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Afinal, por que devemos comer mais feijão?

Hábitos alimentares resultam da conjunção de inúmeros fatores. Destacam-se dois. O primeiro, fundamental, principalmente nos primórdios da civilização, está ligado aos tipos de plantas e animais presentes na área de domínio da população, que possam vir a servir como alimento. Mesmo sendo mais recente, podemos citar a situação do feijão no século XII, na Europa. Hipoteticamente, nesse século o mesmo não poderia constituir-se em alimento pois só foi levado para lá após a descoberta da América, no fim do século XV.

Outro fator importante na formação do hábito alimentar é a imigração, pela qual povos vindos de outras regiões do globo trazem sua cultura e suas tradições para as novas terras que passam a habitar, fazendo parte deste contexto os alimentos tradicionalmente consumidos. No caso de plantas, trazem também as sementes das espécies que constituem estes alimentos. Estas espécies, muitas vezes, sofrem um processo de adaptação ao novo ambiente onde serão produzidas e esta prática acabou por transformar e, até certo ponto, uniformizar a alimentação no nosso globo.

Inúmeros são os exemplos que comprovam este fato. O arroz, um dos alimentos principais do povo brasileiro, por exemplo, é considerado por diversos historiadores e cientistas como sendo originário do sudeste da Ásia. Mianmar e Índia, esta uma das regiões de maior diversidade e onde ocorrem numerosas variedades endêmicas, têm sido referidos como centros de origem dessa espécie. Bem antes de qualquer evidência histórica, o arroz foi, provavelmente, o principal alimento e a primeira planta cultivada na Ásia.

Outras espécies importantes na nossa culinária são originárias de regiões distantes, tendo sido adaptadas por agricultores e, a partir do século XX, melhoradas por trabalhos científicos conduzidos por órgãos de pesquisa nacionais. Assim, temos o trigo, cuja origem situa-se na região do Crescente Fértil, localizada no Oriente Médio compreendendo atualmente Israel, Cisjordânia e Líbano bem como partes da Jordânia, da Síria, do Iraque, do Egito e do sudeste da Turquia; a soja, de introdução mais recente no país, cuja domesticação se deu na China, e o milho, cuja origem está no México.

Já o feijão é originário das Américas, mais especificamente do México, de países da América Central e da América do Sul, desde o Equador, passando pelo Peru e Bolívia, até chegar à Argentina.

As evidências arqueológicas mais antigas encontradas até o momento para o feijão são, na América do Sul, as da caverna de Guitarrero, no vale do Rio Santa, estado de Ancash, no Peru, datadas de 8 a 10.000 anos, e as de Huachichocana, na província de Jujuy, na Argentina. No México, no Vale do Tehuacán, Estado de Puebla, estas evidências são de aproximadamente 6.000 anos.

No Brasil, acredita-se que o feijão já era consumido pelos índios bem antes da chegada dos colonizadores, provavelmente como resultado do intercâmbio com as regiões de onde é originário.

Aqui, tornou-se um alimento característico no cardápio da população. Junto com o arroz, constitui o prato mais popular no país, principalmente para as camadas de baixa renda da população. O reflexo da importância do feijão para o povo brasileiro traduz-se no fato de que o País é o maior produtor e também o maior consumidor mundial do grão.

Em termos nutricionais, o feijão é a fonte mais importante de proteínas e a segunda de carboidratos, sendo superado apenas pelo arroz. O balanço de aminoácidos resultante do consumo de arroz (integral) com feijão, é excelente, pois as deficiências existentes em cada um destes alimentos são reciprocamente compensadas pelo outro. Enquanto o feijão é deficiente em termos de aminoácidos sulfurados, como a metionina, é rico em lisina; com o arroz ocorre exatamente o contrário.

Além de proteínas e carboidratos, o feijão é um fornecedor de vitaminas, minerais e fibras alimentares, que resultam em efeitos fisiológicos importantes para a saúde humana, como os efeitos hipocolesterolêmico (promove a diminuição do mau colesterol) e hipoglicêmico (reduz o teor de açúcar no sangue), estes promovidos pelas fibras

Tem sido observado que nas populações urbanas tem aumentado, nos últimos anos, a freqüência de certas doenças que resultam, provavelmente, das condições estressantes a que as pessoas são submetidas quotidianamente. Dentre estas doenças, salientam-se a diabetes, as doenças cardiovasculares, a obesidade e o câncer intestinal. As fibras alimentares  têm-se revelado capazes de reduzir o risco de ocorrência destas doenças, como resultado da combinação das seguintes ações fisiológicas: aumento do bolo fecal e do trânsito intestinal, ligação com ácidos biliares, sua transformação em ácidos graxos de cadeia curta no intestino e aumento da viscosidade.

