Internacional

França tenta reduzir dependência de grãos importados

Além de insistir que é preciso dizer "não" ao acordo de livre comércio entre União Europeia (UE) e Mercosul, a França tem um novo plano: subsidiar a produção de proteínas vegetais para reduzir as importações de soja desde Brasil e Argentina


Publicado em: 02/10/2020 às 10:35hs

França tenta reduzir dependência de grãos importados
Foto: Julien Denormandie, Ministro da Agricultura

O plano é encarado com ceticismo inclusive no setor agrícola do país europeu, considerando custos de produção, terras disponíveis na Europa ocidental e a competitividade do grão sul-americano. Mas o governo francês considera que o desenvolvimento de proteínas vegetais é essencial para que a Europa reconquiste sua soberania alimentar.

Com os recursos emergenciais que recebeu da Comissão Europeia para a retomada da economia pós-pandemia, a França destinou € 100 milhões para seu projeto. "Não podemos aceitar ser tão dependentes das importações de soja brasileira", diz o ministro da Agricultura do país, Julien Denormandie. Ele defende que o plano seja encampado pela Política Agrícola Comum (PAC) que vai vigorar nos próximos anos e expandida a outros membros da UE.

A soja é uma das commodities mais visadas por organizações não governamentais (ONGs) e por alguns governos europeus pela associação com desmatamento no Brasil. Isso apesar das negativas das autoridades brasileiras - que, de toda maneira, têm credibilidade próxima de zero na Europa no que tange à área ambiental.

A demanda por proteínas vegetais na Europa é elevada: foram cerca de 23 milhões de toneladas em 2016/17, segundo relatório elaborado em 2018 pela Comissão Europeia. A taxa de autossuficiência varia: é de 79% para a canola, mas de apenas 5% no caso da soja. Assim, a UE importa cerca de 17 milhões de toneladas de proteínas vegetais por ano, das quais 13 milhões são de soja, 90% das quais do Mercosul.

O valor dessas importações cresceu de € 9 bilhões para € 12 bilhões entre 2008 e 2015, segundo a Copa Cogeca. Para essa poderosa central agrícola, a emergência de novos clientes da soja de Brasil e Argentina, sobretudo a China, enfraqueceu a capacidade europeia de suprimento e pode afetar o acesso a vegetais ricos em proteína no longo prazo.

A área destinada à soja na Europa dobrou desde a reforma da Política Agrícola Comum, em 2013, e superou 1 milhão de hectares, enquanto a colheita chegou a 2,8 milhões de toneladas em 2017/18- foram 120 milhões no Brasil em 2019/20. Os principais produtores europeus de soja são Itália, França e Romênia.

Na Europa, cerca de 93% da soja é destinada à fabricação de rações. Mas a demanda tem crescido dois dígitos para a produção de alimentos alternativos a carnes e lácteos.

O plano francês de € 100 milhões para subsidiar culturas com alto teor proteico será complementado por créditos do programa de investimento do futuro destinados à alimentação sustentável e à saúde.

Na última reunião de ministros europeus de Agricultura, a delegação francesa pediu "flexibilidade" na regulamentação futura da PAC para pagamento da chamada "ajuda acoplada" (coupled aid) aos produtores de proteínas vegetais, sem restrições técnicas às misturas de gramíneas e leguminosas e com alterações no teto dos subsídios. O país teve apoio formal de Espanha, Itália, Bulgária, Chipre, Croácia, Grécia, Hungria, Letônia, Luxemburgo, Polônia, República Checa, Romênia, Eslováquia e Eslovênia.

Na prática, qualquer plano vai ser focado em plantas com teor de proteínas acima de 15%. É o caso de oleaginosas como canola, girassol e soja; legumes secos como feijão, ervilha, lentilha; e leguminosas forrageiras como alfafa.

Mas o ceticismo impera. "O objetivo é bom, mas não acredito. É o quinto projeto nos últimos 20 anos. E cada vez esbarra no problema econômico", disse ao Valor, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Nutrição Animal (SNIA), François Cholat.

Segundo ele, a soja francesa é 25% mais cara que a brasileira ou a americana. Num contexto econômico complicado, é difícil um criador de animais abrir mão da soja do Brasil, especialmente rica em proteínas. "A França tem uma parceria histórica na compra de soja brasileira, mas as importações já caíram de 5 milhões de toneladas para 3 milhões nos últimos anos". Parte do farelo de soja importado foi substituído por farelo de canola produzido na Europa

Para ele, o Brasil precisa "ajudar" os importadores com programas efetivos de combate ao desmatamento na Amazônia. "As ONGs visam o Brasil, e a pressão dos consumidores vai aumentar para coibir importações de áreas desmatadas".

Um analista francês estima que o programa do governo poderá, no máximo, aumentar em 10% a autossuficiência de proteínas vegetais nos próximos dez anos. Os cálculos são de que a soja rende 3 toneladas por hectare, ante 10 toneladas no caso do milho. E a ampliação da produção desses grãos afetaria as exportações de trigo. "Sabemos que a Europa não tem a mínima capacidade de ser autônoma em proteína vegetais, porque importa barato e prefere usar sua área com culturas com denominação de origem, por exemplo, que têm elevado valor agregado".

Para a Copa Cogeca, a soja até tem potencial na Europa, mas há muitos obstáculos regulatórios, incluindo a interdição de uso de agrotóxicos e o fato de ser uma cultura de mais fraco rendimento no continente.

Em todo caso, a Europa acompanha um projeto que voltou a estimular a produção de soja não transgênica. É o projeto "Soja do Danúbio", iniciado em 2017 com a participação de 8,5 mil agricultores de 21 países, parte deles da Europa do Leste, incluindo Ucrânia e Rússia. A produção já atinge 700 mil toneladas.

Fonte: AviSite

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