Publicado em: 28/01/2026 às 10:45hs
O setor leiteiro brasileiro inicia 2026 sob forte pressão devido ao aumento expressivo das importações de leite em pó, que vem comprometendo a rentabilidade e a sustentabilidade da atividade no país.
Mesmo após medidas adotadas por estados produtores — como Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul —, o volume importado continua elevado, o que mantém os preços pagos ao produtor em queda.
O tema foi destaque em uma live promovida pelo Sistema Faemg Senar nesta segunda-feira (26), que reuniu produtores, cooperativas, sindicatos rurais, representantes da CNA e lideranças políticas. O encontro teve como foco debater soluções para o desequilíbrio de mercado causado pelas importações e buscar ações coordenadas de defesa da produção nacional.
Segundo o levantamento apresentado, a captação de leite no Brasil cresceu 7,9% em 2025, enquanto as importações permaneceram altas, resultando em excesso de oferta e retração dos preços internos.
O presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo, alertou que os produtores nacionais estão competindo em condições desiguais.
“Temos uma produção eficiente, que cumpre regras ambientais e sanitárias rigorosas, mas enfrentamos produtos importados que chegam ao país a preços muito mais baixos”, afirmou.
De Salvo reforçou que a continuidade desse cenário ameaça a renda das famílias rurais e pode afetar a permanência de produtores na atividade leiteira.
As entidades defendem ações nacionais mais robustas e avanço nas investigações antidumping para garantir previsibilidade e equilíbrio no setor.
Em 2024, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) protocolou um pedido de investigação antidumping contra as importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai, alegando concorrência desleal.
O governo federal acatou o pedido e iniciou o processo, com base em indícios técnicos.
Entretanto, em agosto de 2025, houve uma tentativa de interromper a investigação sob o argumento de que não haveria similaridade entre o produto importado e o leite nacional. Após articulação das federações, o entendimento foi revertido, permitindo a continuidade do processo e a possibilidade de adoção de medidas provisórias de defesa comercial.
De acordo com Guilherme Dias, assessor técnico da CNA, a crise do leite se intensificou a partir de 2023, com o avanço das importações afetando diretamente os preços domésticos. Desde então, a CNA e o Sistema Faemg Senar têm atuado junto ao governo federal em busca de soluções.
O tema ganhou visibilidade nacional com o 1º Encontro dos Produtores Brasileiros de Leite, realizado em Brasília, que reuniu mais de 600 participantes.
Na edição seguinte, em 2023, o número ultrapassou mil produtores, ampliando a mobilização e pressionando por respostas governamentais.
Entre os resultados práticos, destaca-se o Decreto nº 11.732/2023, que alterou regras do Programa Mais Leite Saudável, e o movimento “Minas Grita pelo Leite”, que reuniu mais de sete mil produtores em Belo Horizonte em março de 2024.
A mobilização resultou na suspensão do diferimento do ICMS para o leite em pó importado em Minas Gerais — medida posteriormente adotada por Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Alagoas e Pernambuco.
Em 2025, o governo mineiro ampliou o benefício tributário para o queijo muçarela, reforçando o apoio ao setor.
O histórico da balança comercial de lácteos revela que o Brasil é, tradicionalmente, um importador líquido de derivados de leite, com volumes de importação superiores às exportações nas últimas décadas.
Entre o final dos anos 1990 e os 2000, o país registrou fortes déficits, impulsionados principalmente pela entrada de leite em pó da União Europeia e da Nova Zelândia.
A atuação da CNA foi determinante para aplicar medidas antidumping contra esses países, o que contribuiu para reduzir o ritmo das importações e reequilibrar o mercado interno.
Contudo, desde 2022, observa-se nova alta das importações e aumento do déficit comercial do setor.
Atualmente, a participação de produtos importados na captação nacional saltou de 2%–4% para até 10%, comprometendo a competitividade da produção brasileira.
“Os dados mostram que os instrumentos de defesa comercial são essenciais para equilibrar o mercado. Não se trata de fechar o país, mas de garantir uma concorrência justa. O produtor brasileiro quer competir, desde que seja em condições iguais”, conclui Antônio de Salvo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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