Publicado em: 13/01/2016 às 17:45hs
A mudança no perfil de crescimento econômico da China - que passa a assumir foco maior no mercado interno em detrimento a exportação - ainda não conseguiu ser suave o bastante para garantir calmaria ao mercado financeiro. Acostumado a ver o país ampliar o Produto Interno Bruto (PIB) a taxas de dois dígitos, o resto do mundo tenta se acostumar a um novo cenário, que promete ritmo mais fraco de expansão. Enquanto a transição não é totalmente assimilada, a economia global encara tropeços como o desta semana, que gerou fortes quedas nas principais Bolsas de Valores mundiais. O quadro gera reflexos diretos no agronegócio, comprovados por meio de flutuações nas cotações principais commodities negociadas internacionalmente.
Pesquisa - Para detalhar melhor quais os efeitos dessa mudança, o Agronegócio Gazeta do Povo ouviu especialistas de dentro e fora do Brasil para ouvir opiniões sobre como a nova realidade da China afeta o agronegócio. Confira como os principais elementos do mercado serão afetados.
Preços - As cotações das principais commodities agrícolas reagiram as quedas das bolsas chinesas operando no campo negativo nesta semana. Na última segunda-feira (04), quando ocorreram as primeiras quedas na Ásia, a cotação da soja em Chicago caiu 0,8% no vencimento janeiro/2016, para US$ 8,64 por bushel. Na avaliação dos especialistas, isso é uma reação natural dos investidores em um momento de incerteza. “Esses soluços do mercado refletem a ideia de que a China está desacelerando mais forte do que se esperava”, pontua o diretor-técnico da Informa Economics FNP, José Vicente Ferraz. Para o analista de mercado Flávio França Júnior, trata-se de um comportamento de aversão aos riscos.
Dólar - “Em meio a incerteza os investidores buscaram ativos mais seguros, como o dólar”, exemplifica. Assim, o fator cambial assume peso decisivo para garantir sustentação as cotações da oleaginosa. O yuan acumula desvalorização de 4% frente ao dólar, mas registra alta de 42% frente ao real. Isso amplia o poder de compra chinês no Brasil, favorecendo um redirecionamento da demanda.
Demanda - O analista da Bolsa de Comércio de Rosário, Guillermo Rossi lembra o papel decisivo que o apetite chinês assumiu no mercado de grãos. “O caso da soja é pragmático. O comércio mundial cresceu 278% nas últimas duas décadas, mas, desconsiderando a China, esse número cai para 38%”, compara. “Isso significa que mais de 80% do crescimento desse mercado se deve ao aumento da demanda de um único país”, salienta.
China - No caso do Brasil as exportações para a China (+24%) crescem acima da média total (+18%), comprovando o poder de incentivo gerado pelo país. Nos Estados Unidos o peso asiático sobre o crescimento total é menor, reforçando a dependência das economias emergentes. Mesmo com as mudanças os especialistas descartam uma queda na demanda. “Ninguém está falando em recessão. A importação chinesa vai crescer menos, mas não quer dizer que vai retrair”, argumenta Ferraz, da Informa Economics. França Júnior faz análise semelhante. “Essa turbulência do mercado não é desprezível, mas até agora ela não impactou a demanda chinesa por soja. Esse crescimento deve continuar em 2016”, projeta.
Estimativa USDA - O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), estima salto de 3% nas compras chinesas em relação à temporada 2014/15, chegando a 80,5 milhões de toneladas neste ciclo.
Longo prazo - “O processo vivido pela China entre 1980 e 2010, de crescimento tão acelerado, não se repetirá nunca mais”, decreta Rossi, da Bolsa de Rosário. Assim, ele avalia que o mercado deve buscar a viabilidade otimizando os custos de produção. “É preciso atacar problemas estruturais, como baixar os custos de transporte e financiamento”, pontua.
Valor agregado - Em paralelo, há necessidade de buscar outros mercados, com os países do Sudeste Asiático. “Nesse caso há uma possibilidade de exportar não apenas matéria-prima, mas também produtos com maior valor agregado”, destaca. França Junior indica que mesmo crescendo menos, a China também continuará relevante no mercado. Com possível aumento na renda per capita e uma população de 1,3 bilhão de pessoas o país pode ampliar fortemente a demanda por proteína, o que também exigirá mais grãos. “Devemos continuar no lado positivo, até porque eles precisam alimentar toda aquela população”, resume. Para Ferraz, mesmo se o apetite chinês diminuir ainda há condições de conquistar outros mercados. “É preciso pensar que a soja atende um mercado global, então não há risco de ficarmos dependentes de um único cliente”, pontua.
Fonte: Gazeta do Povo
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