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A pandemia do novo coronavírus, que atinge a economia de todos os países ao redor do mundo, pode abrir espaço para um maior protecionismo no comércio global. Mas, para Simão Davi Silber, doutor em Economia Internacional e professor da Universidade de São Paulo (USP), o resultado pode ser negativo inclusive para as duas maiores economias do planeta: Estados Unidos e China.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirmou que o Brasil, nesse cenário, não deve escolher um lado na disputa dos dois gigantes. “Nós somos raia miúda. Quem dominará o mundo é a China ou os EUA”, afirmou.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, depois da pandemia o comércio internacional será diferente do que vimos até hoje. O que o senhor visualiza?

Desde 2017, o número de conflitos comerciais já vinha aumentando. Isso bem antes do momento atual. Quem começou foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as retaliações vieram da China, da Europa e do Canadá. Foi tiro para todo lado. O que a gente sabe é que, historicamente, depois de uma boa briga todo mundo se machuca e algum tipo de cooperação acaba surgindo. Como o comércio internacional vai ter uma queda muito significativa com a pandemia, teremos duas forças antagônicas funcionando, uma mais nacionalista e outra mais internacionalista. Mas existe um ditado popular que vale também para a economia: um péssimo acordo é melhor do que a melhor briga.

Há risco de aumento das barreiras comerciais?

Como os países estarão fragilizados, há essa possibilidade. Você tem duas forças, antagônicas, e se ocorrer o que vimos nos anos 1930, no meio da Grande Depressão, quando todo mundo se fechou ao comércio internacional, a crise mundial vai se estender por muito mais tempo. Porque o comércio internacional é um mecanismo muito grande de expansão de mercado. Ainda mais hoje, com as cadeias internacionais de suprimentos. Se a China parar, você não consegue montar celular no Vale do Paraíba. Então, a interdependência é de tal ordem que o custo econômico é gigantesco, comparado com o benefício político. Agora, se houver uma brutal irracionalidade, pode haver aumento do protecionismo.

Na década de 1930, ocorreu um fechamento de fronteiras ao comércio internacional.

Começou nos EUA e depois foi para todos os outros países. Na época, passou-se uma lei no Congresso americano multiplicando por 20 vezes o imposto de importação. Com isso, houve um segundo mergulho na depressão. Isso ocorre porque há o corte de uma válvula de demanda e de oferta. Há quem compre seu produto, e você depende da compra de produtos dos outros. A pessoa que mora no Polo Norte não vai produzir café, mas sim o Brasil, a África, a Colômbia. Não tem jeito. Na Grande Depressão, o que ocorreu foi que, quando ocorreram grandes turbulências e houve protecionismo, na sequência os países pararam e começaram a negociar.

Existe uma avaliação de que, por conta da pandemia, os países ficaram muito à mercê da China, grande produtora de equipamentos e insumos para saúde. Há ainda uma avaliação de que os países ficaram dependentes da Índia, que é um grande produtor do setor farmacêutico. Pode ocorrer algum movimento de fechamento comercial para setores específicos, como o de saúde?

Acredito que não. É muito difícil você substituir, com custos razoáveis, uma produção que vem de fora. O grande problema da economia é que os recursos são escassos. Se um país começar a se meter a produzir muito aquilo que não sabe fazer, ele vai deixando de fazer o que sabe fazer direito. Pode ser que, em alguns setores onde o país consiga produzir um pouco mais, algo aconteça. Mas não vejo isso como um movimento importante, particularmente em países em desenvolvimento, que são pobres. Eles não podem se aventurar em áreas nas quais não têm a expertise.

Após a pandemia, o fato de o Brasil ser um país ainda muito fechado para o comércio será um impeditivo para a recuperação econômica?

Sim. Hoje o Brasil não tem acesso à moderna tecnologia, para fazer uma divisão de trabalho mais eficiente. Ainda estávamos, até pouco tempo atrás, querendo produzir tudo aqui dentro. E ninguém consegue ser bom em tudo. Sem dúvida, o Brasil é um país muito fechado. Então, gradualmente, ele teria que ir nessa direção, de abertura, para ter acesso a máquinas, equipamentos e componentes modernos.

O setor agrícola será o mais importante após a pandemia? Ele vai liderar a retomada comercial do Brasil?

Com certeza. Como haverá muita capacidade ociosa na economia, muito desemprego, a retomada será relativamente forte no ano que vem. E não tenha dúvida: a primeira necessidade é comer. E, para proteicos, o Brasil é fundamental. Agora, veja o seguinte: por que somos tão bons no agronegócio? Porque 50 anos atrás se fez a Embrapa . Foi estratégico. Isso é tecnologia. Não adianta querermos reinventar a roda. Se houver uma luta estratégica, será entre gigantes, não será com a gente. Nós somos raia miúda. Quem dominará o mundo é a China ou os EUA.

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