Publicado em: 20/04/2026 às 08:00hs
A guerra no Irã atingiu diretamente a chamada tríade crítica do agronegócio: energia, fertilizantes e logística, três elementos concentrados e interligados justamente na região do Golfo Pérsico, hoje sob tensão. Dados recentes da FAO mostram que os efeitos da guerra no Irã já têm reflexos diretos no sistema alimentar mundial. Em março, o índice global de preços de alimentos da FAO subiu 2,4% em relação a fevereiro, impulsionado principalmente pelo aumento da energia e dos custos logísticos ligados ao conflito, com altas disseminadas em cereais (+1,5%), óleos vegetais (+5,1%) e açúcar (+7,2%) .
A entidade alerta que, se o conflito se prolongar, o encarecimento de fertilizantes e combustíveis pode levar produtores a reduzir o uso de insumos, diminuir áreas plantadas ou migrar para culturas menos intensivas, o que tende a pressionar a oferta de alimentos ao longo de 2026 e 2027. Projeções da ONU indicam que a crise pode agravar significativamente a insegurança alimentar global: há estimativas de que até 45 milhões de pessoas adicionais possam entrar em situação de fome aguda caso o cenário persista, elevando o total global a níveis recordes
Os dados mais recentes confirmam a magnitude desse impacto. O petróleo do tipo Brent chegou a operar próximo de US$ 120 por barril no fim de março, acumulando alta relevante desde o início da guerra, segundo dados de mercado. Esse movimento pressiona toda a cadeia produtiva, já que energia é insumo essencial tanto na fabricação de fertilizantes quanto no transporte global de mercadorias.
O Estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, que tem sido alvo de bloqueios, é um gargalo estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e até 30% do comércio global de fertilizantes, o que significa que qualquer restrição na rota impacta simultaneamente o custo da energia, a produção de insumos e o transporte global.
A forte alta no petróleo no mercado internacional tem impactos diretos no preço do diesel no Brasil, que já acumula aumentos relevantes desde o início do conflito. Dados de março de 2026 mostram que o diesel chegou a subir até 7,7% em poucos dias nos postos brasileiros, impulsionado pela escalada do petróleo e pelas tensões no Oriente Médio. O país importa cerca de 25% a 30% do diesel que consome, o que torna o mercado interno altamente sensível às oscilações internacionais.
No agronegócio, o efeito é imediato: o diesel representa entre 30% e 40% do custo do transporte rodoviário, principal modal logístico do país . Como o Brasil depende majoritariamente de caminhões para distribuir alimentos, qualquer alta no combustível se traduz rapidamente em aumento do frete, pressionando o custo de produção, o escoamento da safra e os preços dos alimentos ao consumidor.
No caso dos fertilizantes nitrogenados que dependem diretamente de gás natural, o preço chegou a subir cerca de 60% em algumas regiões desde o início do conflito. O aumento da energia encarece a produção desses insumos, enquanto o risco geopolítico eleva seguros marítimos, além dos fretes, pressionando a logística internacional. O resultado é um efeito simultâneo e cumulativo: produzir, transportar e distribuir insumos agrícolas ficou mais caro ao mesmo tempo.
Esse choque chega ao agro de forma direta porque essas três variáveis são a base da produtividade agrícola moderna. Fertilizantes são responsáveis por grande parte do ganho de rendimento das lavouras. Estima-se que até metade da produção global de alimentos dependa de nitrogênio sintético. No Brasil, o setor de hortifrúti sente o aperto na qualidade: com insumos mais caros, o produtor tende a reduzir as aplicações, o que pode resultar em produtos de menor qualidade e maior incidência de pragas.
Energia e logística determinam o custo operacional e o acesso aos insumos. Com a guerra, há redução de oferta de fertilizantes, aumento de preços e atrasos na entrega, ao mesmo tempo em que o diesel e o frete encarecem o plantio e o escoamento. Para países importadores como o Brasil, esse efeito é ainda mais intenso, pois a dependência externa amplifica a transmissão do choque global para dentro da porteira.
Relatórios e análises recentes indicam que a escassez e o atraso na entrega de fertilizantes, especialmente no período de plantio, podem provocar quedas imediatas de produtividade de 4% apenas por atraso na aplicação, com potencial de perdas maiores caso o uso seja reduzido. Em algumas regiões, produtores já revisam para baixo suas estimativas de rendimento, como no milho
Diante deste cenário de incertezas, a gestão de risco deixou de ser opcional. Para os agricultores, medidas de curto prazo devem incluir gestão de estoques e antecipação. Para quem ainda não travou o custeio da próxima safra, o momento é de escalonar compras sem esperar por uma queda nos preços. A volatilidade é a única certeza. É preciso evitar compras de última hora, que tendem a sofrer maior impacto de preço, diversificar fornecedores e reduzir dependência de origens específicas
A tecnologia pode ser uma grande aliada na proteção de cultivos e na aplicação precisa de insumos. O agricultor deve realizar um ajuste fino da adubação e priorizar eficiência, maximizando o aproveitamento dos insumos já aplicados, reduzindo perdas. Mapas de fertilidade e análise de solo detalhadas permitem aplicar apenas o necessário, onde é necessário.
No setor de hortifrúti, o uso de bioestimulantes e fertilizantes foliares pode ajudar a planta a superar estresses com maior eficiência no uso dos nutrientes do solo. Utilizar operações de barter ajuda a garantir margem, protegendo contra a flutuação do câmbio e dos preços dos insumos. O desperdício é o maior inimigo da rentabilidade.
O agronegócio brasileiro é resiliente, mas a guerra no Irã exige uma "empresarialização" ainda maior do campo. O produtor que sobreviverá a esta crise com margens saudáveis será aquele que priorizar a eficiência técnica e a gestão rigorosa de custos. Estamos em um momento de cautela, mas também de evolução tecnológica forçada pela necessidade.
Fonte: Asacenza Brasil
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