Selic a 14% e dólar a R$ 5,35: incertezas externas e inflação limitam cortes de juros no Brasil, aponta Rabobank
Copom reduz a Selic para 14% ao ano, mas adota tom mais cauteloso diante da desancoragem das expectativas de inflação, dos riscos geopolíticos e da possibilidade de novos choques de oferta; Rabobank prevê dólar a R$ 5,35 no fim de 2026
Publicado em: 12/08/2026 às 10:30hs
O cenário econômico brasileiro entrou em uma fase de calibração entre a desinflação doméstica e o aumento das incertezas externas. Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha reduzido a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, a comunicação do Banco Central sinalizou maior cautela com os próximos passos da política monetária.
A avaliação consta do relatório semanal do Rabobank, divulgado em 10 de agosto, que destaca a persistência da desancoragem das expectativas de inflação, os riscos associados ao petróleo e às condições climáticas e a volatilidade provocada pelo cenário geopolítico internacional.
Na avaliação da instituição, o espaço para novos cortes da Selic ficou mais restrito. O Rabobank mantém a projeção de que o Banco Central interrompa o ciclo de flexibilização em 14% ao ano e só volte a reduzir os juros em abril de 2027. Para o fim de 2027, a projeção é de Selic em 12,5% ao ano.
Selic em 14% reforça cautela do Banco Central
A decisão do Copom foi unânime e representou uma redução de 25 pontos-base na taxa básica de juros. O movimento foi justificado pela avaliação de que ainda havia espaço para um ajuste adicional sem comprometer o processo de convergência da inflação para a meta no horizonte relevante.
Apesar do corte, a comunicação adotada pelo Comitê foi considerada mais hawkish, ou seja, mais rígida em relação aos riscos inflacionários.
O Banco Central destacou que o balanço de riscos permanece assimétrico para cima, principalmente diante da persistência das expectativas de inflação desancoradas e da possibilidade de novos choques de oferta relacionados ao petróleo e ao clima.
Outro ponto importante foi a decisão de não oferecer uma sinalização antecipada sobre os próximos passos. Segundo o relatório, as futuras decisões deverão depender da evolução dos indicadores econômicos e da concretização dos riscos identificados.
O movimento indica que, embora o ciclo de cortes ainda não tenha sido formalmente encerrado, a exigência para novas reduções da Selic ficou maior.
Expectativas de inflação continuam no radar
Um dos principais desafios para o Banco Central está na evolução das expectativas de inflação.
As projeções do mercado para o IPCA de 2026 melhoraram, passando de 5,3% para 5%. Entretanto, as expectativas para os anos seguintes pioraram.
Para 2027, a previsão subiu de 4,1% para 4,2%, enquanto para 2028 passou de 3,7% para 3,8%. No novo horizonte relevante do Copom, o primeiro trimestre de 2028, a expectativa também avançou de 4% para 4,1%.
A projeção do próprio Banco Central para 2026 caiu de 5,2% para 5,1%, mas subiu de 3,7% para 3,8% em 2027. Para o horizonte relevante, o Copom manteve sua projeção em 3,2%.
Segundo o Rabobank, esse comportamento mostra que o processo de reancoragem das expectativas ainda não está completo.
Petróleo, clima e geopolítica aumentam os riscos
O ambiente internacional continua sendo uma das principais fontes de incerteza para a economia brasileira.
Os conflitos no Oriente Médio mantêm a volatilidade dos preços das commodities e dos mercados financeiros. Ao mesmo tempo, dúvidas sobre o ritmo de desaceleração da economia dos Estados Unidos e sobre a condução da política monetária internacional aumentam a necessidade de cautela entre os mercados emergentes.
O petróleo aparece como um dos principais pontos de atenção.
Além da possibilidade de novas oscilações provocadas pelo cenário geopolítico, o Rabobank destaca que as condições climáticas também podem produzir novos choques de oferta. A instituição aponta ainda uma maior probabilidade de ocorrência de El Niño no fim de 2026, adicionando riscos ao comportamento dos preços de commodities e da inflação.
