Análise de Mercado

A bomba-relógio no campo gaúcho: como desarmá-la?

Alexandre Martini, Advogado, sócio-fundador do escritório MMT Advogados e especialista em Direito Agrário


Publicado em: 24/04/2026 às 08:00hs

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O agronegócio gaúcho vive um drama que nem o mais pessimista roteirista de cinema poderia prever. Longe de ser um evento isolado, o setor enfrenta uma tempestade perfeita onde estiagens recorrentes, custos de produção exorbitantes e juros proibitivos convergem para asfixiar financeiramente o produtor.

Após um ciclo de cinco anos com perdas históricas, nem mesmo uma safra recorde seria capaz de resolver o endividamento que se avoluma, ameaçando levar a uma onda de quebras em série.

A gravidade da situação é resultado de uma sequência inédita de eventos. Nos últimos cinco anos, o Rio Grande do Sul sofreu com estiagens severas em 2020, 2022, 2023 e 2025 – e, agora, vive o drama da falta de chuvas novamente. Em meio a isso, 2024 foi marcado pela catastrófica enchente que devastou cidades e propriedades.

Esse ciclo implacável gerou um prejuízo que, somando os impactos em toda a cadeia produtiva, alcançou R$ 319,1 bilhões entre 2020 e 2024 – quase metade do PIB gaúcho em 2023 –, de acordo com a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Como disse a mesma entidade, não há registro na história de um ciclo de tantas perdas.

O produtor rural se vê encurralado por uma tríade de fatores que se retroalimentam: primeiro, a explosão dos custos de produção. Entre 2020 e 2023, somente o custeio da soja disparou 94,8%, impulsionado principalmente pelo aumento de fertilizantes e insumos importados, que são altamente dependentes do dólar e de fatores geopolíticos.

Depois, as estiagens dizimam a receita com as quebras das safras. Apenas na região central do estado, o prejuízo financeiro com a queda na produção de soja foi de R$ 9,7 bilhões entre 2021 e 2025. Perdem-se as culturas, mas os custos fixos permanecem.

Por fim, com a taxa Selic atingindo 15%, o crédito rural ficou mais caro, adicionando uma camada de custo financeiro que torna a operação inviável, transformando o prejuízo da lavoura em uma dívida impagável. 

Essa combinação cria um ciclo de deterioração: a quebra na safra gera endividamento; a dívida, agravada pelos juros, leva à necessidade de renegociações que apenas postergam o problema; por fim, o produtor perde o acesso ao crédito para a safra seguinte, caminhando para a inadimplência e perda do seu patrimônio.

Os dados confirmam essa espiral: até agosto, segundo a Farsul, as dívidas estressadas de mais de 65 mil produtores impactados por questões climáticas nos últimos cinco anos eram de R$ 27,4 bilhões. 

Somente entre os pequenos produtores, de acordo com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS, a obtenção de crédito rural por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) teve uma queda de quase 30% em relação a 2024, chegando a R$ 5,78 bilhões.

A bomba-relógio financeira está armada e o tempo para desarmá-la está se esgotando. Esperar por uma solução mágica do governo ou dos bancos é um erro estratégico. A saída para o produtor rural está na ação proativa em três frentes coordenadas.

Primeiro, é possível recorrer ao direito de prorrogação das dívidas em caso de perda de capacidade de pagamento por fatores climáticos. É uma opção que muitos produtores sequer conhecem, mas reconhecida pelo próprio Manual de Crédito Rural e reforçada pela Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça, que assevera que é direito do devedor tal alongamento, não uma faculdade da instituição financeira, se observados os requisitos legais.

A renegociação com os bancos é outro caminho, mas aceitar a primeira proposta não é o melhor caminho. Com assessoria jurídica, é possível negociar condições justas, que envolvam redução real de juros e não apenas o alongamento do prazo. A análise de contratos pode revelar garantias abusivas e abrir espaço para a proteção do patrimônio do produtor.

É necessário, também, que se avance com medidas estruturantes como o projeto de securitização das dívidas rurais, um passo fundamental para uma solução de longo prazo que alcance todo o setor.

O ano de 2026 será decisivo. A crise atual não é climática, mas financeira, e, portanto, pode ser evitada com as ferramentas corretas. O produtor que agir agora, buscando orientação jurídica qualificada para estruturar sua defesa, terá a chance de sobreviver e prosperar. Aquele que esperar passivamente corre o risco de ver seu patrimônio ser consumido pelos juros, transformando um problema de liquidez em insolvência. A hora de desarmar essa bomba é agora.

Fonte: MMT Advogados

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