Publicado em: 17/03/2016 às 17:45hs
Nas últimas semanas, enquanto se divulgavam dados sobre uma recessão que talvez se mostre sem paralelos em nossa história, os preços dos ativos brasileiros caminhavam na direção oposta -ações subiram de preço, juros de longo prazo caíram e o real se valorizou.
O paradoxo tem explicação. A degradação das condições econômicas, combinada com as recentes revelações da Lava Jato, eleva a insatisfação popular com o governo Dilma Rousseff (PT); as chances de a presidente sofrer impeachment também aumentam nesse cenário.
Certa ou errada, predomina a visão de que eventual mudança no Planalto destravaria decisões e abriria caminho para uma agenda mínima de reformas. Daí por que a percepção de um desenlace da crise política impulsiona as cotações.
A alta na Bolsa chegou a 25% desde meados de fevereiro, a cotação do real se valorizou cerca de 10% e os juros reais (descontada a inflação) de longo prazo caíram para 6,5%, nível que vigorava pouco antes de o país perder o selo de bom pagador, em setembro.
Trata-se de movimento significativo, pois a situação permanece crítica. A queda do PIB desde meados de 2014, quando a recessão se iniciou, pode chegar a 8,7% até o final deste ano, completando 11 trimestres consecutivos de contração. Será o pior resultado da história, superando as retrações do início dos anos 1980 e do período Collor (1990-1992).
Outros fatores podem ser elencados para justificar o paradoxo. Por exemplo, o fato de a crise atual não decorrer de um quadro de insolvência em moeda estrangeira -ou seja, o país não tem dívida externa excessiva (Petrobras à parte) e conta com reservas internacionais de US$ 370 bilhões.
Ao contrário de quase todas as crises anteriores, o problema hoje é essencialmente doméstico. Explica-se pelo crescimento explosivo da dívida pública interna em moeda nacional, que deriva dos erros na gestão econômica e da incapacidade do governo Dilma de reequilibrar as contas. Em tese, retomar as rédeas da economia depende de decisões internas.
O que há hoje no Brasil é uma paralisia de decisões dos agentes econômicos, travando investimento e consumo. Sobra, por isso mesmo, capacidade ociosa -e crescer utilizando tal capacidade é mais fácil do que superar gargalos.
Os contornos de uma nova etapa ainda não estão claros, mas o comportamento dos mercados chama a atenção para algo importante. Num estado de depressão geral, mudanças nas expectativas têm poder maior que o usual para modificar a realidade econômica.
Fonte: Editorial Folha de S. Paulo
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