Publicado em: 03/07/2026 às 16:00hs
A produção brasileira de etanol de cereais deve alcançar quase 10 bilhões de litros na safra 2025/2026, consolidando uma das mais rápidas expansões da bioenergia nacional. O volume representa crescimento de aproximadamente 20% em relação ao ciclo anterior e confirma a transformação de um segmento que, em 2017, produzia cerca de 500 milhões de litros.
O avanço é impulsionado pela expansão das usinas flex, capazes de processar tanto cana-de-açúcar quanto cereais durante todo o ano, reduzindo a sazonalidade da indústria, aumentando a eficiência operacional e fortalecendo a integração entre agricultura, tecnologia e produção de energia renovável.
Nos últimos anos, o setor registrou uma taxa média de crescimento superior a 30% ao ano, tornando-se um dos principais vetores de expansão da bioenergia no país.
Para Ágata Turini, diretora comercial da Fertron e diretora estadual do CIESP-SP, o etanol de cereais representa uma evolução estratégica para o setor sucroenergético.
Segundo a executiva, a modalidade não concorre com a produção de etanol de cana, mas complementa a matriz energética nacional ao ampliar a utilização da infraestrutura industrial e estimular ganhos de produtividade.
Ela destaca que a integração entre diferentes culturas agrícolas, automação industrial e tecnologias como inteligência artificial torna toda a cadeia mais eficiente, aumentando a competitividade brasileira no mercado global de combustíveis renováveis.
A expansão da atividade também está mudando o mapa da bioenergia brasileira.
Tradicionalmente concentrada nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, a produção de etanol de cereais avança para novas fronteiras agrícolas, com investimentos em estados do Norte, Nordeste e Sul.
Atualmente, o Brasil possui 25 biorrefinarias em operação, e a expectativa do setor é alcançar cerca de 33 unidades até o final de 2026.
Grande parte dos novos projetos está localizada no Matopiba — região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, com empreendimentos em municípios como Balsas (MA), Luiz Eduardo Magalhães (BA) e Uruçuí (PI).
No Sul do país, novas plantas industriais utilizam cereais de inverno, como trigo e triticale fora do padrão destinado à panificação, agregando valor à produção agrícola sem competir com o abastecimento alimentar.
Segundo Ágata Turini, essa descentralização aproxima a produção dos centros consumidores, reduz custos logísticos e estimula o desenvolvimento econômico regional.
O crescimento do setor também está associado ao aproveitamento integral dos cereais utilizados na produção de etanol.
Além do biocombustível, as biorrefinarias produzem coprodutos de elevado valor agregado, que já respondem por 20% a 25% da receita líquida das unidades mais modernas.
Entre os principais produtos estão o DDG e o DDGS, amplamente utilizados na alimentação animal devido ao elevado teor de proteína e energia. As plantas industriais também realizam a extração de óleo técnico e a captura de dióxido de carbono (CO₂), destinado às indústrias alimentícia, química e de bebidas.
Na avaliação da executiva, esse modelo amplia a eficiência econômica das usinas, fortalece a pecuária e cria novas oportunidades de comercialização para os produtores rurais.
Embora a expansão industrial ocorra em diversas regiões brasileiras, Ribeirão Preto (SP) permanece como um dos principais polos tecnológicos da bioenergia.
A região concentra fabricantes de equipamentos, empresas de engenharia, automação industrial, inteligência artificial e desenvolvimento de softwares utilizados em usinas espalhadas por todo o país.
Esse ecossistema tecnológico permite que soluções voltadas ao aumento da eficiência operacional, digitalização e automação continuem sendo desenvolvidas na região, reforçando sua posição estratégica para o setor sucroenergético nacional.
Além do crescimento da produção de combustíveis renováveis, o avanço do etanol de cereais amplia a segurança energética brasileira e fortalece a agenda de descarbonização.
O setor também impulsiona projetos de captura e armazenamento geológico de carbono (BECCS), tecnologia considerada estratégica para reduzir as emissões e posicionar o Brasil entre os líderes mundiais na produção de etanol com pegada negativa de carbono.
Para especialistas, a combinação entre cana-de-açúcar, cereais, inovação tecnológica e integração industrial marca uma nova fase da bioenergia nacional.
Com novos investimentos, expansão geográfica e maior diversificação da produção, o etanol de cereais reforça o papel do agronegócio brasileiro na oferta de energia limpa, geração de renda, agregação de valor às cadeias produtivas e consolidação do Brasil como uma das principais referências globais em combustíveis renováveis.
Fonte: Portal do Agronegócio
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