Publicado em: 30/01/2026 às 12:30hs
A recente escalada nas tensões entre Estados Unidos e Venezuela voltou a acender o alerta nos mercados internacionais. O endurecimento das relações diplomáticas entre os dois países reaviva incertezas em torno de sanções econômicas e restrições comerciais, ampliando a volatilidade cambial e pressionando o comércio regional na América do Sul.
Em 2025, a combinação entre riscos geopolíticos e choques no mercado de energia tem provocado alta nos preços do petróleo e fortalecido o dólar, que se consolida como ativo de proteção em momentos de instabilidade. O movimento, porém, penaliza as moedas emergentes e aumenta o custo das transações financeiras no continente.
A Venezuela, que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, segundo a Opep, segue enfrentando limitações de produção por fatores políticos, financeiros e regulatórios. Em períodos de maior atrito com Washington, cresce o risco de redução adicional na oferta venezuelana, o que tende a elevar o preço do barril e intensificar a pressão sobre as economias dependentes de importação de energia.
Para Murillo Oliveira, especialista em investimentos e estruturação financeira internacional e Head of Treasury da Saygo, o impacto é rápido e direto.
“Sempre que o conflito entre Washington e Caracas ganha tração, o dólar se fortalece e o custo do capital sobe. Esse movimento afeta diretamente países da América do Sul, tanto pelo câmbio quanto pelo aumento da percepção de risco nas operações regionais”, destaca o executivo.
Relatórios recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que episódios de tensão geopolítica envolvendo grandes produtores de energia tendem a provocar forte volatilidade nas moedas emergentes em curtos períodos. Essa instabilidade se reflete em dificuldade de precificação, encarecimento de operações de hedge e redução do apetite de investidores por ativos regionais.
Segundo Oliveira, empresas expostas a múltiplas moedas precisam reforçar a gestão de risco cambial.
“O erro é tratar esse tipo de tensão como algo distante. Ela altera taxas de câmbio, spreads financeiros, seguros internacionais e até a disposição das instituições em financiar operações com exposição regional”, explica.
Os efeitos da instabilidade também atingem o comércio intrarregional. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) indicam que as trocas entre países sul-americanos representam cerca de 15% das exportações totais da região. Quando há aumento de incerteza política, custos logísticos, prêmios de risco e exigências contratuais tendem a crescer — especialmente nas operações que envolvem fronteiras terrestres e mercados de menor liquidez.
“Quando há sanções ou ruído geopolítico, o custo da operação sobe quase automaticamente. Frete, seguro e câmbio ficam mais caros, e muitas transações deixam de ser viáveis do ponto de vista econômico”, ressalta o analista.
Em um ambiente de maior instabilidade global, especialistas recomendam que empresas reforcem suas estratégias de proteção financeira e diversifiquem mercados e fontes de receita.
“Empresas concentradas em regiões politicamente sensíveis ficam mais vulneráveis. O momento exige contratos mais flexíveis, políticas de proteção cambial bem definidas e leitura constante do cenário macroeconômico”, afirma Oliveira.
Ele acrescenta que o agravamento da tensão entre EUA e Venezuela serve de alerta estratégico para toda a América do Sul.
“Não se trata apenas de um impasse diplomático. É um fator que reorganiza fluxos de capital, altera preços relativos e exige decisões mais rápidas e técnicas de quem atua em comércio exterior e investimentos internacionais”, conclui.
Fonte: Portal do Agronegócio
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