocação do ranking.
O avanço da reforma tributária é apontado como um dos principais pontos de atenção para empresas rurais, cooperativas e agroindústrias.
Mudanças na estrutura de impostos podem alterar custos operacionais, margens de lucro e estratégias de investimento, exigindo planejamento e adaptação das cadeias produtivas.
Segundo a pesquisa, o setor ainda demonstra baixo nível de preparação para lidar com transformações regulatórias de grande impacto.
A tecnologia e a inovação ocupam a quinta posição entre os temas que mais preocupam o agronegócio.
Com mercados cada vez mais competitivos, o investimento em digitalização tornou-se fundamental para ampliar produtividade, reduzir custos e melhorar a tomada de decisões.
O Brasil já possui um ecossistema robusto de startups do agro, atuando em áreas como genética, crédito rural, monitoramento de lavouras, saúde animal e comercialização de insumos.
Mesmo assim, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para incorporar soluções tecnológicas de forma estratégica e escalável.
A gestão de riscos financeiros e de commodities aparece na sexta posição do levantamento.
Como os preços agrícolas são definidos em mercados internacionais, fatores como câmbio, oferta global, demanda e condições climáticas podem provocar oscilações significativas nas receitas dos produtores.
Nesse contexto, ferramentas de proteção financeira e estratégias de gestão de risco tornam-se cada vez mais relevantes para garantir previsibilidade e sustentabilidade dos negócios.
Em sétimo lugar estão os desafios relacionados à produtividade, eficiência operacional e controle de custos.
Nas últimas décadas, os ganhos de produtividade foram determinantes para a expansão do agronegócio brasileiro. A produção nacional de grãos, por exemplo, cresceu mais de 260% nos últimos 30 anos.
Com margens pressionadas e custos elevados, a busca por eficiência permanece como um dos pilares da competitividade do setor.
A logística ocupa a oitava posição entre os principais desafios do agro brasileiro.
A expansão da produção para regiões do Centro-Oeste, Norte e Nordeste aumentou a necessidade de investimentos em transporte, armazenagem e infraestrutura.
Apesar dos avanços em ferrovias e hidrovias, cerca de 65% das cargas no Brasil ainda dependem do transporte rodoviário.
Outro ponto crítico é o déficit de armazenagem.
Dados citados pela EY indicam que a capacidade nacional de estocagem deve atender apenas 61,7% da safra de grãos prevista para 2026. A produção pode alcançar 353,4 milhões de toneladas, enquanto o déficit de armazenagem poderá atingir 135,4 milhões de toneladas.
A falta de estruturas adequadas aumenta custos logísticos e reduz o poder de negociação dos produtores.
A nona posição do ranking é ocupada por ética, compliance e controles internos.
A crescente exigência de compradores internacionais, instituições financeiras e órgãos reguladores tem ampliado a importância das práticas ESG dentro do agronegócio.
Questões como rastreabilidade, combate ao desmatamento ilegal, gestão de fornecedores e transparência corporativa passaram a influenciar diretamente o acesso a mercados e linhas de financiamento.
Fechando o ranking, aparecem os desafios relacionados à estratégia de crescimento e ao acesso a capital.
Após um período de maior liquidez, o setor enfrenta um ambiente de crédito mais restritivo, marcado por juros elevados, maior rigor na análise de risco e exigência crescente de garantias.
O estudo destaca que investidores e financiadores estão mais seletivos, priorizando empresas com boa governança, disciplina financeira e capacidade de demonstrar sustentabilidade econômica e socioambiental.
O levantamento da EY mostra que o agronegócio brasileiro continuará sendo um dos pilares da economia nacional, mas precisará fortalecer sua capacidade de adaptação diante de um ambiente cada vez mais complexo.
Mudanças climáticas, transformação digital, geopolítica, infraestrutura e acesso a capital formam uma combinação de fatores que exigirá das empresas investimentos em inovação, gestão de riscos e planejamento estratégico para garantir competitividade e crescimento sustentável nos próximos anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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