Análise de Mercado

Agro em 2026: clima, custos e mercado redesenham o futuro da produção agrícola

Por Leonardo Sodré, CEO da GIROAgro


Publicado em: 13/02/2026 às 08:30hs

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Na entrada de 2026, o agronegócio brasileiro se depara com um ano de elevada complexidade. O país enfrenta um cenário marcado por adversidades climáticas, custos de produção em alta e um mercado volátil — mas também por oportunidades estratégicas capazes de reposicionar o produtor no centro da economia global. Como protagonista na exportação de commodities como soja, milho e carne, o Brasil entra em um momento decisivo em que planejamento inteligente e ferramentas ágeis de gestão serão fundamentais para transformar riscos em vantagens competitivas.

Esse ambiente desafiador tem forte relação com o comportamento climático, cujos efeitos se tornam cada vez mais evidentes. A safra 2025/2026 confirma esse padrão: estiagens prolongadas no Centro-Oeste, chuvas irregulares no Sul e veranicos frequentes impactaram diretamente o potencial produtivo das lavouras. Ao mesmo tempo, a realização da COP 30, em Belém, ampliou o debate internacional sobre agricultura e clima, trazendo novas exigências relacionadas à rastreabilidade de carbono, conservação do solo e adoção de práticas regenerativas.

Diante desse contexto, práticas de manejo conservacionista deixam de ser apenas diferenciais técnicos e passam a funcionar como mecanismos de proteção produtiva. Técnicas como plantio direto e uso de plantas de cobertura contribuem para manutenção da matéria orgânica, melhoria da infiltração de água e aumento da atividade biológica do solo — fatores decisivos para enfrentar períodos de estresse hídrico com menor perda de produtividade. Ainda assim, a CNA alerta que a baixa cobertura do seguro rural — inferior a 5% da área plantada — amplia a vulnerabilidade do produtor justamente quando as exigências ambientais internacionais se intensificam.

Se o clima pressiona a produção, o ambiente econômico impõe desafios adicionais. A alta dependência de insumos importados, juros reais elevados e a implementação da reforma tributária comprimem as margens operacionais. Os custos recordes observados em 2025 continuam influenciando o planejamento de 2026, exigindo maior rigor na gestão financeira. Nesse cenário, decisões baseadas em dados tornam-se essenciais para otimizar o uso de insumos, reduzir desperdícios e proteger o capital de giro em um contexto de inadimplência crescente.

É justamente nessa interseção entre pressão climática e financeira que os bioinsumos ganham protagonismo. Eles avançam como ferramentas de adaptação capazes de aumentar a resiliência produtiva. Em culturas sensíveis ao déficit hídrico, como a cana-de-açúcar, soluções biológicas já demonstram capacidade de preservar produtividade e longevidade do canavial mesmo em condições adversas. O crescimento de 22% na área tratada com bioinsumos nos últimos anos reflete a busca por maior eficiência no uso da água e estabilidade produtiva.

Apesar da pressão de custos, o consumo de fertilizantes segue em expansão, sinalizando que o produtor continua investindo em produtividade. As entregas ao mercado brasileiro somaram mais de 45 milhões de toneladas entre janeiro e novembro de 2025, evidenciando a força estrutural do setor. Esse movimento, porém, vem acompanhado de uma mudança de mentalidade: o foco deixa de ser apenas volume e passa a ser eficiência.

Nesse novo paradigma, a integração entre fertilizantes minerais e bioinsumos se consolida como estratégia técnica e econômica. A combinação reduz perdas, melhora a absorção de nutrientes e amplia o retorno sobre o investimento. Soluções biológicas contribuem para estruturação do solo, retenção de água e ciclagem de nutrientes, potencializando o efeito dos fertilizantes tradicionais. O resultado é um sistema produtivo mais resiliente às oscilações de preço e câmbio — produzir mais com inteligência, e não apenas com intensidade.

Essa evolução técnica converge com uma tendência mais ampla: a consolidação da agricultura regenerativa como requisito de competitividade. Sistemas com plantio direto e cobertura permanente do solo demonstram capacidade de restaurar áreas degradadas, elevar produtividade e melhorar a qualidade do sistema agrícola. Sustentabilidade, em 2026, deixa de ser diferencial para se tornar condição de permanência no mercado, influenciando acesso a crédito, investimentos verdes e mercados premium.

No conjunto, clima, custos e tecnologia não atuam isoladamente — eles redefinem a forma de produzir. O agro brasileiro entra em 2026 pressionado, mas também mais preparado. A capacidade de integrar gestão, inovação e sustentabilidade será o fator determinante para transformar um cenário de incerteza em oportunidade de crescimento.

Fonte: PressFC

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