As fibras alimentares possuem duas frações, a solúvel e a insolúvel. A diminuição no tempo de permanência do bolo fecal no intestino e o volume do mesmo, estão ligados às fibras insolúveis. A ligação a ácidos biliares está associada à fração solúvel, formada por  pectinas e hemiceluloses, que são transformadas no intestino grosso em ácidos graxos de cadeia curta. A fibra solúvel também é a responsável pelo aumento da viscosidade das paredes internas do intestino e pela consequente redução dos processos que resultam em digestão e absorção. Os efeitos derivados do elevado teor de fibras na dieta alimentar em associação com a baixa velocidade de digestão do amido, resultam em efeitos fisiológicos interessantes no controle de diabetes e hiperlipidemias.

O feijão está entre os poucos alimentos integrais que contém uma quantidade significativa dos dois tipos de fibra mencionados, colocando-o como apto a desencadear todos os processos acima referidos. Além disso, preconizam os nutricionistas, hoje em dia, deve haver uma maior limitação sobre a ingestão de lipídios, com o concomitante aumento na ingestão de carboidratos complexos, como o amido. Também neste caso, o feijão se apresenta como excelente opção tendo em vista o baixo teor de lipídios e o alto teor de carboidratos complexos presentes em seus grãos.

Estudos relatados em trabalho da Colorado State University, nos Estados Unidos, revelam que dietas de pacientes acometidos de diabetes ou portadores de alto teor de colesterol no sangue, quando acrescidas de feijão, resultaram na diminuição de até 20% no teor de colesterol no sangue, bem como na redução significativa do teor de açúcar. Relatam estes trabalhos que a ingestão de feijão, que pelo seu teor de fibras resulta em um efeito de “ enchimento”, tende a reduzir a ingestão de outros alimentos, atuando como importante coadjuvante.

Segundo a FAO, de acordo com a dieta  que  seria  recomendada para um ser humano, o consumo de 60 g de feijão por dia (equivalentes a 22 kg/ano), considerado como moderado,  preencheria 27% da proteína, 10% do cálcio, 60% do ferro, 14% e 8% das vitaminas tiamina e niacina, respectivamente, e 10% do total das calorias que seriam necessários a este ser humano em um dia.

Mais recentemente, novas e importantes características nutricionais do feijão foram descobertas. Uma destas, é a riqueza em antocianinas, principalmente em feijões de grãos pretos, compostos que apresentam ação antioxidante em níveis comparáveis àqueles encontrados em uvas. Adicionalmente, o feijão constitui-se em excelente fonte de molibdênio. Este elemento químico compõe a enzima sulfito oxidase que desempenha um importante papel na desintoxicação de sulfitos, sais que têm sido comumentemente utilizados como conservantes na indústria de alimentos, principalmente em embutidos,  e que podem provocar taquicardias, cefaléias, ou desorientação em pessoas sensíveis. 

O feijão pode ser consumido de inúmeras formas: como grãos secos, a mais comum no Brasil, a partir dos quais se prepara a tradicional feijoada; como grãos verdes, retirados das vagens ainda imaturas; como vagens verdes, cuja denominação no Brasil é feijão-vagem, feijão-de-vagem, ou simplesmente vagem, e, finalmente, nas regiões mais elevadas do Peru e da Bolívia, como grãos tostados, que rebentam como milho pipoca quando aquecidos. Este tipo é conhecido naquelas regiões como ñuña ou poroto .

Na década de 60, o brasileiro consumia cerca de 30 kg por ano. Hoje observa-se uma queda para valores próximos a 18 kg. Frente à importância do feijão como alimento, que pode reduzir o risco de doenças que cada vez mais atingem as populações das cidades, há preocupação por parte de órgãos oficiais, em promover campanhas de aumento do seu consumo, principalmente direcionadas à população mais jovem. Com certeza, o uso de feijão na merenda escolar é uma forma de estabelecer o hábito de consumir feijão pelos jovens.  Assim, no futuro, poderemos ter cidadãos  mais saudáveis e, porque não, mais felizes. Por tudo isso, afinal, devemos comer mais feijão.

Irajá Ferreira Antunes e Gilberto A. Peripolli Bevilaqua são Pesquisadores da Embrapa Clima Temperado


Data de Publicação: 00/00/0000 às 00:00hs
Fonte: Embrapa Clima Temperado
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