Adubos e Fertilizantes

Tensões no Oriente Médio reacendem alerta no mercado global de fertilizantes e geram preocupação para o agro

Escalada geopolítica pode pressionar preços de nitrogenados, elevar custos logísticos e aumentar incertezas para países importadores como o Brasil.


Publicado em: 16/03/2026 às 12:00hs

Tensões no Oriente Médio reacendem alerta no mercado global de fertilizantes e geram preocupação para o agro
Conflito no Oriente Médio amplia incertezas no mercado de fertilizantes

A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar o mercado global de fertilizantes em estado de alerta, especialmente no segmento de nitrogenados, como ureia e sulfato de amônio. O cenário ocorre em um momento em que o setor ainda enfrenta os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, dois importantes fornecedores mundiais de insumos agrícolas.

Nos últimos meses, os preços desses fertilizantes já vinham apresentando trajetória de alta, impulsionados por fatores estruturais, como restrições às exportações da China, a continuidade do conflito no leste europeu e a forte demanda de países importadores, como a Índia.

Com o agravamento do cenário geopolítico na região, cresce agora a volatilidade nos preços e nas decisões de compra, aumentando a cautela entre empresas e produtores agrícolas ao redor do mundo.

Oriente Médio tem papel estratégico no comércio global de ureia

A importância do Oriente Médio para o mercado internacional de fertilizantes é significativa. A região responde por cerca de 40% do comércio marítimo global de ureia, além de possuir participação relevante na oferta de amônia e fertilizantes fosfatados.

Parte da produção ligada ao Irã chega ao mercado internacional por meio de operações comerciais trianguladas via Omã, o que torna o monitoramento das rotas marítimas ainda mais sensível.

A atenção do mercado se concentra especialmente no Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo negociado globalmente. Qualquer aumento das tensões envolvendo países como Irã, Israel e Estados Unidos pode pressionar os custos energéticos, fretes marítimos e seguros de carga, refletindo diretamente no preço final dos fertilizantes.

Energia mais cara pode elevar o custo de produção agrícola

A relação entre o setor energético e a produção de fertilizantes é direta. A fabricação de nitrogenados depende fortemente do gás natural, insumo fundamental para a produção de amônia anidra, base de diversos fertilizantes utilizados nas lavouras.

O gás natural também exerce papel importante em várias etapas da cadeia alimentar, desde a produção agrícola até a conservação de alimentos.

Dessa forma, interrupções no fornecimento ou aumento nos preços do gás e do petróleo tendem a impactar rapidamente o mercado agrícola global, elevando os custos de produção.

Mercado reage com antecipação de compras e ajustes logísticos

No curto prazo, o mercado já começa a reagir à possibilidade de restrições logísticas e aumento de custos no transporte marítimo.

Empresas do setor relatam uma corrida para antecipar importações de fertilizantes, motivada pelo receio de que eventuais tensões no Estreito de Ormuz possam comprometer o fluxo de embarques nas próximas semanas ou meses.

Esse movimento tem levado companhias a reorganizar operações logísticas, liberando espaços em armazéns e áreas industriais que normalmente estariam reservadas para manutenção durante a entressafra. O objetivo é garantir capacidade para receber novos carregamentos antes de possíveis gargalos no comércio internacional.

Impacto imediato no Brasil tende a ser moderado

Para o Brasil, o impacto imediato tende a ser moderado, já que o país não está no período de maior volume de compras de fertilizantes nitrogenados.

Ainda assim, o cenário gera preocupação para os próximos meses, especialmente após a colheita da soja, quando os produtores começam a negociar os fertilizantes da próxima safra, com destaque para fosfatados e potássicos.

A dependência externa permanece elevada. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos, o Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, tornando o setor agrícola particularmente sensível a choques geopolíticos e logísticos.

Fertilizantes representam parcela relevante do custo de produção

A maioria dos solos brasileiros apresenta baixa fertilidade natural e elevada acidez, o que exige aplicação regular de fertilizantes para garantir produtividade.

Por isso, esses insumos têm peso significativo no Custo Operacional Efetivo (COE) das lavouras.

Segundo dados do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, dentro do Projeto Campo Futuro, os fertilizantes representam, em média:

  • 34% do custo operacional do milho de verão
  • 27% do custo da soja e do milho segunda safra
  • 30% do custo do trigo
  • 18% do custo do arroz irrigado
Brasil depende de importações para garantir abastecimento

O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes intermediários importantes, como ureia, sulfato de amônio e cloreto de potássio.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior indicam que, em 2025, o país importou:

  • 7,7 milhões de toneladas de ureia, com destaque para fornecedores como Nigéria, Rússia, Omã, Catar e Argélia
  • 7,78 milhões de toneladas de sulfato de amônia, quase totalmente provenientes da China
  • 13,7 milhões de toneladas de cloreto de potássio, principalmente da Rússia e do Canadá
  • 3,1 milhões de toneladas de MAP (fosfato monoamônico), com destaque para Rússia, Arábia Saudita e Marrocos

No caso da ureia, 33% das importações brasileiras têm origem no Oriente Médio, evidenciando a sensibilidade do país às tensões na região.

Produção nacional volta ao debate estratégico

Diante desse cenário de incerteza logística e risco de aumento de custos, ganha força o debate sobre a ampliação da produção doméstica de fertilizantes.

Iniciativas previstas no Plano Nacional de Fertilizantes buscam reduzir a dependência externa por meio da retomada de unidades industriais e estímulo à produção local.

Em períodos de estabilidade global, produzir fertilizantes no país pode parecer menos competitivo. No entanto, em um ambiente marcado por conflitos e instabilidade logística, a produção interna passa a ser vista como um fator estratégico para garantir segurança no abastecimento agrícola.

Alta do petróleo pode pressionar diesel e custos no campo

Outro ponto de atenção para o setor agropecuário é o possível impacto da alta do petróleo sobre o diesel, combustível essencial para as operações agrícolas e para o transporte de insumos e produção.

O Brasil não é autossuficiente na produção de diesel, o que exige importações para atender à demanda interna. Caso os preços internacionais subam de forma significativa, existe risco de pressão sobre o abastecimento e sobre os custos logísticos.

No campo, o gasto com operações mecanizadas, que incluem diesel e manutenção, representa cerca de:

  • 12% do COE da soja e do milho segunda safra
  • 17% no caso do arroz
  • 16% no feijão

Além disso, aumentos no preço do combustível tendem a elevar o frete rodoviário, impactando a formação de preços no mercado interno.

Custos mais altos podem reduzir a rentabilidade do produtor

Mesmo diante da alta nos custos de produção, o setor agropecuário enfrenta limitações para repassar integralmente esses aumentos aos preços de venda.

Isso ocorre porque o produtor rural é, em grande parte, tomador de preços no mercado, diferentemente de setores industriais e de serviços.

Com isso, a elevação nos custos de fertilizantes, combustíveis e logística pode reduzir a rentabilidade no campo, ainda que parte desses aumentos eventualmente seja repassada ao consumidor final ao longo da cadeia de abastecimento.

Fonte: Portal do Agronegócio

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