Açúcar supera 21 centavos em Nova York com riscos à produção no Brasil, Índia e Europa
Agro Mensal do Itaú BBA aponta suporte das compras de fundos e das restrições de oferta; demanda física enfraquecida mantém descontos no açúcar exportado por Santos.
Publicado em: 15/10/2026 às 20:00hs
Os preços internacionais do açúcar ganharam força no início de outubro, com o contrato de março de 2027 superando 21 centavos de dólar por libra-peso em Nova York. Segundo o Agro Mensal de outubro de 2026, divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, a valorização combina maior participação compradora dos fundos e riscos à produção em importantes fornecedores globais.
No Brasil, as chuvas dificultam a moagem no Centro-Sul. Na Índia, estoques reduzidos e incertezas sobre a safra aumentam as preocupações com a disponibilidade. Na Europa, os efeitos do calor e da seca levaram a consultoria a reduzir sua previsão de produção.
Apesar desse suporte às cotações futuras, o mercado físico apresenta demanda pouco dinâmica, limitando os prêmios do açúcar brasileiro.
Fundos ampliam compras e sustentam preços do açúcar
Após a expiração do contrato de outubro de 2026, o vencimento de março de 2027 passou a ser a referência do mercado e ultrapassou a marca de 21 centavos de dólar por libra-peso. Em setembro, sua média havia sido de 17,91 centavos.
Em Londres, a valorização também alcançou a curva de contratos futuros.
O relatório destaca que, em 6 de outubro, os fundos especulativos tinham uma posição líquida comprada de 212,6 mil contratos, a maior em mais de três anos. Essa exposição mantém o mercado sensível a notícias que indiquem novas restrições de oferta.
Chuvas reduzem moagem e produção no Centro-Sul
Na primeira quinzena de setembro, o Centro-Sul brasileiro produziu 2,1 milhões de toneladas de açúcar, menor volume para o período em sete anos, conforme o Agro Mensal.
As chuvas atípicas, associadas pelo relatório ao El Niño, reduziram as oportunidades de operação. Usinas paulistas relataram a perda de oito a dez dias de moagem durante a quinzena.
O processamento de cana somou 30,2 milhões de toneladas, próximo das 29,7 milhões de toneladas registradas na primeira quinzena de setembro de 2015, período também marcado por um El Niño intenso.
Para a consultoria, a evolução do clima no Centro-Sul será o principal fator de acompanhamento no curto prazo.
Índia enfrenta estoques baixos e incertezas sobre a safra
A Associação dos Fabricantes de Açúcar e Bioenergia da Índia (ISMA) informou estoques finais de 3,8 milhões de toneladas em 30 de setembro de 2026, o menor nível em mais de uma década.
O Agro Mensal também destaca uma redução de 4,1 milhões de toneladas na estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para a produção indiana, projetada em 29,5 milhões de toneladas na safra 2026/27.
A Consultoria Agro do Itaú BBA trabalha com previsão de 29 milhões de toneladas, considerando desvio quase nulo de cana para etanol. O documento menciona rumores sobre possíveis restrições ao uso de caldo e melaço para o biocombustível, sem tratar essa hipótese como decisão confirmada.
As chuvas de monção ficaram 13% abaixo da média histórica, com efeitos desiguais entre os estados produtores. A antecipação da moagem solicitada pelo governo também é apontada como risco adicional à produção.
Calor e seca reduzem perspectiva de produção europeia
Na Europa, a estimativa de produtividade agrícola citada no relatório caiu de 77,7 toneladas por hectare, previstas em junho, para 67,4 toneladas por hectare, após a intensa onda de calor e seca.
Diante desse quadro, o Itaú BBA reduziu sua projeção de produção de açúcar no bloco de 13 milhões para 12,6 milhões de toneladas.
A revisão reforça as preocupações com a oferta internacional, em um momento de dificuldades também no Brasil e na Índia.
Demanda física fraca mantém desconto em Santos
A valorização dos contratos futuros não foi acompanhada por igual dinamismo nas negociações físicas.
O açúcar FOB Santos registrou desconto médio de 42 pontos em setembro, segundo o levantamento. As exportações brasileiras do produto recuaram 17% em relação ao mesmo mês de 2025.
Na China, as importações somaram 2,3 milhões de toneladas entre janeiro e agosto, último período disponível na análise, com queda de 14% na comparação anual.
Esses resultados mostram que os riscos de produção sustentam o mercado futuro, enquanto a demanda física enfraquecida limita os prêmios de exportação.
Safra brasileira 2027/28 entra no horizonte do mercado
Para um prazo mais longo, a consultoria destaca a próxima safra do Centro-Sul, mas ressalta que ainda é cedo para projeções precisas.
As estimativas de cana bisada — aquela que permanece no campo para processamento no ciclo seguinte — variam de 19 milhões a 50 milhões de toneladas. O Itaú BBA considera plausível trabalhar com moagem próxima ao recorde de 654 milhões de toneladas de 2023/24, ponderando que aquela temporada contou com condições climáticas especialmente favoráveis.
O relatório também diferencia capacidade industrial de produção efetiva. Embora a capacidade de produção de açúcar do Centro-Sul seja estimada em 46 milhões de toneladas, o volume realizável tende a ser menor, dependendo do ritmo de moagem e da proporção de cana destinada ao açúcar.
Nesse cenário, clima, confirmação da safra indiana e evolução da demanda global continuarão determinantes para os preços internacionais.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias