Publicado em: 04/03/2026 às 19:40hs
A decisão da China de impor cotizações à importação de carne bovina para os principais fornecedores internacionais inaugura um novo capítulo para a pecuária brasileira. O país terá um limite de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com acréscimo de cerca de 2% nos dois anos seguintes. O volume que ultrapassar essa cota será tributado com sobretaxa de 55%, inviabilizando, na prática, embarques acima do limite estabelecido.
Segundo Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, trata-se de uma medida de salvaguarda comercial, destinada a proteger o mercado e a indústria local. “Acima da cota, a sobretaxa prejudica a competitividade do produto brasileiro”, afirma.
Em 2025, o Brasil exportou 3,50 milhões de toneladas de carne bovina, aumento de 20,9% em relação a 2024, gerando US$ 18,03 bilhões, segundo a ABIEC.
A China respondeu por 48% do total, com 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,90 bilhões em receita. Os principais destinos seguintes foram:
A ABRAFRIGO manifestou “profunda preocupação” com a medida, classificando-a como um risco material e imediato às exportações brasileiras, com possível perda de até US$ 3 bilhões em 2026.
A principal dúvida do produtor é sobre o efeito nos preços. Leandro Gilio explica que a restrição tende a limitar a demanda externa, reduzindo parte da pressão de alta sobre a arroba.
A médica veterinária e economista Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, afirma que não há motivo para pânico, mas destaca a necessidade de buscar novos compradores, já que 600 mil toneladas estão sob contrato com a China. O ciclo pecuário, com recente liquidação de fêmeas, também deve sustentar a oferta e os preços internamente.
A forma de distribuir o volume autorizado entre frigoríficos considera o market share de exportação de 2025, mantendo a estrutura de mercado atual.
Segundo Gilio, isso reduz volatilidade e aumenta previsibilidade para os frigoríficos, diminuindo incentivos à corrida de compras. Pimentel alerta, porém, para necessidade de análise regulatória detalhada, caso novas indústrias sejam habilitadas ou algumas se tornem mais eficientes.
A salvaguarda chinesa está prevista por três anos, podendo se estender até 2028. Segundo Gilio, a medida pode reduzir investimentos produtivos e limitar preços e produção interna. A ABRAFRIGO reforça que o momento coincide com um ciclo delicado do pecuarista, podendo desestimular novos aportes no setor.
Ainda assim, o cenário não é definitivo. “O Brasil tem grande capacidade de produção a baixo custo e é importante buscar negociações que reduzam o bloqueio do mercado”, observa Gilio.
Possibilidade de redirecionamento para outros mercados
O Brasil pode direcionar parte da carne a outros destinos, mas há limites estruturais, como habilitação de frigoríficos e regras sanitárias. Avanços recentes, como a abertura de mercados no Vietnã e Coreia do Sul, podem amenizar a redução de demanda chinesa.
Caio Penido, presidente do IMAC, destaca que o país tem potencial competitivo para se sair bem, aproveitando qualidade e custo da carne brasileira.
Diante da nova realidade, Gilio recomenda cautela nos investimentos, considerando possível queda de preços na arroba e maior ponderação na reposição de animais.
Penido reforça a importância da gestão eficiente, com atenção aos custos de produção, uso de derivativos, distribuição de vendas e produção de animais mais versáteis.
O cenário atual não representa ruptura, mas ajuste de mercado, e a forma como o Brasil reagirá nos próximos meses será determinante para os preços, investimentos e competitividade da carne bovina até 2028.
Fonte: Portal do Agronegócio
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