Publicado em: 23/01/2026 às 10:50hs
O mercado de etanol brasileiro vive um momento de transformação estrutural, impulsionado pela rápida expansão da produção de etanol de milho, segundo relatório do RaboResearch, unidade de pesquisa do Rabobank, intitulado “Corn ethanol in Brazil – Yellow alert for sugar?”.
De acordo com o estudo, o ritmo acelerado dos novos investimentos no setor deve levar a um excedente de oferta nos próximos anos, o que pode pressionar os preços internos, reduzir a rentabilidade das usinas e impactar diretamente a produção global de açúcar.
“Há uma mudança estrutural em curso. A expansão da capacidade produtiva de etanol de milho pode gerar desequilíbrio no mercado e afetar as decisões das usinas em relação ao açúcar”, explica Andy Duff, analista de açúcar, cana e etanol do Rabobank.
A produção brasileira de etanol de milho deve crescer 16% na safra 2025/26, atingindo 9,5 bilhões de litros, segundo o Rabobank. A projeção indica que, até 2028, a capacidade nacional poderá chegar a 16 bilhões de litros, ultrapassando 20 bilhões no início da década de 2030.
Esse avanço, embora positivo do ponto de vista industrial, pode provocar excesso de oferta e redução de margens, especialmente diante da estagnação no consumo doméstico.
O Rabobank prevê que o consumo de combustíveis do ciclo Otto (veículos leves) crescerá cerca de 2% ao ano, quando o necessário para equilibrar o aumento da produção seria 4% anuais.
“O Brasil caminha para uma superoferta estrutural. Se o consumo não acompanhar a expansão, haverá impacto direto nos preços e na rentabilidade”, alerta o estudo.
O relatório também destaca o papel da gasolina como fator-chave na formação dos preços do etanol. A atual paridade de importação indica espaço para redução no preço do combustível fóssil, o que tende a diminuir a competitividade do etanol hidratado.
Com isso, o desconto do etanol em relação à gasolina pode se ampliar, reduzindo as margens das usinas e aumentando a volatilidade do mercado.
Entre os fatores que poderiam equilibrar a demanda estão:
No entanto, o estudo ressalta que esses efeitos devem ocorrer apenas no longo prazo, entre 2029 e 2030, sem impacto imediato na atual tendência de queda.
A possível superoferta de etanol no Brasil traz reflexos diretos para o mercado global de açúcar. O Rabobank aponta que, diante da queda nas margens do etanol, as usinas podem destinar mais cana-de-açúcar à produção de açúcar, ampliando o volume disponível no mercado internacional.
A Organização Internacional do Açúcar (ISO) estima que a safra 2025/26 apresentará um superávit global de 1,52 milhão de toneladas, revertendo o déficit de 2,91 milhões de toneladas da temporada anterior.
Esse novo cenário consolida um ambiente de preços pressionados, já que a produção brasileira – a maior do mundo – tende a ampliar a oferta internacional.
“A superoferta de etanol desloca parte da produção para o açúcar, o que mantém os preços das duas commodities sob pressão”, observa Duff.
O Rabobank ressalta, porém, que fatores externos e climáticos podem alterar o cenário de baixa para o açúcar e o etanol. Entre os pontos de atenção estão:
Esses elementos podem, temporariamente, reverter a tendência de queda e criar novas oportunidades de rentabilidade no mercado.
Apesar do crescimento do etanol de milho, o etanol de cana ainda representa dois terços da produção nacional, mantendo relevância estratégica para o setor sucroenergético brasileiro.
Nos últimos anos, as usinas priorizaram o açúcar devido ao cenário internacional mais favorável, mas a previsão de superávit global em 2026 pode limitar essa estratégia, exigindo novas abordagens de diversificação e eficiência.
“O Brasil, como maior exportador mundial de açúcar, terá papel decisivo na formação dos preços internacionais. O desafio está em equilibrar oferta, demanda e sustentabilidade econômica”, reforça o relatório.
O RaboResearch conclui que o avanço do etanol de milho exige planejamento estratégico e integração entre os mercados de etanol, açúcar e energia.
Para garantir equilíbrio, as empresas devem investir em gestão de risco, diversificação de portfólio e eficiência operacional.
Com o Brasil consolidando sua posição como líder global em biocombustíveis, o futuro do setor dependerá da capacidade de ajustar a produção à demanda e de manter a sustentabilidade financeira frente às transformações do mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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