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Edifícios de madeira não são exatamente novidade. O Templo Horyuji, no Japão, de cinco andares, foi erguido há 2.700 anos – e continua de pé. A busca por materiais mais leves e com menor impacto ambiental do que a tríade tijolo, cimento e aço, presente na maioria das construções, trouxe de volta as “casas de árvore”. Ou uma versão 4.0 delas, feita com CLT (cross laminated timber, ou madeira de laminação cruzada). Lajes e paredes saem prontas da fábrica, para serem montadas no canteiro de obras, como se fossem um grande – enorme – móvel da Ikea.

A nova técnica permite edifícios de madeira cada vez maiores. A univesidade de British Columbia, no Canadá, ergueu um alojamento de 53 metros e 18 andares, para 404 estudantes. É o prédio de madeira mais alto da atualidade, recorde que não deverá durar muito. Está em construção, na Noruega, outro de 85 metros – e há um projeto, no Japão, de uma torre com 350 metros.

No Brasil, um alojamento para alunos da escola Canuanã, mantida pela Fundação Bradesco no Tocantins, rendeu ao escritório Aleph Zero um prêmio do Instituto Real de Arquitetos Britânicos.

O pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza apresentou o projeto de um edifício de madeira de 13 pavimentos, do escritório Triptyque, a ser erguido em São Paulo, em 2020. Suas lajes e paredes virão de uma fábrica na Europa, num primeiro passo para nacionalizar a produção. Prensar placas com 30 metros de comprimento requer um ferramental caro, que depende de demanda para justificar o investimento. A construção com concreto, tijolos e aço é barata no Brasil, por haver fartura de matéria-prima e mão de obra.

Pioneiro na construção com madeira e responsável por prédios como o Curtain Place, em Londres, o arquiteto inglês Andrew Waugh tornou-se um embaixador da tecnologia. Esses prédios são mais leves, esquentam menos no calor, causam menos transtorno na construção e emitem menos carbono, afirma o sócio do escritório Waugh Thistleton.

Em visita ao Brasil, a convite da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e da Amata (empresa florestal brasileira entusiasta do manejo sustentável), Waugh conversou com Época NEGÓCIOS.

Paredes e lajes de madeira, pré-fabricadas, emitem menos carbono, na produção, do que tijolos, aço e cimento. Mas são fabricadas na Europa, do outro lado do mundo. Quanto das vantagens ambientais acabam ficando pelo caminho, no transporte até o Brasil?

A principal vantagem está no método de produção. O cultivo de uma tonelada de madeira captura da atmosfera uma tonelada de gás carbônico. A fabricação de uma tonelada de concreto libera uma tonelada de carbono. Numa conta aproximada, a vantagem inicial é de duas toneladas de carbono. Você precisaria transportar as lajes pré-fabricadas até o outro lado do mundo em um caminhão a diesel muito fumacento, o pior deles, para o impacto de um prédio de madeirase aproximar daquele dos prédios de concreto.

A maioria dos novos edifícios de madeira ficam no Hemisfério Norte, em países que não têm cupins. Como um prédio desses no Brasil poderia resistir ao ataque de pragas?

Não tenho experiência com cupins porque, de fato, não existem na Inglaterra. Mas existem na Austrália, e mesmo assim, estão construindo prédios de madeirapor lá. Ou não é um problema, ou eles conseguiram contornar. Os australianos acabam de inaugurar uma fábrica de lajes de madeira, então veremos muitos projetos vindos de lá.

Um prédio de madeira é mais vulnerável a incêndios?

Uma tábua qualquer, sim. Uma laje pré-fabricada de CLT, não. Ao contrário, é mais resistente que um edifício de concreto. O adesivo usado nas placas de madeira repele as chamas e a celulose é um bom isolante térmico. A título de experiência, pusemos fogo em um prédio de madeira. A estrutura manteve sua integridade por 72 horas. O concreto entra em colapso antes disso.

Qual deve ser o papel da madeira na construção civil? Um material de alternativo, de nicho?

Pelo contrário: concreto e aço, esses sim, deveriam se tornar materiais alternativos, usados apenas quando estritamente necessário. A madeira deveria ser o material principal, a primeira escolha. Prédios de concreto são como fumar cigarro, são como usar um carro com motor a combustão. Chega. Temos que parar com isso.

Se os prédios de concreto são tão ruins ao meio-ambiente, por que estão em toda parte, há décadas?

Prédios de concreto são uma ideia do Ocidente (América do Norte e Europa Ocidental), que prefere se proteger do frio. Para enfrentar o calor, os ocidentais consomem uma vastidão de energia com sistemas de ar-condicionado. Em outras culturas, as pessoas constroem prédios para se proteger do calor. Quando sentem frio, vestem um casaco.

Que países incentivam a construção de prédios de madeira?

Alguns países da Europa, Canadá, Cingapura, Coreia... O Japão ofereceu bancar 50% do investimento em uma fábrica de lajes de CLT. Eles mudaram as regras para autorizar a construção de prédios de madeira, antes mesmo de o mercado demandar. Adotar taxas de carbono também ajudaria muito. Daqui a 20, 30 anos, o maior desafio econômico do mundo será o desafio climático. Até agora, mal olhamos para isso.

Qual é o potencial para o Brasil na indústria da construção de madeira?

O Brasil tem as duas coisas mais necessárias: um bom sistema de educação (superior) e uma porção de florestas. O país tem orgulho do manejo sustentável, além de uma experiência no assunto que falta a muitas outras culturas. Vocês podem liderar o mundo nesse setor.

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