Para o agronegócio, esse cenário merece atenção especial, uma vez que alterações no clima, no petróleo, no câmbio e nos preços internacionais podem afetar diretamente custos de produção, fertilizantes, fretes e formação de preços das principais commodities agrícolas.
Dólar pode chegar a R$ 5,35 no fim de 2026
O câmbio também permanece entre os principais pontos de atenção.
Em 7 de agosto, o dólar encerrou a semana em aproximadamente R$ 5,08, enquanto o real apresentou desempenho relativamente positivo diante de outras moedas de mercados emergentes.
Apesar disso, o Rabobank projeta uma recuperação da moeda americana ao longo do restante do ano.
A instituição estima que o dólar termine 2026 em R$ 5,35, em um cenário marcado pela redução do diferencial entre os juros brasileiros e internacionais, possível recuperação global do dólar e incertezas relacionadas ao quadro fiscal brasileiro em um ano eleitoral.
O câmbio será particularmente relevante para o agronegócio brasileiro.
Um real mais depreciado tende a favorecer a receita dos exportadores de commodities quando os preços internacionais permanecem elevados, mas também pode pressionar custos de insumos importados, especialmente fertilizantes, defensivos e determinados componentes utilizados na produção agrícola.
Indústria brasileira registra pior resultado do ano
Enquanto a balança comercial continua mostrando resiliência, a atividade industrial apresentou sinais mais claros de desaceleração.
A produção industrial brasileira caiu 1,8% em junho na comparação mensal, o pior resultado do ano. O resultado ficou abaixo da expectativa do mercado, que projetava queda de 0,9%.
Na comparação anual, entretanto, houve crescimento de 1,7%.
Entre as 25 atividades pesquisadas, 16 apresentaram queda em junho. Os recuos mais expressivos foram observados em produtos farmoquímicos e farmacêuticos, confecção de artigos do vestuário, equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, além de produtos derivados de petróleo e biocombustíveis.
Por outro lado, a produção de celulose, papel e produtos de papel avançou 5,4%, enquanto impressão e reprodução de gravações cresceram 20,2%.
O desempenho das grandes categorias econômicas também foi negativo.
Os bens de consumo não duráveis recuaram 4,1%, os duráveis caíram 3,2%, enquanto bens intermediários e bens de capital apresentaram retração de 1,1% cada.
Para o Rabobank, os números reforçam a percepção de um desaquecimento gradual da atividade industrial, influenciado pela política monetária restritiva, pelas incertezas geopolíticas e pelo ambiente eleitoral.
Balança comercial acumula superávit de US$ 49 bilhões
Em contraste com a fraqueza da indústria, o setor externo continua oferecendo sustentação à economia brasileira.
A balança comercial registrou superávit de US$ 7,1 bilhões em julho, resultado de exportações de US$ 34,1 bilhões e importações de US$ 27,1 bilhões.
No acumulado de 2026, o saldo positivo chegou a US$ 49 bilhões, uma alta de 31,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
As exportações cresceram 10,5% na comparação anual, enquanto as importações avançaram 5,5%.
Soja lidera avanço das exportações do agronegócio
O agronegócio continua exercendo papel importante no desempenho das exportações brasileiras.
Em julho, as exportações da agropecuária cresceram 9,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Entre os principais destaques, os embarques de soja aumentaram 17,4%, enquanto as exportações de animais vivos cresceram 29,9% e as de algodão avançaram 21,2%.
Também houve forte crescimento nas exportações da indústria de transformação, que aumentaram 10,8%, impulsionadas, entre outros produtos, por gorduras e óleos vegetais, cujas vendas externas avançaram 149,5%.
No setor extrativo, as exportações cresceram 2,4%, com destaque para petróleo bruto, que apresentou alta de 23,8%.
Os dados reforçam a importância das commodities para a geração de divisas e para a sustentação da balança comercial brasileira em um cenário internacional de elevada volatilidade.
China amplia compras de produtos brasileiros
Entre os principais destinos das exportações brasileiras, a China apresentou crescimento de 8,64% em julho na comparação anual.
Também foram registrados avanços expressivos nas vendas para Holanda, Índia e Japão.
Em contrapartida, as exportações para os Estados Unidos recuaram 4,99%, enquanto os embarques para a Argentina caíram 13,91%.
No lado das importações, as compras provenientes da China cresceram 19,67%, enquanto as operações com os Estados Unidos e a Argentina apresentaram retração.
Segundo o Rabobank, o desempenho das exportações brasileiras foi favorecido principalmente pelos embarques de soja e petróleo, em um contexto de preços internacionais e demanda global.
Projeções do Rabobank para a economia brasileira em 2026
O cenário-base da instituição aponta para uma combinação de inflação ainda elevada, juros altos, crescimento moderado e câmbio mais pressionado.
Para 2026, o Rabobank projeta:
- IPCA: 5,1%;
- Selic: 14% ao ano;
- Dólar: R$ 5,35;
- PIB: crescimento de 1,8%;
- Balança comercial: superávit de US$ 78,8 bilhões;
- Conta corrente: déficit de US$ 60 bilhões;
- Resultado primário: déficit de 0,4% do PIB.
Para 2027, a instituição projeta IPCA de 4,1%, Selic de 12,5%, dólar em R$ 5,30 e crescimento do PIB de 2,2%.
Commodities agrícolas seguem com desempenho desigual
O comportamento das commodities também mostra um cenário heterogêneo.
Na referência de 7 de agosto, a soja negociada em Chicago estava em US$ 11,76 por bushel, com queda semanal de 1%, mas alta de 12% em 12 meses.
O milho estava em US$ 4,615 por bushel, queda semanal de 0,5% e alta anual de 3%.
O café registrava US$ 3,1590 por libra-peso, com alta de 0,4% na semana e avanço de 20% em 12 meses.
O açúcar era negociado a US$ 16,45 por libra-peso, com valorização semanal de 12,2%, enquanto o algodão estava em US$ 0,8440 por libra-peso, alta de 3,2% na semana e 23% em 12 meses.
Já o suco de laranja acumulava queda de 35% em 12 meses.
O que o cenário significa para o agronegócio brasileiro?
A combinação de Selic elevada, dólar potencialmente mais forte, riscos climáticos e volatilidade internacional cria efeitos distintos para produtores, tradings, agroindústrias e exportadores.
Para os exportadores de commodities, uma eventual valorização do dólar pode aumentar a receita em reais, principalmente quando os preços internacionais permanecem sustentados.
Por outro lado, a desvalorização cambial também pode elevar o custo de insumos importados e pressionar as margens de produtores que dependem de fertilizantes, defensivos e equipamentos com componentes dolarizados.
O cenário climático merece atenção adicional. Uma maior probabilidade de El Niño pode alterar padrões de chuva e temperatura em importantes regiões produtoras, afetando produtividade e oferta de diferentes culturas.
Além disso, petróleo mais caro pode pressionar custos logísticos e energéticos, enquanto eventuais choques nas commodities podem dificultar o processo de desinflação e, consequentemente, limitar o espaço para novos cortes de juros.
Cenário exige atenção redobrada de produtores e investidores
O relatório do Rabobank mostra que a economia brasileira atravessa um período de transição.
De um lado, há sinais de desinflação e uma tentativa do Banco Central de iniciar uma flexibilização monetária. De outro, a atividade econômica começa a mostrar sinais de perda de força, enquanto as expectativas de inflação continuam desancoradas nos horizontes mais longos.
No exterior, conflitos geopolíticos, petróleo, política monetária americana, desaceleração da economia global e riscos climáticos adicionam novas fontes de volatilidade.
Para o agronegócio, o ambiente exige atenção especial ao comportamento do dólar, das commodities agrícolas, dos custos de produção e do clima.
Com a Selic em 14% e o Rabobank projetando o dólar em R$ 5,35 no fim de 2026, decisões de comercialização, financiamento e proteção cambial tendem a ganhar ainda mais importância para empresas e produtores rurais.
O quadro, portanto, não aponta apenas para riscos. A combinação de câmbio, demanda internacional e força das exportações brasileiras também pode abrir oportunidades para segmentos competitivos do agronegócio — desde que os agentes estejam preparados para um ambiente de maior volatilidade e juros ainda elevados.
Fonte: Portal do Agronegócio
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