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BRASIL: Atividade econômica recuou 3,9% em 2015, apontam economistas

O acidente com a barragem da mineradora Samarco foi a pá de cal sobre qualquer expectativa de um último trimestre menos negativo para a atividade econômica, após um ano de graves problemas políticos e fiscais que devem conduzir o país à recessão mais severa já documentad


Publicado em: 07/03/2016 às 17:30hs

BRASIL: Atividade econômica recuou 3,9% em 2015, apontam economistas

Mariana - Ao arrastar para baixo a produção industrial no fim de 2015, o desastre em Mariana (MG) foi decisivo para as revisões negativas que levaram os analistas consultados pelo Valor Data a prever encolhimento de 1,6% da economia entre outubro e dezembro, na comparação com os três meses anteriores, feito o ajuste sazonal.

PIB - De acordo com a média de 23 estimativas, o Produto Interno Bruto (PIB) deve fechar o ano com retração média de 3,9%.

Projeções - As projeções para o dado do quarto trimestre, que será divulgado nesta quinta-feira (03/03) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) variam de retração de 1,1% a queda de 1,8%, ainda no confronto com o intervalo imediatamente anterior.

Componentes - Entre os componentes do PIB, os serviços e os investimentos, com quedas previstas de 1,1% e de 6,9%, nessa ordem, terão nos três últimos meses de 2015 o pior trimestre do ano. A indústria, conforme as projeções, deve encolher outros 3,1% no período, fechando o ano com retração de 6,8%, a pior pelo menos desde 1996, quando começa a série do IBGE. O consumo das famílias, acompanhando o processo de deterioração do mercado de trabalho, encolherá 1%, depois de recuar 1,5% no terceiro trimestre.

Desdobramento - O desempenho adverso se desdobra também sobre este ano, já que a herança estatística de 2015 deve ser negativa em aproximadamente 2,5%. Assim, estes primeiros três meses, avaliam economistas, devem ser os piores de 2016, com trimestres também negativos, porém mais próximos da estabilidade, até o fim do ano.

Itaú - O Itaú conta com queda de 1,1% do produto nos primeiros três meses deste ano, em relação ao último trimestre de 2015. Para os períodos seguintes, a instituição espera quedas menores, entre 0,3% e 0,2% ­ uma "estabilidade relativa", na definição de Felipe Salles, economista da instituição, durante a última apresentação do cenário macroeconômico da instituição. "Ainda haverá queda, mas em outra magnitude", pondera. Após oito retrações consecutivas, o primeiro resultado positivo, ainda na comparação com o trimestre anterior, viria no primeiro trimestre de 2017, 0,1%.

GO Associados - O cenário da GO Associados é semelhante, com retração de 1,4% do produto no primeiro trimestre de 2016 e PIB ainda estável nos primeiros três meses de 2017. Parte dessa expectativa, para Mariana Orsini, economista da instituição, deve­se à indústria, um dos setores a aliviar no segundo semestre as até então reiteradas contribuições negativas para o produto ­ mais pelo nível já bastante deprimido de produção do que por uma recuperação mais consistente, ela alerta.

Indicadores de confiança- "Os indicadores de confiança pararam de cair e, por isso, achamos que existe um espaço para que a indústria se estabilize", ela afirma, destacando que a retomada dos investimentos ainda deve demorar mais para se manifestar.

Surpresa negativa - A surpresa negativa com a produção industrial no quarto trimestre, contudo, foi, na avaliação de Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, um dos principais fatores de deterioração das expectativas para o desempenho da economia no período. No fim do ano passado, a economista já projetava um resultado ruim, com retração de 1,2% da atividade em relação ao terceiro trimestre de 2015, feitos os ajustes sazonais. À medida que os indicadores de atividade do período foram divulgados, porém, sua estimativa migrou para queda de 1,7%, repetindo o resultado observado entre julho e setembro.

Variação negativa  - O setor, para ela, registrou o pior desempenho do lado da oferta, com variação negativa de 3,6% no último trimestre, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, na série dessazonalizada. O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco foi a última "pá de cal", já que a indústria extrativa era a única com crescimento no acumulado em quatro trimestres e agora deve mostrar forte desaceleração.

Câmbio desvalorizado - Nem mesmo o câmbio desvalorizado, que tem contribuído para elevar o volume de manufaturados exportados, é suficiente para compensar o impacto da queda dos investimentos e da demanda privada sobre a produção, afirma Alessandra.

2017 - Ela também avalia que o país só deve voltar a crescer em 2017. Para este ano são esperadas contrações médias para o PIB de 0,7% nos primeiros dois trimestres e de 0,2% nos dois posteriores, com retração de 4% no ano fechado. "A confiança segue em níveis historicamente baixos, o cenário externo é complicado, há chance de nenhuma medida fiscal passar pelo Congresso. Em resumo, o balanço de riscos pende para o lado negativo."

Formação Bruta de Capital Fixo - Nas contas da Tendências, a Formação Bruta de Capital Fixo (medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, equipamentos, construção civil e pesquisa) deve amargar o décimo trimestre consecutivo de queda, com retração de 10,1% sobre o terceiro trimestre de 2015.

Sem perspectivas - "Não tem sinal de reversão, nem em importações, nem na produção de máquinas e equipamentos, nada que aponte que esse processo pode estar perto do fim", diz Alessandra. Segundo ela, no biênio 2015­ 2016, o investimento deve amargar recuo de quase 30%, o que terá reflexos sobre o potencial de expansão do PIB, mesmo quando a economia sair da recessão.

Impactos - Para Julia Araújo, do banco Fator, a formação de capital fixo também foi afetada pelo desastre em Mariana e pelos problemas da Petrobras no fim de 2015, mas o ambiente econômico incerto segue como entrave preponderante. "As expectativas são muito importantes para o investimento. Se a percepção é que a economia vai demorar mais para se recuperar, você não investe."

Demanda - Ainda sob a ótica da demanda, o consumo das famílias também terá desempenho medíocre, com queda de 1% no trimestre e de 3,9% no ano passado, conforme a média de projeções. O mercado de trabalho, lembra Julia, "é o último a entrar e a sair de uma crise", defasagem que explica a piora mais acentuada do consumo nos últimos três meses de 2015. Em seus cálculos, a demanda das famílias diminuiu 2,3% no período, queda mais forte do que a observada no terceiro trimestre, de 1,5%. A redução do consumo já dura quatro trimestres e deve persistir em 2016, que vai se encerrar com um tombo de 3,3% nesse componente, ela avalia.

Setor externo - O desempenho do PIB só não será pior, pondera Alessandra, por causa do setor externo. A absorção doméstica, que, além dos investimentos e da demanda privada, inclui o consumo do governo, deve ter caído 6,7% no ano passado. A alta de 5,9% das exportações e, principalmente, o recuo de 14% das importações devem levar o setor externo a dar contribuição positiva de 2,8 pontos percentuais em 2015, resultando em queda de 3,9% do PIB no ano passado.

Reação - Salles, do Itaú, ressalta que as exportações, especialmente as de manufaturados, demoram a reagir a uma eventual desvalorização cambial, "às vezes um, dois anos". Ao lado da demanda externa ainda fraca e do crescimento moderado de alguns dos principais destinos de produtos brasileiros, essa defasagem ajuda a explicar a estimativa de avanço modesto de 0,4% das exportações no quarto trimestre sobre o terceiro, sempre na série dessazonalizada, e de 6,6% em 2015.

Fonte: Paraná Cooperativo

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