Publicado em: 23/09/2015 às 17:00hs
“É preciso ficar claro que plantar florestas é plantar água para o futuro”. Com esta espécie de “mantra”, os coordenadores das redes de sementes florestais específicas de cada bioma brasileiro buscam sensibilizar os mais de 1.400 participantes do XIX Congresso Brasileiro de Sementes que acontece na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná. Eles participam da 2ª Feira de Sementes Florestais, promovida pela Rede de Sementes do Cerrado, com apoio da Petrobras.
Pior cenário
De acordo com a coordenadora da Rede de Sementes da Mata Atlântica, Fátima Piña-Rodrigues, que atua na área de sementes florestais desde a década de 70, o pior cenário para o segmento é o vivido atualmente. E o engenheiro florestal, coordenador do Centro de Sementes Nativas do Amazonas e integrante da Rede de Sementes da Amazônia, Manuel de Jesus V. L. Júnior, elenca as razões. Entre elas, o fato de que os coletores de sementes nativas têm formação e não têm mercado, a realidade de que o código florestal engessou todo o trabalho que poderia ter se realizado na recuperação de áreas. Ainda no campo legal, a legislação e a instrução normativa precisam ser revistas e a carência de tecnologia para atender a demanda de pesquisa, análise e produção de florestais, estão na lista de geradores de crise.
O antídoto para combater esta realidade e evitar que a falta de água impeça também o desenvolvimento das demais culturas, na avaliação dos estudiosos das sementes florestais, está na ação imediata de abrangência local e global. Para ilustrar a distância tecnológica, Fátima observa que “enquanto a soja tem tecnologia para revestir grão a grão, as sementes florestais não sabem ainda como germinar”.
Chegar no jovem
Os jovens precisam ser sensibilizados sobre a importância da pesquisa de sementes florestais, assinala a coordenadora da Mata Atlântica ao lembrar que ela própria investiu sua vida nesta área e vê a formação das Redes de Sementes dos biomas brasileiros como um coroamento da dedicação daqueles que se empenharam nesta proposta de valorização.
A título de comparação, Manuel de Jesus comenta que enquanto a Índia tem 400 anos de estudos sobre plantio de florestais, o Brasil tem referências escassas sobre plantio, “o que temos de mais antigo está no Instituto Florestal de São Paulo e data da década de 60”. Vivemos o resultado de uma cultura que se consolidou no Brasil relacionada ao imediatismo de resultados e a floresta não dá resultados imediatos, assinala quando Fátima lembra que no Canadá a floresta é plantada hoje para dar retorno em cem anos, mas há cem anos já a plantavam.
Outra cultura que eles lamentam estar na consciência brasileira é que se atribui todas as soluções ao governo e a silvicultura é preocupação de poucos empresários atualmente. Contudo, Fátima acredita que o momento é de levantar esta questão para a discussão nacional novamente e lembra a promoção de pomares de sementes nativas é a garantia de elas existam no futuro.
Valor da semente
Trabalho neste sentido, elaborado por um grupo de integrantes das Redes, foi entregue, em abril de 2014, à Secretaria de Biodiversidade de Florestas do Ministério da Agricultura, mas ainda não houve retorno. A proposta deste trabalho de que haja atenção e modificação de regras do setor para que os produtores de sementes florestais não sejam jogados na ilegalidade. “A semente é o produto não madeireiro mais importante da floresta, é dela que se retiram os fármacos, alimentos, corantes, cosméticos, bijuterias e a medicina nativa”, ressalta Manuel.
Esforço local
Para Fátima, o esforço para mudar o atual cenário crítico das sementes florestais deve ser local. As ações locais são fundamentais para disseminar a necessidade de plantar, conservar e produzir agora. “Estados e municípios precisam atuar nos Termos de Ajuste de Conduta para orientar, fiscalizar e cobrar efetivamente”, conclui.
Fonte: Segs
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