Publicado em: 30/03/2026 às 09:20hs
Estamos acompanhando atentamente os desdobramentos da guerra no Oriente Médio, com muito pesar e, ao mesmo tempo, preocupação com os impactos que podem ser causados à economia.
No caso do Brasil, já se observa reflexo nos preços praticados nas bombas, especialmente do diesel, que acabam indicando, em alguma medida, essa oscilação no preço do barril de petróleo.
É importante destacar que essa variação pode ocorrer tanto para cima quanto para baixo, como observado recentemente. No entanto, isso não tem uma relação direta e imediata com a política de preços no território brasileiro.
Aqui entra o papel da Petrobras, que define a autorização - ou não - de reajustes, principalmente do diesel, para as distribuidoras. Esse repasse não ocorre em tempo real. Ou seja, não é automático: se o petróleo sobe, o preço na bomba sobe; se cai, o preço na bomba cai.
A Petrobras tem adotado uma política que evita esse repasse imediato, o que pode estar relacionado, por exemplo, à gestão de estoques em território nacional. De qualquer forma, olhando para o agronegócio, que movimenta volumes expressivos de carga no país, o impacto do aumento do diesel já autorizado no valor do frete é bastante evidente.
Esse impacto varia conforme a carga, a região e o volume transportado, mas já se observam reajustes no frete de – em média - 10% a 12%. Em um momento como o atual, de forte escoamento da safra, especialmente da soja, esse aumento tem efeitos relevantes.
Um frete elevado pode se refletir no preço final do produto, sendo repassado ao longo da cadeia. Isso pode gerar pressões inflacionárias, o que é particularmente sensível em um contexto econômico e político como o atual.
Ainda não se sabe por quanto tempo essa oscilação no preço do diesel será observada, assim como não há previsibilidade sobre a duração do conflito. Por isso, neste momento, não parece adequado adotar um tom alarmista.
Há iniciativas em discussão, como a redução ou zeragem de impostos, ou mesmo algum tipo de subvenção governamental aos preços a serem pagos pelo diesel importado. Seja qual for a medida, o objetivo principal será o de aliviar impactos, especialmente para os transportadores rodoviários, que são os mais afetados.
Esse ponto é central. O Brasil ainda apresenta uma forte dependência do transporte rodoviário, e nessa modalidade de transporte, o principal veículo é o caminhão, movido majoritariamente a diesel.
Essa dependência torna o sistema mais vulnerável a oscilações no preço do combustível. Discute-se a diversificação da matriz energética, com o uso de outros combustíveis e tecnologias mas, no transporte de cargas, esse movimento ainda avança lentamente, sobretudo no curto prazo.
No médio e longo prazos, esse cenário reforça a necessidade de investimentos em outras modalidades de transporte, como ferrovias, hidrovias e cabotagem. São investimentos
estruturais, de maior prazo, mas que podem contribuir para uma logística mais eficiente e menos dependente do diesel.
Vale lembrar que essa dependência não se restringe ao transporte. No campo, o diesel também é fundamental para o funcionamento de máquinas e implementos agrícolas, tanto na colheita quanto no plantio.
Além dos grãos, como soja e milho, outros segmentos, como carnes e frutas, também dependem fortemente do transporte rodoviário, o que amplia o impacto de variações no custo do combustível.
Portanto, a variação no preço do diesel, influenciada pelo cenário internacional, tende a impactar diretamente os custos logísticos e, consequentemente, os preços das commodities.
Esse contexto também chama atenção para a necessidade de uma política energética consistente, que considere a diversificação da matriz e mecanismos de estabilização de preços.
Em síntese, enquanto o cenário internacional permanecer instável, as oscilações no preço do petróleo devem continuar. E, no Brasil, esse movimento não será necessariamente refletido de forma imediata nas bombas, justamente em função da política de preços adotada pelo Governo.
José Vicente Caixeta Filho é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística
Fonte: José Vicente Caixeta Filho
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