Publicado em: 29/07/2024 às 10:40hs
O cenário de incertezas que levou o Banco Central a interromper o ciclo de afrouxamento monetário continua presente, dificultando a possibilidade de um corte de juros nesta semana. Essa é a avaliação do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello.
Em entrevista à Reuters durante os encontros de líderes financeiros do G20, no Rio de Janeiro, Mello destacou que as taxas de juros no Brasil estão muito acima do nível considerado neutro para a economia. Apesar disso, ele observou que o ambiente econômico não apresentou melhoras significativas desde junho, quando o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 10,50%.
As declarações de Mello refletem a visão unânime do Banco Central sobre um ambiente doméstico e externo desafiador, em contraste com a crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao nível das taxas de juros e à condução da política monetária.
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu pausar o ciclo de corte da Selic após sete reduções consecutivas que diminuíram a taxa básica em 3,25 pontos percentuais desde agosto de 2023. A próxima reunião do grupo está marcada para os dias 30 e 31 de julho.
"O que o Copom decidiu na última reunião foi que, diante dessas incertezas crescentes, que evidentemente geram também desancoragem das expectativas domésticas e que têm afetado o preço de alguns ativos, como a taxa de câmbio, ele preferiu interromper e aguardar, mantendo essa taxa de juros", explicou Mello. "O que eu observo é que esse conjunto de incertezas ainda existe", acrescentou.
Desde a última reunião do Copom, o dólar subiu quase 7% em relação à cotação de 5,30, anteriormente considerada pelo Banco Central em suas projeções, o que exerce pressão sobre a inflação.
Outro ponto de incerteza, segundo o secretário, é o impasse em torno da desoneração da folha salarial de empresas e municípios, que impacta a meta do governo de atingir déficit primário zero neste ano. Mello enfatizou que o governo continua trabalhando junto ao Congresso para encontrar medidas de compensação para o benefício.
“Seguiremos o diálogo buscando uma solução, mas estamos cientes de que esses gastos tributários tiveram e terão um impacto significativo neste ano, dificultando a execução orçamentária planejada para alcançar o equilíbrio fiscal”, afirmou. O Supremo Tribunal Federal deu prazo até 11 de setembro para que governo e Congresso aprovem as medidas de compensação; caso contrário, o benefício pode ser suspenso.
Mello reforçou a necessidade de cumprir a decisão judicial, mesmo que as compensações sejam apenas parciais. “Queremos equilibrar o Orçamento ainda este ano, mas estamos enfrentando dificuldades, e ainda não resolvemos a questão das receitas que esperávamos. Pretendemos resolver isso em breve”, disse. Ele acrescentou que o governo está trabalhando para criar um ambiente que, futuramente, permita a retomada do ciclo de queda de juros.
Como um dos responsáveis pelas discussões sobre a taxação de super-ricos, Mello comemorou o resultado da reunião de lideranças financeiras do G20, que culminou em um comunicado conjunto e uma declaração de consenso sobre tributação, mencionando a proposta brasileira de buscar formas de tributar efetivamente os ultra-ricos.
Ele reconheceu que ainda há um “longo caminho” para a implementação do plano, que enfrenta resistência dos países mais ricos, apesar do apoio geral nos documentos do G20. “A pauta da tributação dos super-ricos veio para ficar”, afirmou Mello, destacando que mudanças políticas nos Estados Unidos, por exemplo, podem afetar o ritmo de avanços, mas dificilmente impedirão que o tema continue a ser discutido de forma aprofundada.
Fonte: Portal do Agronegócio
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