Rabobank mantém dólar a R$ 5,35 no fim de 2026 e alerta para inflação de alimentos e energia
Relatório aponta valorização do real após o primeiro turno, mas mantém cautela com petróleo, El Niño e cenário fiscal; banco projeta IPCA de 5,1% neste ano
Publicado em: 19/10/2026 às 10:40hs
A valorização do real após o primeiro turno das eleições melhorou a perspectiva de curto prazo para a moeda brasileira, mas ainda não levou o Rabobank a alterar sua projeção de dólar a R$ 5,35 no encerramento de 2026. No relatório Acomodação pós primeiro turno, divulgado em 14 de outubro, o banco destaca que as incertezas externas e fiscais continuam relevantes, enquanto alimentos e energia voltam a pressionar a inflação.
Assinada pelos economistas Mauricio Une e Renan Alves, a análise também aponta a resistência do comércio exterior brasileiro. O superávit comercial de setembro superou as expectativas da instituição, com contribuição das exportações de produtos como soja, café e algodão.
Os dados de mercado apresentados no documento têm como referência o fechamento de 9 de outubro.
Real ganha força após primeiro turno, mas riscos permanecem
Segundo o relatório, o dólar encerrou aquela semana a R$ 4,9871, com valorização de 4,32% do real frente à moeda norte-americana. Foi o terceiro melhor desempenho entre 24 moedas emergentes acompanhadas pelo banco.
Na interpretação dos economistas, o resultado do primeiro turno estimulou uma reação favorável dos ativos brasileiros, associada à expectativa de um ajuste fiscal mais rápido no próximo mandato presidencial.
O Rabobank reconhece, assim, um cenário de curto prazo relativamente mais favorável ao real do que previa anteriormente. Ainda assim, mantém a estimativa cambial para dezembro, considerando a possibilidade de redução da diferença entre os juros brasileiros e internacionais e de recuperação global do dólar.
Entre os riscos monitorados estão a trajetória dos juros nos Estados Unidos, o ritmo de atividade das economias norte-americana e chinesa, as tensões geopolíticas e as dúvidas sobre o ajuste das contas públicas brasileiras.
Inflação de setembro acelera com alimentos, eletricidade e transportes
Conforme os dados reunidos no documento, o IPCA avançou 0,82% em setembro, após queda de 0,32% em agosto. O resultado superou tanto a expectativa do mercado, de 0,76%, quanto a projeção do Rabobank, de 0,74%.
Em 12 meses, a inflação passou de 4,2% para 4,6%, voltando a superar o limite superior de tolerância da meta, de 4,5%.
Todos os nove grupos pesquisados registraram alta no mês. A principal pressão veio de habitação, com avanço de 2,31%, influenciado pelo aumento de 7,98% na energia elétrica residencial. O relatório associa esse movimento ao encerramento do efeito do Bônus de Itaipu nas faturas e à manutenção da bandeira tarifária amarela.
Transportes subiu 0,89%, com aumentos nas passagens aéreas e nos combustíveis. O diesel avançou 1,69%, a gasolina, 1,21%, e o etanol, 3,16%.
Alimentos voltam a subir e El Niño entra no radar
Após três meses de queda, o grupo alimentação e bebidas registrou alta de 0,83% em setembro. A alimentação no domicílio aumentou 0,96%.
Entre os produtos destacados pelo relatório, o tomate subiu 37,76%, a batata-inglesa, 24,07%, e a cebola, 10,14%. O arroz avançou 4,56%, enquanto as carnes tiveram alta de 0,63%.
Na avaliação do Rabobank, parte dessas variações já pode refletir efeitos do El Niño. A instituição acompanha os riscos climáticos para os alimentos, além de possíveis pressões sobre fertilizantes e dos desdobramentos do mercado de energia.
O banco também identificou piora moderada nas medidas que procuram captar a tendência da inflação. A média dos núcleos passou de 0,23% em agosto para 0,36% em setembro, alcançando 4,5% em 12 meses.
Para os economistas, o resultado recomenda cautela na política monetária, embora não tenha alterado, naquele relatório, o balanço de riscos da instituição para 2026.
Petróleo acima de US$ 100 amplia incertezas
As tensões entre Estados Unidos e Irã permanecem entre os principais fatores externos acompanhados pelo banco.
No fechamento de 9 de outubro, o petróleo Brent estava em US$ 104,43 por barril, com alta semanal de 2,1%, segundo o documento.
A manutenção do petróleo em patamar elevado adiciona incerteza ao processo de convergência da inflação à meta. O relatório também cita dúvidas sobre tarifas no comércio internacional e os riscos de um El Niño forte como elementos que exigem acompanhamento.
Balança comercial tem superávit de US$ 7,7 bilhões
Em contraste com as pressões inflacionárias, o setor externo apresentou resultado favorável. A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 7,7 bilhões em setembro, acima dos US$ 7,2 bilhões estimados pelo Rabobank.
As exportações somaram US$ 34,4 bilhões, enquanto as importações alcançaram US$ 26,7 bilhões. No acumulado de janeiro a setembro, o saldo positivo chegou a US$ 62,4 bilhões, crescimento de 34,8% frente ao mesmo período de 2025.
Na análise setorial apresentada pelo banco, as exportações da agropecuária avançaram 4,8% na comparação anual de setembro. Entre os destaques estavam soja, com alta de 11,9%, café não torrado, com 8,7%, e algodão em bruto, com 14,4%.
O documento também aponta queda de 24,1% nas importações de adubos ou fertilizantes químicos na comparação anual do mês.
Rabobank projeta IPCA de 5,1% e Selic de 13,75% em 2026
No cenário apresentado em 14 de outubro, o Rabobank mantém projeções de inflação de 5,1%, Selic de 13,75% ao ano e crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto em 2026.
Para 2027, as estimativas são de IPCA de 4,1%, Selic de 12% ao ano e expansão econômica de 2,2%.
A análise combina uma perspectiva cambial de curto prazo mais favorável com cautela diante da inflação, do petróleo e das incertezas fiscais. Para as cadeias do agronegócio, esses indicadores compõem o cenário de planejamento de custos, financiamento e comercialização.
Fonte: Portal do Agronegócio
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