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A importância da cultura do arroz irrigado para a avifauna da Região Costeira Sul do Rio Grande do Sul

Nove espécies vêm do Hemisfério Norte nos meses de verão e cinco do Hemisfério Sul nos meses de inverno (outras quatro não têm as rotas definidas), valendo-se do amplo espelho de água doce das praias, lavouras de arroz e dos extensos banhados como paradouro temporário para alimentação nas suas rotas de migração ou permanecendo por alguns meses no verão ou no inverno.

Entre os usos da terra no município de Rio Grande, que representa bem a área da restinga da Lagoa Mirim, apenas 8,3% são ocupados por cultivos com integração lavoura-pecuária, notadamente arroz irrigado, soja e pecuária de corte, os quais estão dispostos nas áreas mais altas – acima do nível dos banhados (várzeas) e livres das enchentes da Lagoa Mirim e do Canal São Gonçalo. Banhados lacustres e litorâneos, compostos por áreas inundadas (16,8%), campos secos (24,6%) e úmidos (30,4%) perfazem a maior extensão da área, sendo utilizados na maior parte para a pecuária extensiva. Matas nativas totalizam 10,8% e os restantes 9,1% são áreas urbanas, corpos d’água, reflorestamentos, areias e dunas.

A região é reconhecida pela Unesco como área de interesse ambiental para a humanidade. A Estação Ecológica do Taim, com reconhecida importância internacional, também está inserida no contexto da bacia. A região também é considerada, pela Universidade de Wageningen (Holanda), como uma das cinco áreas com mais elevado potencial agrícola do mundo, equiparando-se às várzeas do Rio Nilo, pela disponibilidade de água, topografia plana e radiação solar.

Com vocação para orizicultura irrigada, nesta região, hoje é bastante comum encontrar-se produtividades que ultrapassam 10 toneladas/ha. Concomitantemente, são encontradas nas propriedades arrozeiras próximo de uma centena de espécies de aves, muitas delas alimentando-se de peixes, anfíbios, invertebrados e outros itens de sua dieta que desenvolvem-se dentro e no entorno da lavoura de arroz, em adição à dieta alimentar que já existe nos banhados, e ainda durante a estação seca quando há menor presença de charcos, beneficiando assim sua reprodução e crescimento ponderal e populacional. Estima-se que pelo menos 15 espécies tiveram suas populações aumentadas nessas propriedades.

A pergunta que surge é a seguinte: será que, ao contrário do que alguns apregoam, a lavoura de arroz, ao invés de causar impactos negativos, não estaria favorecendo a natureza e prestando serviços ambientais relevantes, ao mesmo tempo em que produz alimento para uma população que não para de crescer?

Posto isto, cremos que o momento exige equilíbrio na discussão entre conservação ambiental e aspectos socioeconômicos envolvidos. Neste sentido, cabe esclarecer ao leitor a diferença entre conservação e preservação. A conservação pressupõe uso e manutenção de um estado saudável dos recursos naturais, enquanto que preservação restringe-se ao refúgio, reserva, resguardo, proteção integral desses recursos e não pressupõe o seu uso.

Não há como utilizar sem alterar em algum grau o estado natural do ambiente. O solo tem o seu estado natural alterado quando cultivado. No entanto, o solo é utilizado há milênios em alguns locais, demonstrando caráter duradouro, um dos pilares da conservação ou uso sustentável.

É incontestável que precisamos conservar os recursos naturais. Mas também é verdade que a produção de alimentos para a população mundial é uma prioridade incontestável e esta tem sido a função da agricultura desde que o homem deixou de ser nômade. Por outro lado, não podemos esquecer que o agricultor precisa de lucro para poder continuar produzindo os alimentos tão necessários para todos nós.

Sem dúvida alguma, afirmamos que a busca pelo equilíbrio entre produção de alimentos e conservação dos recursos naturais será favorecida com a presença da lavoura de arroz e não com sua exclusão.

Max Silva Pinheiro e Júlio José Centeno da Silva são pesquisadores da Embrapa Clima Temperado

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Data de Publicação: 03/01/2014 às 10:00hs
Fonte: Embrapa Clima Temperado
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